Capítulo 5 - Henrique
OS NEGÓCIOS ANDAVAM MUITO bem naquele início de ano e, como não podia deixar de ser, eu e o meu sócio, Andreas Napolitano Neto, estávamos rindo à toa com o sucesso do Delta Sky, o nosso clube para prática e aulas de esportes radicais.
Mesmo fora da época de férias, onde o público costumava se avolumar, estávamos faturando alto com as aulas de paraquedismo, saltos de asa-delta e voos de parapente pelos céus da Barra da Tijuca. Os agendamentos para os cursos de alpinismo e escalada já estavam completamente preenchidos desde dezembro e nenhum dos instrutores — incluindo a mim mesmo — tinha mais horários disponíveis no calendário. Aquela prometia ser uma das melhores temporadas do clube e muito disso estava sendo potencializado pelo nosso canal no Youtube.
Por conta daquele sucesso, eu precisei contratar mais dois instrutores para assumir o meu lugar com as aulas na Delta a fim de que me sobrasse tempo de tocar a produção dos vídeos para a internet, algo da qual eu não abria mão. As visualizações no canal aumentavam dia a dia conforme publicávamos semanalmente as nossas aventuras radicais pelo país — e o mundo — e os desafios aumentavam exponencialmente conforme fazíamos mais sucesso.
Eu e Andreas havíamos contratado uma equipe muito fera para editar e produzir os vídeos que agora tinham uma cara mais profissional, mesmo assim, eu ainda me divertia botando a mão na massa e aparecendo diante da câmera. Mais do que só pela vaidade de dar a cara para o programa e me tornar famoso com os vídeos, eu realmente ficava feliz de produzir aquele material esportivo e não queria que nada estragasse a minha vibe.
O último vídeo publicado, que me filmava em primeira pessoa com o auxílio de uma câmera Go-Pro descendo de uma montanha coberta de neve em uma estação de esqui chilena, tinha alcançado mais de cem mil visualizações e tínhamos ciência de que aquele tipo de publicação atraía mais views e comentários. A galera tinha pirado com as acrobacias que eu havia aprendido a fazer em pouco tempo com um instrutor muito bom da estação El Arpa, a cento e oito quilômetros de Santiago, a capital do Chile, e o meu tombo também tinha feito sucesso. Apesar da dor no quadril que aquilo me rendeu — e o medo de quase ter morrido naquela montanha —, valeu muito a pena me arriscar para produzir aquelas imagens e eu estava feliz com o retorno do público.
Naquele final de semana, a minha equipe e eu estávamos nos preparando para acompanhar de perto o Circuito Nacional de Surfe que aconteceria em dois dias na Costeira do Pirajubaé, em Santa Catarina, e queríamos filmar tudo na íntegra, além de produzir lives com imagens da competição para que as pessoas nas redes sociais pudessem acompanhar. Pelo que se sabia, poucas emissoras de TV iriam transmitir aquele campeonato considerado “caseiro” e o canal do Youtube da Delta iria ganhar bastante destaque sendo um dos únicos a apostar nos novos talentos que a modalidade traria aquele ano.
Uma das jovens atrações da temporada, não coincidentemente, era um moleque de quatorze anos que eu conhecia muito bem desde que ainda mijava nas fraldas e que também atendia por “meu primo”.
Johann Schneider praticava surfe desde os oito anos de idade e estava concorrendo aquele ano na categoria juvenil com outros moleques feras do esporte de todo o Brasil. Ele era filho de Marie Urich Schneider, uma prima-sobrinha de meu pai Augusto e era neto de Klaus Schneider, um dos herdeiros do velho Adler Schneider. Foragido da Alemanha nazista na época da Segunda Guerra Mundial, Adler atravessou o oceano ainda criança com os pais e a irmã caçula — a minha avó paterna Mayla — e construiu toda a sua vida nos trópicos. Desde a sua chegada ao Brasil na década de quarenta, os Schneider tinham se espalhado pelo país quase inteiro, mas boa parte da família havia se estabelecido mesmo no Rio de Janeiro, em locais como Ipanema e Barra da Tijuca. Johann era praieiro de nascença e não era para menos que tinha escolhido o surfe como profissão, mesmo tão jovem.
Eu havia alugado um jatinho particular em nome dos patrocinadores esportivos da Delta Sky para levar não só a minha equipe de filmagem como também o próprio Johann, o seu pai Albert Urich — que era também o seu empresário — e mais um grupo de quatro adolescentes, todos amigos do moleque que haviam pegado carona com a gente para assistir à competição em Floripa. Uma outra prima minha, Angélica, filha de Ângelo Bismarck Schneider — também primo de primeiro grau de Marie — estava entre eles. Tinha praticamente a mesma idade do garoto e era uma das mais animadas no voo que partiu de São Paulo de madrugada. Eu estava acompanhado, como quase sempre naquelas viagens de cobertura esportiva, pelo meu cunhado Fred, irmão da minha noiva Valéria, e tinha certeza que aquele seria mais um final de semana de muita aventura.
