Capítulo 6 - Henrique (PARTE 2)
POUCO ANTES DOS JUÍZES anunciarem o pódio da competição, a praia já estava tomada pelas atletas femininas e as suas equipes técnicas para o início da próxima bateria. O vento e as ondas estavam ainda mais favoráveis aquele horário do que durante a competição juvenil masculina e todo mundo esperava um grande espetáculo de manobras nas águas da Costeira do Pirajubaé.
Um dos cinegrafistas e o editor de vídeos do meu canal estavam posicionados para registrar imagens da movimentação pré-apresentação das meninas enquanto eu e Fred gravávamos alguns takes extras com a molecada que esperava ansiosa o resultado da bateria masculina. Além de Johann, mais dois competidores tinham se destacado no circuito e havia uma verdadeira multidão de garotas alvoroçadas ao redor deles perto de um quiosque que vendia água de coco. Anderson e Emerson García eram dois irmãos gêmeos capixabas que tinham começado a surfar ainda na infância e que acumulavam vários troféus regionais, títulos que tornava possível que eles disputassem o circuito nacional.
— Parece até que os moleques estão besuntados de leite condensado…
O comentário de Fred ao meu lado era irônico, mas era realmente impressionante a quantidade de garotas que rodeava efusivamente os dois moleques naquele momento. Eles eram idênticos e só se diferenciavam pela cor do calção que usavam. Quando eu e meu cunhado nos aproximamos com a câmera digital em punho, eles pareceram nos reconhecer do canal e abriram um sorriso.
— Vocês são do Ação Radical, não é? — perguntou o primeiro deles, o que se chamava Anderson. Eu assenti devolvendo o sorriso. As meninas que rodeavam os dois começaram a emitir suspiros e a tecer comentários sobre a gente. Eu estava usando uma camiseta regata e os meus braços estavam suficientemente expostos para apreciação. — A gente é inscrito no seu canal. Os vídeos que vocês fazem são irados!
Simpaticamente, Fred e eu cumprimentamos os dois meninos e perguntamos se eles topavam dar uma entrevista. Faltavam mais alguns minutos até que os jurados anunciassem quem havia vencido a etapa catarinense do circuito nacional e eu queria aproveitar a adrenalina deles para produzir um vídeo mais espontâneo.
— Vocês podem nos dizer qual a expectativa para esse campeonato e o que acharam das condições do mar hoje?
De maneira despojada e sem qualquer timidez, os gêmeos expuseram a sua opinião sobre como as ondas da Costeira do Pirajubaé haviam favorecido as suas manobras por alguns minutos diante da nossa câmera e o Fred aguentou firmemente enquanto as meninas atrás de nós davam gritinhos excitados para os surfistas. Segundos após fazermos uma pausa para conferir se o vídeo tinha ficado bom através da tela da câmera, uma voz amplificada por um microfone reverberou na praia para anunciar o resultado da primeira bateria do dia. Os gêmeos abriram espaço pela multidão que os pajeava para conferir o que estava sendo dito e um homem alto e atlético se juntou aos dois mais à frente. Era o empresário dos García e ele os acompanhou até perto do palco de onde um apresentador apontava para os troféus encimando uma mesa e o pódio para primeiro, segundo e terceiro lugar na areia. Eu e Fred acompanhamos toda a movimentação e o meu cunhado se prontificou a filmar a reação dos atletas ao anúncio. Meu primo estava a poucos metros de nós, rodeado pelo pai, os amigos e Angélica.
— Com média sete vírgula setenta e cinco, nota de corte oito descartada pelos juízes e uma nota mínima seis igualmente anulada, o campeão da etapa catarinense do Circuito Nacional de Surfe é JOHANN SCHNEIDER do Rio de Janeiro!
Naquele momento, uma explosão de aplausos e gritos ecoou na Costeira do Pirajubaé e tanto eu quanto Fred fomos engolfados pela multidão de espectadores que, de repente, correu para parabenizar o moleque Schneider. Rapidamente, Urich levantou o filho nos ombros e o conduziu pessoalmente até a frente do pódio onde ele seria condecorado vencedor. Uma modelo gostosíssima vestindo um biquíni cobrindo os peitos médios e um shortinho curto na parte de baixo veio caminhando pela areia, a quatro metros do palco de onde o apresentador continuava agitando a galera para mais aplausos. Em seguida, a moça colocou uma medalha dourada em torno do pescoço de Johann e lhe deu um beijo no rosto. Um dos gêmeos havia ficado em segundo lugar, com nota seis ponto setenta e nove e o terceiro lugar, um garoto cearense, conquistou nota seis ponto cinquenta e três, completando o pódio.
— Esses são os nossos campeões da classe juvenil do Circuito de Surfe. Uma salva de palmas a eles!
