Capítulo 4 - Bianca (PARTE 4)
PERTO DAS OITO DA NOITE, Gusta veio me liberar da exposição e eu sai dali direto para os bastidores no andar de cima, onde estava louca para fazer xixi e para tirar aqueles malditos saltos do pé. Sentada na privada do banheiro, sentia cada um dos músculos do rosto doloridos como se eu tivesse saído de uma luta de octógono contra o próprio Anderson Silva, mas relaxei achando que a minha tarefa ali estava cumprida. Estava saindo do toalete quando dei de cara com Sylvia a me esperar do lado de fora.
— Ainda está por aqui, Sylvia? Achei que já tivesse ido embora. Não a vi quase que a tarde toda…
A minha chefe tinha um cartão de visitas em mãos e não se preocupou em ser polida com a notícia que tinha para me dar. Foi direta ao assunto.
— O filho de um empresário muito rico da cidade ficou bastante encantado com você ao te ver na exposição do salão mais cedo, Bia, e ele me pediu para te dar o seu cartão.
Ela me estendeu o cartão branco e eu senti a sua textura antes de ler os dizeres gravados ali em cor dourada. Roberto Suares – Suares & Castilho - Construtora. Eu já tinha ouvido o nome daquela empresa em algum lugar, não me lembrava de onde.
— Muito gentil da parte dele — respondi, um tanto quanto desinteressada —, mas o que eu devo fazer com esse cartão?
Sylvia me cravou o seu olhar mais fulgurante, aquele que usava quando queria me dar alguma bronca ou me desestabilizar emocionalmente, depois, disse:
— Ele quer te conhecer melhor, menina. Está disposto a te levar daqui para um jantar num restaurante. Quer um encontro contigo.
Eu tinha ficado surpresa e não soube bem como reagir.
— Tipo… hoje? Agora?
Sylvia olhou para os meus pés descalços e os meus cabelos já um pouco desalinhados e falou, em tom de ordem:
— Calce os seus sapatos de volta e dê um jeito em seus cabelos. O homem a está esperando no estacionamento e disse que não vai arredar o pé desse pavilhão até que você esteja lá com ele.
Me senti profundamente ofendida e, enfim, soube como reagir.
— Espera, Sylvia. Eu não sou como um daqueles carros em exposição lá fora. Eu não estou à venda desse jeito. Esse cara não pode simplesmente levantar a mão e me pedir numa bandeja.
Sylvia deu dois passos e estacou a um metro de mim.
— Para de show, menina! O rapaz foi muito cortês comigo. Ele não está te comprando, só pediu para que eu intermediasse um encontro cordial entre vocês dois. Ele realmente ficou interessado quando te viu mais cedo e como sabia que você era contratada de uma agência de modelos, entrou em contato comigo para falar pessoalmente com você.
— E-Ele… Ele quer que eu faça um programa, é isso?
Sylvia não esboçou qualquer negativa.
— O senhor Suares é um dos jovens empresários mais cobiçados da cidade, Bianca. É rico, bonito, inteligente… tenho certeza que as suas amigas estão morrendo de inveja de você agora e dariam tudo para estar no seu lugar. Eu sou a sua chefe e prometi a ele que faria a conexão entre os dois. Não quero passar por uma mulher que não honra com as promessas que faz, por isso, você vai sim até o estacionamento encontrar aquele moço. Não me interessa o que vai rolar entre vocês depois disso, mas hoje, você será uma boa menina e vai fazer companhia a ele.
Eu estava muito injuriada e senti o meu estômago queimar de nervoso.
— Você… Você está me vendendo…
Lágrimas começavam a ameaçar escorrer dos meus olhos quando a voz rude de Sylvia voltou a soar no camarote, com ela bem perto de mim. Dava para ver com detalhes as marcas de expressão da sua pele envelhecida que ela tentava mascarar com corretivos e o seu hálito era de uísque.
— Não chore, senão vai borrar a maquiagem.
Como tinha sido me orientado, Roberto estava me esperando à porta de um Mercedes c180 preto no estacionamento do pavilhão de eventos e só quando o encarei pela primeira vez é que o reconheci. Ele era o visitante gentil de roupa social que havia me perguntado sobre o material que era feito o Agera da exposição e o amigo do ruivo tarado que tinha me secado de cima a baixo enquanto conversávamos.
— Então é você…
Roberto abriu um sorriso e esperou que eu entrasse pelo banco de trás do carro para só então me acompanhar. Um motorista uniformizado esperava por suas ordens ao volante à nossa frente e, pouco depois, foi orientado a seguir até um restaurante francês recém-inaugurado no bairro da Consolação. O carro de motor silencioso partiu de Interlagos como se flutuasse e demorou até que aquela sensação de angústia deixasse o meu peito.
— Espero que não esteja assustada, Bianca. Achei que se a Sylvia intermediasse o nosso encontro seria mais fácil para a sua aceitação do que eu aparecer lá feito um stalker maluco te convidando para sair.
