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Capítulo 2 - Bianca (PARTE 2)

NO SEGUNDO MÊS DE trabalho na agência, Sylvia recomendou que eu me mudasse para algum bairro mais próximo da Vila Mariana, onde ficava localizada a Shine Model, por conta do tempo que eu perdia para me locomover todos os dias de Cotia até lá e os meus pais quase piraram quando eu anunciei que estava saindo de casa por um tempo.

— Você acabou de completar dezoito anos, Bianca. Eu sou o seu pai e ainda sou o responsável por você. Não vou permitir que saia de casa assim sem um planejamento prévio, como se estivesse fugindo de alguém.

Estávamos os três sentados em torno da mesa da cozinha. Papai já tinha se curvado em minha direção da cabeceira e o seu rosto estava vermelho, com ele prestes a sofrer um infarto. Mamãe estava sentada ao meu lado direito e já dava para ver o brilho em seus olhos cor-de-mel, com as lágrimas prestes a rolarem por seu rosto. Aquilo partia o meu coração.

— A Line saiu de casa para jogar vôlei e vocês nem sequer a questionaram. Por que comigo, que sou mais velha que ela, é diferente?

Minha irmã caçula estava morando com duas amigas de time em um apartamento próximo do centro de treinamento do clube de vôlei onde jogava profissionalmente. Depois do Caíque, que tinha ido embora de casa para jogar pelo Inter de Milão na Europa, Aline tinha ido logo depois. Eu e meu outro irmão, o Diogo, éramos os únicos a ainda fazerem companhia aos nossos pais, mas aquilo estava prestes a mudar e o seu Francisco e a dona Edna estavam sofrendo com todas aquelas mudanças tão repentinas. Eu não os podia culpar.

— A Aline não decidiu sair de casa da noite para o dia. Eu a acompanhei para assinar o contrato com o clube de Barueri, inspecionei a estalagem onde ela iria morar com as colegas de time, acertei tudo com o senhorio sobre o aluguel… você só está me comunicando agora, Bianca!

Eu ainda não tinha grana suficiente para bancar sozinha um apartamento numa das regiões mais caras de São Paulo, por isso, tinha aceitado rachar o aluguel com Marcela, cuja antiga colega de quarto havia mudado de estado recentemente. A moça estava começando a suar para pagar o valor integral que era cobrado no prédio onde morava, a menos de trinta minutos da Shine. Expliquei a situação para papai e mamãe. Ela entendeu, ele preferiu fazer bico feito uma criança birrenta.

— Não é definitivo, pai — Me aproximei dele e dei-lhe um abraço por trás. Ele ficou um tempo se fazendo de durão, se recusando a me encarar —, é só por um tempo até que eu me ajeite pela cidade ou que o meu contrato com a Shine termine. A vida de modelo não é tão preto no branco quanto ter uma carteira assinada, com direito a FGTS, INSS, essas coisas… eu ainda nem sei se vou me adaptar. Se isso não acontecer, eu volto pra casa. Não quero que fique bravo.

O senhor Francisco parou de fazer jogo duro e se virou, me aninhando em seu peito. Depois de me apertar forte, com a voz embargada, ele disse:

— Essa vida desregrada que está querendo levar não foi o que sonhei para você, minha filha… Mas se é o que vai te deixar feliz, eu te dou a minha benção. Se precisar de qualquer coisa até se adaptar por lá, saiba que estarei aqui para ajudar.

A dona Edna se juntou a nós dois no abraço carinhoso e confesso que, por um momento, eu quase desisti de tudo e corri para ficar entre os dois na cama do casal assistindo TV, como fazia quando tinha sete anos. Aquela foi uma das despedidas mais intensas da minha vida.

Cinco meses após me instalar no apartamento de três cômodos da minha amiga Marcela na Vila Mariana, a Shine Model assinou contrato exclusivo com uma grife francesa de lingeries que estava vindo para o Brasil fazer a sua divulgação e a agora modelo internacional — e embaixadora da marca — Vicky Novaes tinha sido convidada para estrelar a campanha.

Eu tinha sido selecionada no casting para as fotos e os vídeos do comercial por dois representantes da própria marca francesa e aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida. Além de mim, Marcela e a ruiva Sabrine também haviam sido selecionadas e, dois dias depois, estávamos embarcando para um chalé em Campos do Jordão, onde toda a campanha seria produzida.

Durante a preparação para as fotos no camarim amplo e todo equipado que a empresa havia montado exclusivamente para a gente, não houve qualquer contato nosso com a grande estrela brasileira do mundo da moda e, por um tempo, chegamos a acreditar que nem a veríamos pessoalmente durante os dois dias que duraria o trabalho.

— Provavelmente, ela vai tirar as fotos em um estúdio separado, depois, vão nos juntar digitalmente usando Photoshop!

Aquele era o palpite de Sabrine que estava se maquiando diante do espelho, já trajada com a lingerie de renda vermelha com a qual posaria primeiro nas fotos. Ao meu lado direito, enquanto reforçava o rímel, Marcela era de outra opinião:

— Essa vagabunda nem sequer vai posar pra foto alguma. Se bobear, ela só vai deixar usarem o seu nome para engrandecer a campanha e nem vai dar as caras por aqui.

