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Capítulo 1 - Bianca

AS GAROTAS ESTAVAM ALVOROÇADAS no camarim aquela tarde e nenhuma delas parava de falar um só minuto enquanto se aprontavam para a próxima sessão de fotos. Eu estava diante de um espelho elíptico ajeitando o adesivo que pressionava o meu mamilo para que ele e o seu irmão gêmeo não marcassem a blusa que eu vestiria dali a pouco tempo. Fazia aquilo tantas vezes por dia que já estava até me acostumando a ficar nua e a me vestir na frente das minhas colegas. Seis meses tinham passado bem rápido e agora eu era uma das modelos fotográficas contratadas da Shine Model, a agência comandada por Sylvia Mascarenhas, uma das mulheres mais poderosas do ramo da moda.

— Acham que o gloss vai avantajar demais os meus lábios? — perguntou Adele, sentada diante da sua penteadeira a se maquiar. Estava usando apenas uma calcinha fio-dental branca e os seios médios sacudiam ao ar.

— Gloss é tão anos noventa! — desdenhou Sabrine, a ruiva de rosto sardento e cabelos Chanel na cadeira ao lado. Já tinha se enfiado dentro do modelo de camisa e calça que usaria na sessão e ajeitava o cós de cintura-alta.

— A Vicky Novaes usa quase sempre… — Adele disse aquilo em tom de carência, voltando a enfiar o pincel de gloss em sua embalagem.

— A vagabunda da Vicky Novaes ficaria linda até com bosta de cavalo na cara. Não se compare com ela! — Foi a vez de Marcela elevar o tom, como que dando uma bronca em Adele, mas rindo de maneira sarcástica. A garota desbocada tinha a pele escura feito ébano, mantinha os cabelos afro bem armados e era a mais experiente de todas nós. Com vinte e dois anos, já tinha posado para os maiores fotógrafos de moda do país e tinha até mesmo desfilado em um evento em Milão, como ela sempre gostava de se gabar. Todas a respeitavam bastante.

Enquanto as demais garotas ainda caçoavam Adele pelo comentário feito por Marcela com urros e rosnados, uma cabeça miúda e redonda surgiu pela porta do camarim e a voz afetada de Gusta, o assistente gay de mademoiselle Sylvia antecipou o que todas nós já sabíamos.

— Mais rápido, suas piranhas! O fotógrafo não vai esperar por vocês a tarde toda!

O mundo da moda não era nem sequer um terço do que eu imaginava quando ouvia falar nos programas de TV. Por ali, a competição para estar sempre no topo das atenções e brilhar o mais ofuscantemente possível do que as adversárias era constante, o que fazia dos campeonatos de voleibol que eu participava na escola e a concorrência em quadra parecerem meras birrinhas infantis. No começo, aquilo havia me assustado um bocado, mas com o tempo, já estava quase que totalmente adaptada. Assim como as demais, eu também gostava de ser bastante competitiva e, apesar de inexperiente, eu sabia que era muito mais linda que qualquer outra ali dentro e aquilo permitia que eu me destacasse.

É claro que passava longe de ser saudável um ambiente onde uma colega queria quase que o tempo todo puxar o tapete da outra para levar vantagem, por isso, amizades que se formavam dentro da agência acabavam sendo mais valiosas do que o cachê que recebíamos ao final de cada trabalho.

No início, por chamar muito a atenção com os meus olhos cor-de-mel, os meus cabelos alourados e o meu corpo mais sinuoso, eu era destratada pelas garotas a maior parte do dia e o jogo só virou quando acabei ganhando a confiança de Marcela ao conversar francamente com ela e lhe pedir auxílio. Eu era a “virgem”, como a moça de cabelo afro havia me apelidado. Era desajeitada, não sabia fazer as poses que me mandavam fazer e quase sempre demorava demais para me aprontar para o casting. Foi ela quem me tirou daquela situação, me adotando e me orientando.

— As outras têm inveja porque você é a mais gostosa de nós — Me disse ela numa de nossas primeiras conversas após uma das sessões de foto mais longas que eu já havia participado. Estávamos em um bar a duas quadras da Shine após o expediente e bebíamos cerveja feito dois estivadores numa mesa ao fundo do lugar —, quer dizer, olha só para você! Esses peitões, essa bunda maravilhosa!

