#2
O exército marchava em uníssono através do amplo corredor central, o eco de seus passos anunciando sua aproximação. Os demônios menores pulavam fora do caminho, abrindo passagem para a muralha de escudos e sua floresta de lanças, elmos e rostos cadavéricos.
Eram oito demônios de largura e mais de cem de comprimento, todos conduzidos por Kesabel, uma das quatro Imperatrizes do clã Ukobach. A demônia-mor caminhava a passos largos diante de sua tropa, seus cascos batendo no piso de pedra lisa. Sua cauda, coberta por placas de ferro, oscilava às costas, a ponta óssea triangular e vermelha indo de um lado ao outro.
Kesabel não possuía cabelo, mas chamá-la de careca também seria errado. Ela era chifruda. Era impossível perdê-la de vista. Bastava erguer a cabeça e no mínimo um de seus quatro chifres estaria visível acima do capacete do colega à frente. Como uma criatura tentando comer sua cabeça, a massa córnea e simétrica brotava a partir das têmporas, do topo de sua testa e de sua nuca, unindo-se em uma espécie de penteado radical engomado com concreto.
Seu corpo hoje escondia suas belas curvas sob uma armadura de ferro ao estilo “Ukobach”, porém com mais volume e detalhes, além de uma boa quantidade de espinhos nas ombreiras, joelheiras e cotoveleiras. Na cintura pendia uma enorme lâmina da largura de sua cabeça e de ponta em diagonal, como uma fusão entre uma guilhotina e uma espada.
A tropa parou diante dos pesados portões de ferro que barravam a fronteira com a Terra de Ninguém e, sem que Kesabel precisasse ordenar, a sentinela puxou uma alavanca, que acionou uma corrente, que liberou um contrapeso, que puxou as metades do portão deslizante para lados opostos.
À medida que a fenda na fronteira se abria, mais notável se tornava a diferença entre as duas seções do mesmo corredor. Enquanto na dos Ukobach, imensas lanternas de ferro a título de lustre pintavam o reinado de amarelo, a seção da Terra de Ninguém via-se envolta em uma luminosidade difusa, fria, como seria de se esperar de um local abandonado.
Os portões finalizaram sua abertura com um ressoar grave e metálico. Kesabel voltou a caminhar e seu exército a seguiu.
Assim como nos Ukobach, a Terra de Ninguém também era dividida ao meio por um corredor central, cada lado contendo corredores transversais de quatro demônios de largura e quarteirões cheios de portas tanto na altura do piso quanto próximo ao teto. Com demônios alados, demônios capazes de subir pelas paredes, ou simplesmente fortes o suficiente para saltar essa altura, o mercado imobiliário não deixou passar um metro quadrado sequer. Uma planta baixa revelaria o labirinto de ruas e vielas construídos em ambos os lados, feito rios quadrados serpenteando por entre ilhas residenciais.
O que, em bom “militarês”, significava: “um excelente local para emboscadas”.
Kesabel desacelerou o passo, puxou sua espada e, apenas com sinais de mão, passou suas ordens. O soldado responsável pela comunicação ergueu duas bandeiras acima da cabeça, uma de cada vez, e imediatamente todos inclinaram suas lanças em um ângulo de 45º. As unidades do miolo puseram os escudos à frente do corpo e as das bordas formaram uma parede ao redor da tropa.
Caminhavam devagar e atentamente, marcando pegadas na poeira e empurrando do caminho velhos esqueletos de antigas batalhas, quando uma figura emergiu casualmente de uma esquina adiante.
Era outra demônia-mor, vestida com uma armadura vermelha composta por placas individuais encantadas, capazes de se mover constantemente a fim de manter o corpo da usuária sempre protegido. Diferente de Kesabel, esta demônia não era de carne e osso. Mas de puro fogo. Seu rosto e cabeça flamejantes estavam escondidos atrás de uma máscara de porcelana com quatro olhos, os dois extras na testa, todos brilhando em branco-amarelado. Nas bordas superiores, quatro chifres dourados brotavam e seguiam para trás, os das têmporas maiores e mais curvos do que os dois entre eles.
