Capítulo IV - Corrida
Ela chupou todo o sangue da sacola e piscou os olhos lentamente. Até eles estavam ar-dendo como a garganta, mas depois daquela sacola de sangue, tudo voltou ao normal no corpo dela.
— Melhor?
— Sim. Obrigada.
— Deixa eu ver... — Bryan segurou o queixo dela e puxou seu rosto na direção dele. O garoto observou os olhos dela e agora estavam normais e as presas sumiram. — Parece que está mesmo.
— Como assim?
— Seus olhos me disseram que estava praticamente seca.
— Meus olhos?
— É, você sabe...
Clara franziu a testa olhando-o. Bryan trocou olhares com Drake.
— Você é bem esquisita — disse Drake.
— Pelo visto não sou só eu, não é? Se o normal é não sentir sede durante o dia e você está aqui bebendo, deve ser tão anormal quanto eu.
Bryan deu uma risadinha e Drake encarou Clara com fúria.
— Não me chama de anormal — disse, feroz.
— Calma, Drake.
Drake encarava Clara com um olhar de ódio que fez ela ficar em silêncio. Sentiu medo pela primeira vez desde que acordou vampira.
— Então... Vai me explicar por que estava aqui? — Bryan perguntou.
— Já está bem na cara, não acha? — Olhou o amigo finalmente.
— Mas isso sempre acontece?
Drake ficou quieto ainda encarando o amigo.
— Melhor a gente voltar... — Clara falou olhando para trás.
— Por quê? — Drake perguntou.
— Tem alguém vindo.
Drake e Bryan trocaram olhares e logo começaram a correr para fora do local. Clara foi atrás, mas eles eram mais rápidos. Os três escutaram os passos do lado de fora e Drake parou de repente, fazendo Clara bater contra ele. Sem falar nada, ele agarrou Clara pela cintura com um dos braços e levantou ela. A garota não conseguiu nem protestar, pois Drake voltou a correr, carregando-a para fora do local. Em pouco tempo estavam fora do freezer e bem longe dele. Estavam atrás de uma pilastra e observavam de longe quem era. Simon entrou no freezer depois de observar a porta aberta.
Drake e Bryan suspiraram aliviados. Logo Drake sentiu uma cutucada no ombro e vi-rou o rosto para o lado. Clara tinha uma das mãos apoiada no peito dele e o encarava. Ele tinha um dos braços em volta da cintura dela e fazia ela ficar fora do chão.
— Pode me soltar?
Ele a colocou no chão e sorriu de lado com o olhar que lançava a ele.
— Se eu não fizesse isso, iam te pegar. Pode me agradecer depois.
— Por que me pegariam? Estava bem atrás de vocês.
— Por isso mesmo. Pelo visto você não tem muita velocidade, não é?
— Deixa ela em paz, Drake. Não fiz o que ele fez, pois ele é mais rápido do que eu. Se-não com certeza te pegaria — Bryan disse sorrindo.
— Vocês são estranhos.
Os dois riram.
— Olha quem fala — Drake debochou e Bryan revirou os olhos.
— Que dom você tem? — Bryan mudou de assunto de repente.
— Controlo os elementos.
— Ah... Que pena. Não vamos nos ver nas aulas, mas vai ficar na mesma do Drake.
— Que ótima notícia — disse sarcástica e os dois riram.
— Qual elemento você controla? — Drake perguntou.
— Todos.
Os dois ficaram em silêncio olhando-a por um longo momento.
— E você? — ela perguntou nervosa com os olhares. Será que falou algo errado?
— Fogo.
— Só?
— É — disse seco.
— Melhor voltarmos. Vão acabar pegando a gente — Bryan falou para eles pararem de se olhar. Qual a parte de que a garota era dele Drake não entendeu?
Seguiram silenciosamente para os dormitórios. Bryan olhava carrancudo na direção de Drake, mas ele estava ignorando completamente.
— Até mais tarde — falou com Clara.
— Até. — Ela se afastou deles e seguiu para o seu quarto.
Os dois foram para o deles. Drake ignorava o olhar de repreensão do amigo.
— Você está sabendo que ela é minha, não é? Eu deixei bem claro — falou quando es-tavam no quarto.