Logo que chegamos a Florianópolis na manhã daquele sábado, tratamos de fazer o check-in em uma pousada que havíamos reservado com bastante antecedência e toda a equipe e a garotada que nos acompanhava se dividiu em cinco dos quartos, ocupando praticamente todo um andar da estalagem.
Fred, que me ajudava com a produção dos vídeos e making off, aproveitou para deixar parte dos seus equipamentos de filmagem e fotografia em meu quarto por segurança — toda aquela parafernália valia uma grana alta —, mas quis ficar com os colegas da edição de vídeo em outro aposento. Sem querer bancar a estrela do esporte, Johann topou dividir o seu quarto com mais dois dos amigos que trouxera com ele e, já na chegada, deu para ouvir de onde eu estava o quanto os moleques estavam entusiasmados. Aquela era a primeira competição a nível nacional que o meu primo participaria e não tinha como avaliar o quão bagunçada devia estar a mente do guri naquele momento. Os gritos e o falatório no quarto deles duraram horas manhã a dentro.
O primeiro dia de competição começou por volta das treze horas na Baía Sul de Santa Catarina e a movimentação na orla da praia da Costeira do Pirajubaé era contagiante. Johann iria competir com outros garotos da mesma faixa etária logo numa das primeiras baterias do circuito e eu preparei tudo com Fred para transmitir as emoções ao vivo pela internet. Para nosso azar, naquele dia, a recepção de sinal estava uma bosta e foi bem difícil estabilizar tudo para que pudéssemos mostrar imagens dos surfistas pegando onda no mar azul e agitado já no começo do campeonato. Apesar disso, o pessoal da produtora que havíamos contratado conseguiu imagens aéreas excelentes fazendo uso de um drone que eles haviam levado para a praia, e a transmissão pelo canal do Youtube chegou a quinhentos likes logo nos primeiros vinte minutos.
— Tá bombando, moleque!
Fred estava ao meu lado entusiasmado com o celular em mãos acompanhando de perto a repercussão do vídeo sendo transmitido e eu não tive como conter um sorriso de plena satisfação.
Algum tempo depois, a equipe e eu conseguimos entrevistar alguns dos garotos que estavam competindo e o bate-papo diante das câmeras foi gravado para o vídeo mais bem produzido que pretendíamos lançar já no dia seguinte. Além dos atletas, entrevistamos também outros espectadores da praia e até mesmo os familiares dos surfistas que estavam ali para prestigiar o talento dos meninos. Havia muita gente em torno do evento e não foi nada difícil conseguir interessados em falar com o nosso pessoal. Como eu tinha dito, o nosso canal estava ficando muito popular e todo mundo estava querendo dar as caras por lá.
Em paralelo ao meu trabalho, eu estava de olho na pontuação que as manobras do meu primo tinham conseguido junto aos juízes especializados na orla da praia e notei que o moleque havia alcançado boas notas, obtendo chances reais de levar para o Rio de Janeiro a taça de campeão juvenil da modalidade. Ele havia conquistado três notas superiores a sete e apenas um dos juízes tinha lhe atribuído um seis, ponto que seria descartado na média final. O outro moleque mais bem posicionado só tinha alcançado notas cinco em sua tentativa e faltavam apenas mais dois competidores até que fosse encerrada a primeira bateria.
O mar se estendia à nossa frente, uma multidão se aglomerava para assistir aos demais competidores na areia da praia e o sol estava a pino sobre as nossas cabeças. Me aproximei de Urich que parabenizava antecipadamente o filho com palmadas nos bíceps. O sujeito era neto de alemães nascidos e criados em Berlim, ostentava olhos grandes e azuis na cara amarrotada, tinha uma gordura abdominal evidente por baixo da camisa havaiana que usava e era bastante calvo. Parecia orgulhoso enquanto abria um sorriso rasgado logo que comecei a falar com Johann.
— Se mais nenhum desses garotos alcançar nota sete, você leva o caneco, Johann.
Os seus olhos azuis estavam voltados para o mar, a uma distância de uns cem metros. Estava sorridente e parecia tranquilo atento às manobras de um dos seus adversários que se apresentava com habilidade naquele instante. Ele se virou um segundo para mim ao seu lado e respondeu, confiante:
— Mesmo se alguém igualar a minha média, a minha nota de corte é oito e isso vai me garantir o primeiro lugar.
Urich abraçou o garoto e bagunçou os seus cabelos loiros e molhados, igualmente crente que Johann estava prestes a conseguir o seu primeiro troféu a nível nacional. A poucos metros dali, o quarteto de amigos que havia nos acompanhado desde o Rio e a minha prima Angélica estavam exultantes com a iminência dos próximos resultados dos juízes. Num misto de nervosismo e alegria, eles riam, batiam palmas e urravam. Faziam parte de uma das torcidas mais animadas que eu já tinha visto de perto e estava muito bom de acompanhar.
