Capítulo VI - Grupinhos
Um pouco antes da hora do café da manhã, uma garota de cabelos negros entrou no quarto de Clara. Ela estava sentada na cama pensando no que o Drake disse.
Quando viu a garota entrar, ficou em silêncio olhando-a. A menina olhava o quarto com desdém. Logo seus olhos pousaram em Clara e ela ergueu uma sobrancelha. Diferen-te de Clara, ela era alta e tinha um corpo escultural. Cintura fina, seios grandes. Olhos cas-tanhos e um rosto perfeito.
Pelo menos Clara achou.
Usava um batom vermelho chamativo. Parecia ser tão arrogante quanto Drake, mas tal-vez isso seja uma qualidade de vampiros...
— Vou dividir o quarto com você?
— Não sei. Te mandaram para o número cinco?
— Sim.
— Então vai.
A menina revirou os olhos.
— Era só o que me faltava! — reclamou e seguiu para uma das camas.
Clara ficou em silêncio olhando a outra. Qual o problema desses vampiros afinal? Nem conhece essa garota para ela falar uma coisa dessas! Mas parecia que ninguém ia com a cara dela naquele lugar! Pensou seriamente em fugir dali e ir para bem longe, mas para onde iria? Olhou o relógio e viu que eram 18 horas. Levantou da cama e saiu do quarto. Tinha alguns vampiros no corredor e todos olharam para ela. Passou por eles com pressa, sentindo vários olhos em sua direção.
Logo esbarrou em alguém ao virar o corredor.
— Que pressa é essa? — Bryan sorriu.
— Só... — parou de falar e desviou o olhar.
— Algum problema?
— Não ter memória é o maior dos meus problemas...
— Não fica assim. Posso te ajudar no que for preciso. — Colocou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha.
Clara ficou tensa quando sentiu os dedos dele roçarem a pele de seu rosto.
— Na verdade, eu queria mesmo falar com você.
— É mesmo? — disse com um grande sorriso.
— Sim.
— Sobre o que?
— Ontem eu disse que controlava todos os elementos... Pode não contar isso a nin-guém?
Bryan ficou em silêncio olhando o rosto dela por um momento. Clara o olhava ansiosa. Não queria fazer o que o Drake falou! Mas e se ele exigisse isso em troca do silêncio? O que ela ia fazer?
— Claro. Pode ficar despreocupada.
A garota relaxou visivelmente e Bryan sorriu. Logo os dois olharam para o lado. Um garoto se aproximou deles e encarava Clara com curiosidade. Ele olhou o Bryan e o garoto revirou os olhos.
— Esse é o Bernard. Um dos meus amigos.
— E você deve ser a Clara — falou estendendo a mão a ela.
— Sim. — Apertou a mão dele.
— É bom conhecer você.
— Cai fora, Bernard!
O garoto riu com humor e saiu de perto deles.
— Vocês são todos esquisitos.
Bryan riu alto com o comentário.
— A menina que vou dividir o quarto é um entojo.
— Qual o nome dela?
— Não faço a menor ideia. Ela já chegou esnobando o lugar e me esnobando.
— Isso é comum.
— Esnobar os outros?
— É.... Vampiros só falam com quem querem.
Clara balançou a cabeça exasperada e Bryan sorriu.
— Vamos ao café?
— Sim.
Seguiu o garoto pelo lugar. Teria que lembrar por onde passar para não se perder quando estivesse sozinha. O lugar era grande e os corredores iguais. Entraram em um cor-redor mais largo e Clara viu no fim dele uma porta gigante de madeira. Estava aberta e lá dentro tinha muitas mesas e cadeiras. Nada disso fazia sentido para ela. As poucas lem-branças que tinha, eram de vampiros que não dormiam, só queriam sangue, não tinham dom nenhum e não estudavam.
Se aproximaram das mesas e ela viu várias bolsas de sangue sobre elas. A cor do san-gue não era tão forte como a que Drake deu a ela no dia anterior.
Qual será a diferença no sangue? Além da cor e gosto?
— Sente comigo. Acho que não conhece ninguém por aqui, não é?
— E não parece que gostam muito de mim. E nem o motivo disso eu sei — disse de mau humor.
Bryan segurou o queixo dela e olhou seus olhos.
— Não ligue para os outros. Aqui na escola só alguns se sobressaem e tenho certeza que você vai ser uma dessas.
— Tá.
— Melhor beber logo. Parece com sede de novo.
Clara desviou o olhar dele e engoliu em seco. Fazendo isso, sentiu a garganta como uma lixa mais uma vez. Será que é por isso que se sente enfurecida?
Os dois se sentaram um ao lado do outro. Clara olhava os outros vampiros ao redor. Tinha vários grupinhos e nesses grupos, vários vampiros parecidos. Chegou à conclusão que os grupos eram formados por nível de importância.
— Por que tem tantos grupinhos?
— Como eu disse, vampiros só falam com quem querem. Cada grupo é de uma espé-cie.
— Como assim?
— Está vendo aquele grupo? — Apontou na direção de um grupo grande de vampiros.
Pareciam assustados e pequenos.
— Eles são os frescos. Sabe o que isso quer dizer, não é?
— Sim.
— E aqui onde estamos, é o grupo dos normais.
— Ah... Não deveria estar aqui então, não é?
Bryan sorriu.
— Só pelo que contou, você deve estar aqui.
— Mas é um segredo — disse nervosa.
— Não se preocupa, não vou contar a ninguém.
Os olhos do garoto desviaram dela e a expressão em seu rosto mudou totalmente. Cla-ra franziu a testa e olhou para o lado. Drake olhava Bryan com diversão e logo olhou Cla-ra. Ele sentou ao lado dela só para provocar. A garota escutou um rosnado forte de Bryan e o olhou surpresa.
Qual o problema deles?
— Você está bem?
— Sim — respondeu sem tirar os olhos de Drake.
O garoto sorriu largamente olhando Bryan. Se sentia bem em provocar o amigo.
— Definitivamente estranhos.
Os dois riram.
— Você que é desmemoriada e a gente que é estranho?
— Cala a boca, Drake! — Bryan falou irritado.
Clara ignorou os dois e pegou uma das bolsas em cima da mesa. Estava seca!
O garoto sorria largamente olhando o amigo, que tinha um olhar de fúria em sua dire-ção. Ele olhou o rosto de Clara e o sorriso desapareceu. Ela estava outra vez sedenta e isso não era bom. Se alguém visse isso, iam saber sobre ela.
Ele se aproximou da orelha dela.
— Bebe isso logo — sussurrou.
Ela não disse nada. Só bebeu logo o sangue. Como na outra vez, não fez tanto efeito, mas escondeu a vermelhidão dos olhos e isso era o que importava. Clara olhou Drake e ele ficou uns segundos olhando os olhos dela. Logo pegou uma sacola de sangue e bebeu também.
Bryan observava os dois em silêncio.
Que merda foi essa que acabou de acontecer?
Por que o Drake está fazendo essas coisas? Sabe que é a garota dele! Que droga!