A voz ao microfone incitou uma nova explosão de aplausos e os três garotos se posicionaram em seus devidos degraus no pódio, exibindo felizes as medalhas no peito e os troféus em mãos. Fred estava a pouquíssimos metros dos surfistas registrando tudo para o canal e o drone da nossa equipe sobrevoava a região, gravando imagens aéreas para a nossa montagem de mais tarde. A etapa juvenil feminina estava prestes a começar e ainda tínhamos muito trabalho a fazer naquele primeiro dia.
Sabendo que os meninos que tinham nos acompanhado do Rio de Janeiro até Santa Catarina estariam sendo vigiados de perto por Urich, após o registro das imagens para o canal, Fred e eu saímos pela região para conhecermos melhor a Costeira do Pirajubaé e fomos surpreendidos positivamente pela beleza natural do local. Um paredão de vegetação circundava boa parte da ilha e, apesar do calor de quase trinta graus 30° que estava fazendo aquele dia, o clima era muito fresco por ali por conta dos ventos que eram soprados das árvores e da mata ao nosso redor. Ainda comentando sobre a competição de surfe que havíamos acompanhado ao longo daquela tarde, nos sentamos em uma mesa à beira-mar, depois, pedimos uma porção de camarão num quiosque instalado a poucos metros de nós e cerveja para ajudar a descer.
O céu já estava ficando escuro no horizonte e o sol já se posicionava a oeste perto do cair da noite. Eu falava ao telefone com Valéria contando a ela parte do que havíamos feito no primeiro dia de trabalho e, como não podia deixar de ser, minha gata vibrou ao saber da vitória de Johann.
— Do caralho! Eu sabia que esse moleque iria detonar!
A voz rouca de Val escapava pelo autofalante do meu iPhone, mas à minha frente, o irmão dela nem estava prestando a atenção em nossa conversa. Os olhos dele estavam vidrados em direção norte da nossa mesa, mais especificamente na bunda de uma garota branquinha que passava parafina numa prancha branca, agachada na areia e acompanhada de uma outra garota vestindo biquíni.
— Uma dupla de irmãos deu algum trabalho ao meu primo na apuração dos pontos, mas ele acabou ganhando até com certa folga. — Eu falei, com o smartphone no ouvido esquerdo, as costas reclinadas na cadeira de metal e os olhos voltados para a gatinha surfista que, naquele momento, já começava a se movimentar em direção ao mar para aproveitar o restante de iluminação do sol e as ondas que quebravam fortes na praia. — É o que eu sempre digo — me gabei —, o sangue Schneider sempre fala mais alto!
Algum tempo depois, após me despedir carinhosamente da minha noiva que estava naquele momento no Rio voltando do seu trabalho na empresa que o seu tio Phillip Weber gerenciava, eu voltei toda a minha atenção ao Fred e no alvo dos seus olhares libidinosos.
— Tremenda gatinha aquela de cabelos castanhos, hein, brother?
A menina e a sua amiga estavam agora a uns dez metros da praia remando de bruços sobre suas pranchas, tentando embocar uma onda. De onde estávamos, era possível apreciar com certa nitidez a desenvoltura da jovem surfista e não era difícil perceber que ela tinha algum talento.
— Enquanto você falava com a Val ao telefone, ela estava me dando o maior mole, mané!
Fred deu um riso nervoso. Estava visivelmente empolgado com a tal menina e parecia confiante para dar em cima dela tão logo retornasse para a areia. Eu já tinha convivido o suficiente com o garoto de vinte anos para saber que ele não era de se arriscar muito com mulher, se aproximando delas só se sentisse mesmo firmeza que haveria algum tipo de reciprocidade de sentimentos. Diferente de mim que era malhado, olhos claros e cabelos loiros naturais, Fred fazia mais o estilo magriça e precisava se esforçar muito mais com a lábia para conquistar as garotas, o que o deixava em desvantagem às vezes. Apesar disso, não era raro que o meu cunhado conseguisse arrastar para a cama uma ou outra das tietes que conhecíamos pelo caminho em nossas viagens para o Ação Radical, o que queria dizer que ele possuía algum talento para a azaração.
— Só toma cuidado com a idade dela, mané — aconselhei ele —, ela parece ser bem novinha. Se for comer, come antes que seja tarde para ela voltar pra casa ou você vai acabar tendo que lidar com algum pai bravo dando tiro por aí!
Senti tensão em seu rosto por algum tempo, mas aquela rusga de preocupação logo se esvaiu quando a menina e a sua amiga de pele escura começaram a nadar de volta para a areia. Meu cunhado estava encantado e eu não o culpava. A novinha tinha um corpo realmente muito gostoso.