— Arazyal?! — Kesabel entrou em posição de combate, a expressão confusa.
— Ué, qual é a surpresa? — perguntou a máscara, com sarcasmo. — Você não estava vindo atrás de mim? Então? — Abriu os braços. — Resolvi adiantar as coisas. Fazia tempo que eu não via minha velha amiga cara a cara. Estava com saudades.
Kesabel não mantinha os olhos na oponente. A fenda de sua pupila reptiliana pulava de um lado para o outro do corredor em busca de armadilhas.
— Cadê o seu exército? — perguntou ela.
— Meu exército? — Arazyal pousou a mão entre os seios da armadura em uma pose teatral. — Você quer que eu traga ele aqui? — Sua voz saiu entre divertida e desafiadora. Uma ondulação percorreu a máscara a partir do nariz e, quando terminou de varrê-la, a expressão havia sido trocada por um sorriso cruel e sarcástico.
— Lanças! — Ordenou Kesabel por sobre o ombro. — Nos corredores! Agora!
As unidades diante das esquinas viraram-se de frente para elas e baixaram suas lanças, transformando a parede de escudos em um porco espinho.
A máscara fungou uma risada.
— Eu sabia que você faria isso. — Puxou duas espadas curvas da cintura, ergueu-as acima da cabeça e começou a bater uma na outra.
Foi imediato.
Das vielas brotaram vários Cães Malditos, todos desembocando nos corredores em direção ao exército de Kesabel. Suas bocarras babentas rosnavam através dos dentes de espinho, suas musculaturas contraindo-se plenas sob a pele preta.
As lanças até empalaram um ou outro, mas as criaturas saltavam e eram muitas. Quando não caíam em cima dos escudos, caíam em cima dos soldados, desestabilizando a formação. Em segundos a parede tombou em vários pontos, as feras atacando violentamente quem encontravam pela frente. Porém, assim como matavam, morriam na mesma cadência ao serem trespassados sem dó por uma chuva de espadas.
Arazyal bateu novamente suas lâminas e uma nova onda de seu exército surgiu, dessa vez de demônios de armadura vermelha, todos correndo para aproveitar as brechas na formação.
— Sua maldita! — berrou Kesabel ao ver seus homens entrarem em franco conflito com o inimigo, porém sem qualquer ordem ou estratégia. Com os soldados vermelhos dividindo sua tropa em pedaços menores, a vantagem era toda de Arazyal.
— Maldita? Eu? — A máscara ondulou e trocou para uma expressão de falsa tristeza, a mão novamente indo aos seios. — Você não queria me enfrentar? — Ondulou novamente e exibiu fúria. — Não queria me matar?! Pois então venha, sua traíra! Sem os seus “amiguinhos”, somos só eu e você agora!
De fato, com a batalha se desenrolando atrás de Kesabel, não havia ninguém em seu caminho. A demônia-mor percebeu que este era o plano desde o início: um acerto de contas.
— Eu sou a traíra?! — Kesabel vomitou as palavras furiosamente e avançou na arqui-inimiga, as duas mãos firmes na espada. — Você trocou de lado!
Arazyal, vendo que suas espadas não eram páreo para aquela massa de ferro, correu até a parede mais próxima, saltou contra ela e, como se seu pé aderisse à superfície, deu um impulso que a jogou em uma pirueta por cima de Kesabel.
Pousou às suas costas, pronta para uma estocada em seu pescoço, porém a cauda chicoteou e defletiu o ataque. A Imperatriz, ainda de costas, aplicou um coice que atingiu Arazyal em cheio na máscara e a jogou para trás com um grito de dor.
Quando se virou de frente, notou uma pequena fissura na porcelana por cima do nariz. A máscara curou-se, a fissura sumiu por completo, e a expressão saiu de dor para uma carranca de fúria. Agora quem avançou foi Arazyal.