Marcela tinha uma mágoa profunda de Vicky desde a época em que ela ainda se chamava Virgínia e ambas eram jovens modelos em começo de carreira. As duas tinham trabalhado juntas por algum tempo e eram grandes amigas com chances iguais de deslanchar na carreira internacional, passando a ser agenciadas por grandes companhias da Europa. Elas sonhavam com as passarelas de moda de Milão, Paris e Londres, mas tudo ruiu quando Vicky acabou sendo a única escolhida pelo diretor de uma agência italiana que visitara o Brasil e também a única a embarcar para o estrangeiro ao lado do milionário.

Segundo Marcela, havia vaga para duas delas na tal agência, mas Vicky havia convencido o novo patrão a excluir a amiga dos seus planos, com medo que ela acabasse ofuscando o seu brilho com sua beleza negra brasileira. Uma outra menina acabou sendo escolhida no lugar de Marcela e aquilo a deixou arrasada.

— Depois daquela traição, eu nunca mais quis confiar em ninguém. Eu e Virgínia éramos grandes amigas, simplesmente não havia motivo para que tivéssemos inveja uma da outra. Trabalhávamos juntas há anos, éramos parceiras… foi como levar uma facada nas costas.

Aquele foi o desabafo de Marcela numa tarde de preguiça no apartamento que agora rachávamos o aluguel. Eu comecei a entender porque ela era tão desconfiada com as novatas que entravam para a Shine e porque eu mesma tinha sido alvo de seu desdém e de sua indiferença.

— Mas, você disse que já desfilou em Milão… — Eu estava curiosa.

— E desfilei. Alguns meses depois da traição de Virgínia, eu fui escalada para acompanhar a chefe da minha antiga agência em uma viagem para a Itália e, durante o evento de moda que estava rolando lá, os patrocinadores disseram que estavam precisando de uma modelo preta para o casting, foi quando acabei sendo destacada… Foi um desfile apenas, nada comparado à carreira internacional consolidada que hoje a “Vicky” Novaes tem.

No dia das fotos em Campos do Jordão, ao contrário do que pensávamos, a própria Vicky estava presente para a sessão no estúdio montado dentro de um belíssimo chalé muito bem localizado em meio a um bosque frondoso que criava todo um clima bucólico da qual os fotógrafos queriam explorar. Já estávamos nos preparando eu, Marcela e Sabrine diante de uma lareira sobre um tapete felpudo usando ainda nossos roupões por cima das lingeries, quando ela surgiu pelo corredor, linda e loira.

— … confio no seu bom gosto Armand. Tenho certeza que vai escolher os meus melhores ângulos, oui!

Armand Chevèlle era um dos fotógrafos de moda mais conceituados da Europa e era fluente em três línguas, entre elas, o português. Tinha passado uma temporada longa em Portugal e, por lá, havia aprendido o nosso idioma. Com seu cavanhaque fino no rosto simétrico, o sujeito pequeno acompanhou a estrela até onde nós estávamos no aguardo do início da sessão e ela nos cumprimentou gentilmente uma a uma.

Vicky era alta, tinha ombros magros e seios médios, porém, firmes. O quadril era levemente acentuado e a sua pele parecia brilhar de tão hidratada. Era ainda mais bonita do que parecia nas fotos e estava com os cabelos loiros compridos a cair nas costas.

— Como você é linda, Bianca! — Me elogiou enquanto me cumprimentava com um beijo no rosto. — O seu biotipo é perfeito para as lingeries da Valissère. Vão cair muito bem no seu corpo.

Era a primeira vez que eu conhecia uma estrela brasileira internacional e o meu coração estava disparado dentro do peito, por baixo do sutiã Valissère que devia valer sozinho mais do que o carro do meu pai. Ao cumprimentar Sabrine, ela também elogiou a sua beleza ruiva e, pouco depois, deu para sentir o ar se solidificando em torno das duas quando foi a vez de ela e Marcela se darem as mãos.

— Que bom vê-la por aqui, Cela — disse Vicky, sem demonstrar por sua entonação qualquer sinal de estresse —, quando eu soube que a Shine estava fazendo parceria com a Valissère, eu fiquei muito feliz de poder participar. Estava empolgada para rever a minha boa amiga.

Marcela não soube disfarçar a tensão em seu rosto, e vê-las interagindo de maneira tão falsa foi um tanto quanto constrangedor.

Por sorte, o clima pesado entre as duas não interferiu em nada durante os dois dias em que todas nós tivemos que trabalhar juntas e aquela foi uma das campanhas mais árduas e bem-executadas que eu já havia acompanhado. Vicky era uma das mulheres mais maravilhosas que eu já tinha visto de perto e quase não conseguia explicar o quanto ela parecia perfeita em todos os sentidos; não só pela pele incrivelmente bem tratada, os cabelos loiros sedosos e aquele belíssimo par de olhos cor-de-mel quase como os meus, mas também pelo seu profissionalismo e a postura altiva e decidida que ela nos transmitia. Se ela havia mesmo trapaceado Marcela para ficar sozinha com a vaga de modelo internacional, eu não tinha como ter certeza, mas que Vicky tinha se tornado uma estrela em toda a concepção da palavra, isso não dava para negar.

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