Capítulo V - Algo em comum
— E o que posso contar então?
— Nada.
— Nada?
— Quanto menos souberem de você, mais segura você estará.
— Nem posso falar dos dons que me descreveu?
— Não. Te coloquei na turma da Amélia, que é a que cuida dos alunos de transforma-ção e na turma do Dylan, que é o que cuida dos alunos que controlam os elementos.
— Então eu não posso falar que controlo os elementos, por exemplo? Por que como explicar que estou nessa turma?
— Vai dizer que só controla um dos elementos.
— Por quê?
Simon suspirou.
— Porque para a sua segurança, é melhor que seja assim — disse a diretora.
— Entendo. E por que vocês se importariam com a minha segurança?
— Na verdade, o que me preocupa é a segurança dos outros. Se aquele vampiro con-seguir o exército dele, estamos todos perdidos.
— Exército?
— Eu disse exército?
— Disse.
— Esqueça. O importante é você não ser notada.
Os olhos de Simon brilharam de divertimento olhando Clara, que tinha cara de confu-são. Era a primeira vez que ele lidava com um vampiro sem memória e estava se divertido com isso.
— Estamos alertando. Se não acredita na gente, pode falar com um dos nossos que está na mesma situação que você.
— Tem certeza disso? — a diretora perguntou, surpresa.
— Acredito que assim ela passe a confiar na gente, não acha?
Os dois ficaram em silêncio se olhando e Clara olhou de um para o outro sem enten-der.
— Vou chamá-lo. — A mulher saiu do quarto e deixou os dois sozinhos.
— Existem muitos aqui "nessa situação"?
— Não. Mas quanto mais pudermos esconder, vamos esconder.
— Então não estão todos protegidos.
— Não. Mas como eu disse antes, é muito, muito raro um vampiro ter mais do que cin-co dons.
— Esse muito raro, quer dizer quase nenhum?
— Exatamente.
Clara desviou o olhar para os pés.
Em que espécie de vampiro ela se transformou afinal?
A diretora apareceu de novo no quarto e para a surpresa de Clara, Drake veio atrás de-la. Os dois trocaram olhares e por um momento ele a olhou surpreso, mas logo o olhar su-avizou e ele parece ter compreendido alguma coisa.
— Clara esse é o Drake. Vocês têm algo em comum.
— Surpreendente.
Drake sorriu largamente quando ela falou isso.
— Já se conhecem?
— Sim — respondeu Drake. — E ela falou na frente do Bryan que controla todos os elementos.
Clara comprimiu os lábios. Que fofoqueiro!
— Por que não me disse isso? — Simon perguntou calmo.
— Porque não queria interromper seu raciocínio.
Drake riu e ela o olhou carrancuda.
— Ele sabe ficar quieto? — Simon perguntou olhando Drake.
— Acho que se ela pedir com jeitinho, ele não fala nada.
Clara ergueu as duas sobrancelhas.
— Acho que vocês podem resolver esse problema. Agora ninguém mais pode saber. Ouviu, Clara?
— Ouvi — disse carrancuda.
— Então... O que eu vim fazer aqui mesmo? Pelo que eu sei, é expressamente proibido garotos no quarto das garotas.
Simon revirou os olhos e Clara segurou para não rir. Pelo visto, Drake era daquele jeito com todos, não só com ela.
— Clara acha que não temos porque protegê-la. Parece que não confia em nós.
— Pelo menos ela pensa bem, não é?
— Pare de gracinhas, Drake! O caso é sério! — a diretora repreendeu.
— Era você no freezer mais cedo? — Simon perguntou.
— Sim e ela entrou lá com o Bryan. Estava muito sedenta. Nem eu fico daquele jeito.
— É porque ela tem poucas semanas de vampira.
— Semanas?
— Sim.
— Como ela está tão consciente? — falou olhando Clara com assombro.
— É aí que fica a dúvida.
Todos ficaram em silêncio encarando a garota. Ela se encolheu um pouco.
— Isso é impressionante, mas o que quer que eu faça?
— Você tem mais de quatro dons? — Clara perguntou olhando Drake.
— Sim e eles gentilmente pedem para mentir.
— Então você não controla só o fogo...
— Acho que a mente dela ainda está lenta sim.
Clara respirou fundo e não respondeu o deboche. Simon e a diretora trocaram olhares. Se fosse outro recém-nascido qualquer, já tinha pulado na garganta de Drake e o feito em pedaços.
— Como combinei com o Drake, você pode entrar no freezer quando sentir sede, mas ninguém pode te ver. Ninguém.
— Eu já entendi — disse carrancuda. — Não vou falar com ninguém e não vou deixar que me vejam.
— Ótimo! Acho que agora que ela acredita, fica mais fácil. As aulas começam na se-gunda. A garota que ficará aqui, chegará amanhã. Não conte nada a ela.
— Eu já entendi — disse irritada.
Drake sorriu e apesar de não sorrir também, os olhos de Simon brilharam de diverti-mento.
— É impressionante que ela não faça nada.
— Cala a boca, Simon! — a diretora o encarou com ferocidade.
— Só estou dizendo a verdade.
— Pelo visto é coisa de vampiro ser assim... — Clara falou pensativa.
— Assim como? — Drake perguntou.
— Sarcástico e mal humorado.
— Eu não tenho mau humor.
— Bom humor que não é.
Simon riu e olhou Drake com cinismo.
— Já vi que vão se dar muito bem! — disse sarcástico. — Não fique testando a sorte, Drake. Alguma hora ela pode explodir.
— Estou ansioso por esse momento — falou sorrindo de forma desafiadora.
— Vamos sair daqui — a diretora falou estressada.
— Será que eu posso falar com você? — Clara perguntou a Drake.
Ele a olhou surpreso e logo sorriu debochado.
— Fora do quarto pode — a diretora que respondeu.
Drake riu com ironia.
— Ouviu? Fora do quarto. — Virou as costas e saiu.
Os outros dois saíram também e Clara foi atrás. Drake estava encostado na parede ao lado de fora.
— O que você quer?
Clara olhou os dois vampiros se afastando e voltou a olhá-lo.
— Você realmente acha que eles estão protegendo a gente?
Drake colocou as mãos nos bolsos da calça.
— Não.
— Então por que segue o conselho deles?
— Porque meu pai mandou.
— Seu pai?
— É como chamamos os vampiros que nos criaram.
— Ah...
— Ele sim diz que tenho que me controlar e não contar a ninguém.
— Você acha que seu amigo vai guardar meu segredo?
— Não. A menos que você o convença.
— Como?
Drake sorriu com escárnio.
— É simples. Use o seu corpo.
Clara ficou em silêncio com os olhos arregalados.
— A segunda coisa que um vampiro ama nesse mundo, é sexo.
Ela desviou o olhar dele. Estava chocada com o que ele disse. E ainda por cima falou com uma naturalidade assustadora!
— Se eu não fizer isso, acha que ele conta?
Drake se aproximou dela, a encarando bem de perto.
— Eu contaria. — Se afastou e caminhou lentamente para longe dela.
— Ainda bem que eu também sei o seu segredo então.
Ele parou de andar e olhou para trás com um largo sorriso. Clara ergueu as sobrance-lhas.
— É, mas eu também tenho o seu.
— Então se um cair, o outro cai junto.
— Não acho que seja dessa forma, mas vou deixar você pensando que sim. — Virou as costas e foi embora.
Clara tinha as mãos fechadas com força. Sentia vontade de voar no pescoço de Drake. Que metido irritante!