Com um grito de ódio, correu de encontro à Imperatriz e desceu sobre ela uma chuva de golpes velozes graças à leveza de suas lâminas. Demônios são fortes o bastante para brandir uma espada como a de Kesabel como se fosse de plástico. O problema é que as de Arazyal pareciam feitas de vento. Não apenas pesavam como tal em suas mãos, como sopravam golpes que soltavam faíscas quando atingiam a espada e a armadura de ferro. Kesabel recuou. Usava a grossa proteção do antebraço para bloquear uma das espadas e a sua lâmina para defletir a outra.
— É claro que eu troquei de lado! — Arazyal gritou enquanto descia seu ódio em cima de Kesabel. — Meus pais foram mortos por não pagarem impostos! Você queria o quê?! Que eu continuasse a dobrar meu joelho depois daquilo?!
Kesabel não respondeu. Tinha os dentes trincados enquanto recuava em busca de uma oportunidade, faíscas voando diante de seus olhos.
— O seu tão amado Imperador matou os primeiros a me acolherem depois que eu saí do pântano! Ele me tirou as únicas pessoas que me amavam!
O ventre que dava à luz a um bebê-demônio nem sempre pertencia a uma mamãe-demônio. Muitas vezes eram as profundezas de um Pântano Gerador o útero do qual os novos habitantes do inferno nasciam. Emergiam em formas adultas, porém mais simples e de mente rudimentar, sendo obrigados a descobrir como o mundo funciona por conta própria. Alguns eram capturados e treinados como soldados e escravos; outros vagavam sozinhos e aprendiam a sobreviver na marra; muitos morriam, pegos pelas feras selvagens; e os raros sortudos terminavam adotados por almas caridosas.
— Ele não te tirou os únicos que te amavam! — gritou Kesabel após se esquivar e devolver um ataque. — Eu estava lá! Eu te apoiei!
— Apoiou porra nenhuma! — Arazyal voltou a pressionar. — Você em nenhum momento se opôs ao reinado! Eu me opus! Eu tentei revidar, mas você me conteve! Nem para criticar aquele merda do Ukobach você teve coragem!
— Eu salvei sua vida, sua idiota! — Kesabel desceu a espada em golpes pesados, forçando Arazyal a usar as suas duas lâminas para se defender. — Você teria morrido se tivesse revidado!
— Eu não pedi para ser salva! Eu queria vingança e você me negou isso! — Arazyal conseguiu se esquivar e a espada gigante passou sem atingi-la. Ato seguinte, uma de suas lâminas tentou uma estocada no rosto de Kesabel, que só não caiu de costas porque se apoiou na cauda.
— É claro que eu neguei! Eu não queria que você morresse! — Kesabel gritou e recuou até bater a bunda contra uma parede. Olhou de relance para trás e notou que estava contra uma das janelas externas.
Arazyal parou e a encarou, a máscara cheia de azedume.
— Não é você quem decide sobre a minha vida — disse entre dentes.
Kesabel segurou o cabo da espada com força e rosnou em resposta:
— Concordo. Mas serei eu quem vai decidir sobre a sua morte!
A máscara ganhou uma expressão de fúria e avançou com um grito incontido. Kesabel viu-se encurralada. Com uma espada pesada como a sua e estando pressionada contra a janela, não conseguiria defender-se de um golpe e recuar do próximo.
Em um ato desesperado, largou sua espada e, quando a lâmina curva de Arazyal desceu mirando sua testa, agarrou o braço vermelho com ambas as mãos e o puxou na direção da janela, usando a inércia contra a oponente. A máscara chifruda estilhaçou o vidro e teria mergulhado sozinha queda livre abaixo, não fosse por sua dona ter abraçado Kesabel e a puxado junto. Com seu peso e a mão firme nos chifres vermelhos, puxou sua inimiga por sobre o parapeito em uma queda-livre de mais de cem metros de altura.
