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Capítulo 3 - Bianca (PARTE 3)

A CAMPANHA DA VALISSÈRE me proporcionou um reconhecimento que eu não imaginava e as minhas fotos ao lado de Vicky Novaes passaram a estampar uma quantidade imensa de lugares, incluindo outdoors fora de São Paulo, banners e até mesmo placas publicitárias pela cidade. Além das páginas de revistas femininas onde as fotos foram publicadas, o comercial de trinta segundos para a TV e internet também fez bastante sucesso e gente de tudo quanto era canto começou a me ligar e a me mandar mensagem dizendo que tinha me visto.

— Eu não acredito, vadia! Você apareceu num comercial ao lado da Vicky Novaes! — Era a minha amiga Carina Monterey, que me ligou no intervalo de uma das suas aulas da faculdade de Gestão de Negócios que estava cursando.

— São só alguns segundos… eu nem apareço direito!

Eu ficava extremamente tímida com elogios rasgados e tinha a tendência a diminuir todos os feitos grandiosos a qual realizava de vez em quando.

— Pois eu te vi direitinho lá toda gostosa com aquela lingerie preta maravilhosa que eu já até encomendei uma para usar com o boy. Ai, meu Deus! A minha amiga virou top model famosa!

Naquele mesmo dia, Cíntia Lacerda, a minha outra melhor amiga, também me ligou de sua casa no bairro do Ipiranga para me dar os parabéns pela campanha e disse que estava compartilhando o vídeo do comercial em todas as redes sociais e me marcando para que todos soubessem que éramos amigas.

— Eu estou muito orgulhosa da minha putinha loira preferida! — disse ela efusiva ao telefone. — Eu quase chorei te vendo naquele comercial, tão perfeita, tão radiante. Que bom que a sua carreira está deslanchando, miga.

— Foi só um comercial, Cíntia. Ainda tenho muito trabalho pela frente até realmente deslanchar na carreira.

Eu estava sendo modesta, mas sabia que a campanha com Vicky Novaes poderia proporcionar uma guinada em minha carreira de modelo fotográfica e estava apostando nisso.

Depois daquele trabalho, todas as meninas da agência foram engolfadas por mais uma dúzia de campanhas publicitárias diversas e eu não pude voltar para Cotia a fim de receber os parabéns pessoalmente dos meus pais e do meu irmão Diogo. Mamãe me ligou na segunda noite de veiculação do comercial em horário nobre da TV e foi difícil conter as minhas próprias lágrimas ao ouvi-la tão emocionada do outro lado da linha dizendo que estava orgulhosa de mim. Papai foi mais sucinto ao me parabenizar e, claro, não perdeu a oportunidade de dizer que estava um pouco bravo porque todo mundo agora estava vendo a sua filhinha “pelada” por aí.

— Eu não tô pelada, pai. É um comercial de lingerie e todo mundo falou que eu tô bonita.

Ele resmungou alguma coisa indecifrável do outro lado, mas depois, deu o braço a torcer:

— Você é a minha filhinha e eu sempre vou te achar a mais linda de todas as modelos.

Se eu tinha conseguido conter as lágrimas com mamãe, aquele comentário de papai me derrubou e eu fiquei bastante emocionada. Dava um dente de trás para receber aquele abraço de urso que só o seu Francisco sabia me dar naquele momento, mas para minha infelicidade, eu estava impossibilitada de voltar para Cotia por aqueles dias.

Um mês depois da viagem a Campos do Jordão, Sylvia pediu para que eu, Adele e Marcela subíssemos até a sua sala no segundo andar da Shine para uma conversa particular. Lá dentro, a encontramos na companhia do seu assistente Gusta e de trás da sua escrivaninha, com seu tradicional copo de uísque pousado ao lado, ela nos revelou qual seria o nosso próximo trabalho.

— A agência foi contratada para compor o time de modelos que farão presença VIP durante o Salão do Automóvel que a concessionária Diamond Motors vai realizar no próximo final de semana em Interlagos. O evento vai contar também com garotas de outras agências que estarão espalhadas pelo salão fazendo a exibição dos veículos importados que são a especialidade da Diamond e eu destaquei vocês três por estarem mais familiarizadas com esse tipo de trabalho.

Eu tinha feito algo parecido logo num dos primeiros meses de agenciada pela Shine, mas a própria Sylvia havia me falado que aquele tipo de serviço não era o mais comum e que eu estaria sendo melhor explorada em sessões de fotografia. A questionei:

— Achei que eventos presenciais não fossem o forte da Shine, Sylvia.

A mulher loira de olhos redondos me encarou de trás da mesa e, após dar um gole em seu uísque, disse, sem qualquer cerimônia:

— Não é a nossa especialidade, Bianca, mas quando nos contratam, temos que mostrar serviço.

Eu engoli em seco e senti o meu rabinho entrando entre as pernas.

— E depois, a sua carinha branca está fazendo muito sucesso com a campanha da Valissère e o nosso patrocinador quer que eu envie as minhas melhores meninas para esse salão de carros de luxo. Vocês três são as melhores que eu tenho disponível.

Marcela e Adele deram beijos nos próprios ombros, cheias de si e causaram risinhos em Gusta, que nos observava em pé ao lado da patroa.