E ela apalpou os meus peitos por cima da blusa grossa que eu usava. Eu estava alta por conta da quantidade exagerada de cerveja que havia bebido, mas não o suficiente para não corar com toda aquela sinceridade. As pessoas em volta estavam prestando a atenção em nós duas. Marcela falava alto e não parecia se importar com o que os demais frequentadores podiam pensar.

— Você é a mais gostosa da agência…

Tentei retribuir os elogios, mas não consegui me fazer convincente o bastante.

— Você é a mais linda, Cela…

— Porra nenhuma! — E ela meio que cuspiu cerveja com um riso forçado. — Eu te vi tomando banho dia desses… não tenho nem metade dessa tua raba empinada!

Era sinceridade demais. Nem as minhas amigas Carina e Cíntia falavam daquele jeito em nossa intimidade… quer dizer… pensando bem…

— Eu não tenho culpa se a minha genética me favoreceu… eu só quero poder fazer bem o meu trabalho sem atrapalhar ninguém. É tão difícil assim me deixar posar para as fotos, participar do casting, aparecer diante das câmeras e ganhar o meu dinheiro em paz?

Aquele era um desabafo e as palavras que eu estava guardando há alguns meses pareceram querer explodir todas de uma vez pela minha boca. Na época, as outras garotas estavam sendo bem maldosas comigo. Trancavam a porta para me prender dentro da sala, colavam a minha bolsa na mesa com chiclete e até desligavam a água quente do chuveiro enquanto eu tomava banho. Aquilo estava me afetando de maneira muito particular. Eu não estava acostumada a tanta rivalidade e estava a ponto de desabar em choro. Marcela segurou a minha mão e resolveu me apoiar.

— Olha, eu não costumo passar a mão na cabeça de ninguém. Eu fiz isso com outras pessoas em começo de carreira e elas só me foderam por eu querer ser boazinha. Eu vou te ajudar porque gostei mesmo de você e também porque enxergo o mesmo potencial que a Sylvia reconheceu quando a dona daquela agência de fotografia, a Infinite, te indicou para o trabalho. A partir de amanhã, você não vai mais ser a minha virgem. Você está oficialmente descabaçada e eu vou botar pra foder em quem te tratar mal de novo dentro daquela agência.

Dito e feito. Depois daquele dia, como tinha dito que faria, Marcela passou a me defender do ataque invejoso das outras dez modelos que compunham o casting da Shine Model e eu nunca mais tive problemas para me relacionar no trabalho. Com o passar do tempo, acabei conquistando a confiança sincera das meninas e se não éramos melhores amigas, pelo menos conseguíamos nos tolerar facilmente. O que já era uma grande vantagem.

Nos três primeiros meses de agenciamento pela Shine, eu passei a trabalhar quase em período integral e aprendi na prática a maioria das tarefas que era orientada a desempenhar como modelo. Por conta da profissão, fui obrigada a cuidar muito melhor do meu instrumento de trabalho e o meu corpo passou a ser o meu santuário. Marcela me ensinou uma pá de truques de beleza e me passou listas completas de cremes, óleos aromatizantes, pomadas e até mesmo chás que fariam bem à minha pele, a deixando sempre com a aparência mais hidratada e cuidada para os flashes das câmeras. Como jogadora de vôlei no período da escola, eu já tinha uma alimentação bastante regrada e saudável, mas para ser uma modelo, era necessário perder um pouco de massa e caprichar mais na tonificação dos meus músculos.

— Você vai precisar perder uns quatro ou cinco quilos, Bia — recomendou-me Sylvia em seu escritório em minha primeira semana de trabalho —, não que você esteja acima do peso, mas é que para as fotos, curvas muito acentuadas podem acabar passando uma imagem errada para o tipo de trabalho que mais aparece para a Shine.

Sylvia estava falando dos catálogos de lingerie para os quais ela tinha contrato exclusivo e, já naquele mesmo mês, eu posei para dois deles usando apenas calcinha e sutiã, espartilho, cinta-liga e mais um monte de roupas íntimas que eu jamais havia vestido na vida. Não dava para negar o quanto aquilo me deixava sexy e me olhando no espelho antes e depois das sessões de foto, confesso que ficava um pouco tímida me vendo trajada daquela maneira.

Quem dera eu tivesse um namorado para que ele me visse vestida assim tão linda!

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