— Sim, deixou, mas parece que não está claro pra ela.
Bryan fechou as mãos com força. Sempre gostou de Drake, mas no momento, estava querendo arrancar a cabeça dele do pescoço.
— O que estava fazendo lá? Sempre tem sede durante o dia?
— Isso não te interessa.
Um som grave saiu da garganta de Bryan e Drake sorriu. Os olhos brilhando de diver-são.
— Vou dormir. — Virou as costas e deitou em sua cama.
Bryan continuou em pé, com as mãos apertadas encarando-o. Estava se divertindo a suas custas e isso era imperdoável! Não gostou nadinha dos olhares que os dois trocaram. Principalmente depois de ele ter carregado ela para fora do freezer.
Ia ter que fazer Drake entender que a Clara era dele.
***
Clara não dormiu de jeito nenhum. Estava muito ansiosa e sem sono algum. Por que estava sem sono? Se vampiros dormem, qual o problema dela?
Alguém bateu na porta e ela se levantou rápido da cama. Logo abriu e franziu a testa. Era a diretora e o Simon.
— Podemos entrar?
— Sim.
Os dois passaram por ela.
— Aconteceu alguma coisa?
Pensou logo na fuga dela com os meninos e ficou preocupada.
— Queremos conversar sobre seus dons.
— Ah...
— Não tive tempo de falar com você sobre isso, pois tinha outros alunos para atender, mas agora a gente pode conversar — disse Simon.
— Mas está tudo bem? Vocês parecem preocupados.
Os dois trocaram olhares.
— Sente-se. Vou tentar explicar o máximo que eu conseguir.
Clara se sentou na cama e olhou de um para o outro completamente confusa.
— Você sabe que é vampira há pouco tempo, certo?
— Não sei, não me lembro.
— Pelo que contou, tem pouco tempo. Vampiros recém-criados são insaciáveis. Não há nada no mundo para eles além de sangue. No entanto você está aqui e não parece sedenta.
Clara se encolheu ao escutar isso.
— Geralmente precisam de um ou dois anos até voltarem a sua consciência.
— Tudo isso?
— Sim. Aqui na escola só aceitamos vampiros com dois anos de criação.
— Então por que estou aqui?
— Fiquei extremamente curioso com seu caso e pedi a senhora Tompson para deixá-la ficar.
— Vou virar um experimento ou algo assim?
Os dois riram e Clara se surpreendeu com o som. Achou que eles não fossem capazes de rir.
— É claro que não, mas não deixa de ser curioso. Ainda mais o nome que deu do vam-piro que provavelmente é seu criador.
— Ele não disse nada disso.
— Mas por ele estar perto na hora que você despertou, pode ser que seja.
— Isso é ruim?
— Ruim, não, mas perigoso. É por isso que estamos aqui. Você não pode contar a nin-guém sobre esse vampiro.
— Por quê?
— Há uns vampiros... Digamos interessados em vampiros como você.
— Como eu?
— Com muitos dons.
— E o que eles podem querer comigo?
— As autoridades acham que vampiros como você são incontroláveis e vão querer te matar. Não sei por que essa sina com vampiros dotados. Parecem querer que só exista vampiros frescos no mundo. Talvez assim eles se sintam "mais poderosos".
— Dotados? Frescos? Olha, eu não estou entendo o que você quer dizer.
Simon resmungou irritado.
— Eu esqueço que você não tem memória. Dotado é quando um vampiro tem mais de cinco dons e fresco é o vampiro que tem um ou nenhum.
— Hum... Mas eu não tenho mais do que cinco. Tenho?
— Aí que está. Eu acho que tem, mas está bloqueado.
— Como assim bloqueado?
— Eu não sei, parece que mexeram na sua mente e é por isso que eu acredito sim que Tom Morris foi realmente quem te mandou pra cá.
— Por que só ele pode manipular mentes?
— Drácula também pode, mas por ter dito o nome do Tom...
— Mas por que eu?
— É isso o que quero descobrir.
Clara ficou em silêncio observando o Simon. O olhar dele era de curiosidade e ao mesmo tempo expectativa. O que ele estava pensando? Que ela é algum tipo de super vampira ou algo assim?