— O Gusta vai coordenar vocês nesse evento e eu também estarei lá para segurar as pontas, caso precisem. Vamos ser muito bem pagas por esse trabalho, por isso, caprichem na maquiagem, garotas. Quero ver as três impecáveis.

Um pavilhão gigantesco e muito bem localizado no centro de Interlagos havia sido alugado para aquele Salão do Automóvel e eu tive que chegar bem cedo com as meninas para poder conhecer melhor o lugar e estudar sobre os veículos que iríamos demonstrar. O nosso trabalho ali era bem simples: tínhamos que sorrir o tempo todo, movimentar os braços suavemente em direção ao carro em exposição, posar para as fotos que os visitantes, porventura, quisessem bater e tirar algumas dúvidas mais simples a respeito do veículo. Eu não entendia nada do assunto, mas para executar bem a minha tarefa e não parecer apenas uma boneca linda e burra ali parada sobre aquela plataforma giratória, acabei decorando alguns detalhes sobre potência do motor, tipo de direção, câmbio e outros acessórios.

Logo que cheguei, fui direcionada até a plataforma circular onde ficaria girando quase que o dia todo ao lado de um Koenigsegg Agera, um carro de fabricação sueca e que custava mais de cinco milhões. Eu tinha sido previamente instruída quanto aos cuidados que deveria ter posando tão perto de algo que valia o preço do prédio inteiro onde eu morava e passei a primeira hora ali simplesmente apavorada, com medo de fazer qualquer coisa que riscasse ou manchasse a lataria. O carro era realmente lindo e tudo nele cheirava a riqueza; desde a parte externa à interna, que eu tive o privilégio de conhecer.

— Se eu fosse a vaca da Vicky Novaes e tivesse dado para o cara certo, eu poderia ter um desses na garagem agora!

Marcela estava ao meu lado quando um dos organizadores do evento permitiu que entrássemos no Agera para que tivéssemos uma noção de o quão luxuoso ele era e isso aconteceu algumas horas antes dos portões do salão serem abertos para o público. Enquanto ela alisava o volante como que tocando um cálice sagrado, eu só consegui dar risada.

Duas horas após a abertura dos portões, eu já podia sentir os músculos da face doloridos de tanto que eu tinha sorrido. Eu estava usando um vestido vermelho justo para combinar com a cor do veículo que eu expunha e o sapato de salto estava acabando com o meu tornozelo. Era permitido que eu me sentasse discretamente sobre o capô de vez em quando enquanto a plataforma rodava e os visitantes tiravam fotos do carro comigo em cima, mas, mesmo daquela maneira, me fingir de boneca em vitrine era bastante cansativo.

— A modelo vem com o carro?

Aquela foi a frase que mais ouvi ao longo daquele dia e cansei de sorrir e acenar que “não” enquanto fingia simpatia para os idiotas que me perguntavam aquilo o tempo todo. A minha roupa era suficientemente longa para cobrir bem o meu quadril, mas as minhas pernas estavam expostas e o decote que usava era bem exagerado, o que me tornava alvo de cantadas, piadas e até mesmo comentários misóginos. Eles não podiam me tocar, mas é claro que aquilo não era o bastante para que, às vezes, a experiência da exposição fosse extremamente desagradável.

A certa altura do evento, o salão estava bastante avolumado de visitantes e quase não se podia mais ver o chão do pavilhão de tanta gente que circulava pelo estande da Koenigsegg. O Agera era considerado, na época, um dos carros mais rápidos do mundo — chegando a atingir quatrocentos e quarenta quilômetros por hora — e era um dos modelos mais atraentes da exposição que, além dele, contava também com Ferraris, Lamborghinnis e McLarens.

— É realmente uma beleza!

Eu estava em pé diante do Agera quando um moço de cabelos castanhos penteados para trás trajando roupa social sem gravata se aproximou. Ele estava acompanhado de um outro moço de cavanhaque ruivo e olhar de tarado na cara, mas, enquanto o seu colega me secava os peitos, ele parecia mesmo interessado no carro.

— Acha que é feito de que material? Fibra de carbono?

Ele encarou o ruivo por um segundo ao perguntar aquilo, depois, fez contato visual comigo pela primeira vez. Estava querendo me testar.

— A carroceria e o Chassi são inteiramente fabricados com fibra de carbono e reforços estruturais de baixo peso.

Eu já tinha dito aquilo centenas de vezes no dia e nem precisava mais me esforçar para me lembrar dos detalhes. Os dois se entreolharam achando que eu entendia mesmo do assunto e o de rosto fino alargou um sorriso antes de me perguntar:

— E as rodas?

— São de alumínio. Tem um parafuso único de fixação, medem dezenove polegadas na frente e vinte polegadas atrás.

O ruivo estava de olho agora em meu quadril.

— São muitas polegadas!

O seu amigo desviou o olhar e começou a andar em torno da plataforma, demonstrando bastante interesse no Agera. Ao contrário do outro, era educado, gentil e aparentava ser de classe. Era bastante bonito também, apesar do físico esguio.

— Pagaria um valor alto só para fazer um test drive nessa máquina!

Os dois estavam agora separados por alguns metros. Eu estava de lado para o ruivo que foi rápido em completar, de olho na minha bunda:

— Eu também!

Depois de um breve aceno em minha direção, o moço educado se afastou acompanhado do amigo ruivo inconveniente e eu não voltei mais a vê-lo até o final do evento.

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