Não parecia mesmo que havia nenhuma má intenção da sua parte, mas eu continuava me sentindo como uma peça de mostruário vendida a quem pagasse mais.
— Eu… Eu achei um pouco indelicado, só isso. — respondi, insegura.
Roberto tinha a voz suave e não a alterou em nenhum instante, o que me ajudou a passar um pouco mais de confiança. Ele estava me levando para um dos pontos mais seguros da cidade e tudo em sua presença me transmitia tranquilidade. Durante o percurso até o restaurante, me falou um pouco sobre quem ele era, quem eram os seus pais e sobre a empresa onde trabalhava com o pai desde que havia concluído a sua graduação em Gestão de Negócios.
— Pode ficar despreocupada. Eu não sou nenhum pervertido querendo arrastar uma bela moça para um beco escuro. Eu realmente a achei interessante e quis marcar um encontro após o seu trabalho para nos conhecermos melhor. Você não vai fazer nada que não queira.
Exceto ser obrigada a acompanhar um riquinho metido no meio da noite só para agradar a vaca da minha chefe, pensei naquele instante, ainda incomodada com toda aquela situação. Estava louca para voltar para casa, mas antes precisava cumprir mais aquela tarefa até que pudesse, enfim, ser liberada… Se é que seria.
Apesar do meu desconforto, o jantar com Roberto foi bastante agradável e, por incrível que aquilo pudesse parecer, o rapaz conseguiu me deixar um pouco mais à vontade na sua presença. Enquanto degustávamos à mesa iguarias das quais eu nem era capaz de pronunciar os nomes numa área do estabelecimento onde só quem era VIP podia frequentar, ele voltou a me falar da sua família e soube que a sua irmã também era apelidada de “Bia” e que a garota estudava Gestão Agro, algo que eu nem sabia do que se tratava.
— Meu pai é herdeiro de algumas fazendas no interior do estado e ele quer que a Beatriz tome conta dessa parte do patrimônio uma vez que a Suares & Castilho, como o nome já diz, não pertence totalmente à nossa família.
Os sócios de João Suares, o pai de Roberto e o CEO da empresa, eram Renato e Mauro Castilho, coincidentemente, pais de Janete e Priscila Castilho, duas meninas que eu havia enfrentado em quadra durante o último torneio intercolegial de vôlei que havia participado no ensino médio[1]. Depois de toda a competitividade a qual havíamos sido expostas durante os jogos, nós voltamos a nos encontrar em outras oportunidades e as nossas famílias até chegaram a se relacionar melhor. O meu irmão Diogo estava namorando Priscila e o garoto agora vivia enfurnado na casa milionária que Mauro Castilho tinha no bairro de Indianópolis .
— Conheci algumas das filhas dos sócios do seu pai. Sabia que já tinha ouvido falar do nome “Castilho” em algum lugar, só não me lembrava de onde.
Durante a sobremesa servida por um garçom trajando branco e que parecia ter saído diretamente da tela de algum desenho animado, Roberto me falou um pouco sobre a sua vida amorosa e como ele se sentia desafortunado por, até aquele momento da vida, ainda não ter encontrado a garota ideal. Ele tinha vinte e quatro anos, era rico, tinha acesso às mulheres mais desejadas do país, mas não tinha o amor que tanto almejava.
— Pode parecer piegas a você, mas quando eu a vi lá em cima daquela plataforma, tão linda e elegante, o meu coração balançou de uma maneira muito particular. Eu não acredito em amor à primeira vista nem nada disso, mas se acreditasse, diria que fiquei apaixonado por você assim que bati os olhos em seu sorriso.
Fazia muito tempo que ninguém me dizia nada sequer parecido com aquilo e não pude negar que parte de mim deu uma balançada com aquela declaração, especialmente, pela maneira inusitada com que ela havia sido feita. Eu tinha acabado de encher a boca de um Crème Brûlée delicioso. Depois de passar o dia inteiro apenas à base de água, eu estava faminta.
— Você deve estar me zoando…
Eu tinha ficado verdadeiramente tímida e senti o meu rosto esquentar.
— Deve parecer curioso a você um completo estranho chegar e dizer que se apaixonou no primeiro instante que te enxergou ali, no meio de uma exposição de carros, mas eu não saberia explicar de outra maneira o que eu senti.
Roberto passou a hora seguinte tentando me convencer que aquilo que ele dizia sentir por mim era real e, seja por carência afetiva ou simplesmente pelo fato de que eu o estava mesmo achando encantador, acabei aceitando a ideia de que aquele moço não tinha razões para mentir tão descaradamente. Rico e bonito do jeito que era, ele poderia comprar a garota que quisesse e eu nem deveria estar entre as cem mais interessantes da sua lista de possíveis conquistas. Ele devia ter mesmo sentido algo especial por mim e nos próximos dias, eu estava disposta a saber o que era de verdade.
