4 - ESTRANHOS
Alice
Eu e Eduardo passamos a manhã juntos, foi bom, ele era muito gentil e eu podia ver que ele se interessava pelo o que eu falava, apesar de ter sido agradável o momento em que ele esteve aqui nós tocamos em um assunto muito sensível pra mim e eu mal podia acreditar que fui tão sensível a chegar em um ponto de chorar na frente dele.
Botei aquela bela rosa que eu havia ganhado dele em um vaso no meu quarto, confesso que fiquei surpresa pela atitude fofa dele em trazê-la para mim, cheguei até a pensar que ele não viria mais, por pura idiotice, foi apenas um exagero da minha parte por estar ansiosa demais, só que sendo sincera, não é todo dia que recebemos um menino tão bonito como ele em casa, notei que ele estava um pouco calado e mesmo assim não deixou de ser extremamente sexy.
Oh céus, eu estava parecendo Mabel com esses pensamentos. Eu tinha que ser menos empolgada.
E falando nela já havia três ligações suas e eu já estava a caminho do shopping, as vezes me perguntava como ela podia ser tão elétrica. Mabel era como a irmã que perdi, mesmo sabendo que minha irmã não podia ser substituível.
As vezes ela tem atitudes de uma criança e apesar de todas as loucuras Mabel cuida de mim e eu dela, e também não posso me esquecer de Anne, amo aquela nerd tímida, ela é como fosse a mais nova de todas e por isso é um pouco inocente, tento proteger e amar as duas o máximo que posso porque sei que amigas como elas não irei encontrar nunca.
Quando chego vejo Mabel e Anne paradas, elas estão com cara de poucos amigos e já faço uma carinha de cachorrinho sem dono.
- Onde você estava? Demorou um século. - Mabel esperneou.
- Eu praticamente criei raízes nesse chão. - Anne saiu andando e Mabel foi atrás.
Corri atrás delas.
- Não é para tanto. - resmunguei.
- É sim. Estou morrendo de fome. - Mabel parecia um monstro.
- Que tipo de buraco você tem no estômago? - Anne perguntou rindo.
- Me deixem. - Mabel estava se irritando.
Nós três rimos.
- Espera, para tudo. - Mabel parou no meio do shopping olhando pra mim.
- O'Que foi ? - Anne estava confusa.
- Eduardo foi na sua casa, não foi? Conte-me tudo.
- Não tem nada para contar, pelo menos não aqui, parecemos idiotas parados no meio de tanta gente.- olhei em volta.
- Deixa eu adivinhar. Vocês só conversaram e você ajudou ele nas burocracias da Universidade? - Anne arqueou a sobrancelha.
Balancei a cabeça afirmando. Ela riu.
- Não acredito, Alice. Que desgosto. - Mabel sussurrou e saiu andando de cabeça baixa como se fosse minha mãe.
- Para com isso Mabel. - disse indo atrás dela.
- Ele é tão sem atitude assim? - ela parecia decepcionada.
- Ele mal me conhece, não sou atirada. O que você esperava que acontecesse? - falei olhando pros lados
- Mabel tem um complexo de achar que todos são como ela. - Anne falou.
- Perfeitas? Nem todos. - Mabel retrucou cínica.
Rimos muito enquanto andávamos.
Entramos nas várias lojas atrás de sapatos e vestidos, era cada um mais lindo que o outro porém a procura continuou por mais um longo tempo, Anne é uma menina discreta então não queria um vestido com muito decote e nem muito curto mas Mabel queria um vestido curto e simples que chamasse atenção e eu queria qualquer coisa que me fizesse ficar confortável porém que fosse bonito. Óbvio. Quando finalmente achamos eu estava morta de tanto procurar porém eram vestidos perfeitos, e quando terminamos fomos comer pois Mabel não parava de reclamar que nem uma louca. Sentamos em uma das mesas e fizemos os pedidos para o garçom, logo ao lado da nossa mesa tinha uma outra onde estavam dois rapazes que não paravam de nos olhar.
- Estão vendo meninas? Acho que perderam alguma coisa na gente. - o sarcasmo de Mabel era impressionante.
- O que será que eles querem? - eu fiquei curiosa.
- Espero que nada, estou começando a ficar assustada... - Anne falou receosa, mordendo os lábios.
- Querem saber? Eu vou lá.
Mabel levantou e foi até lá. Eu não sabia onde encaixar minha cabeça. Olhei para o lado disfarçando.
- O que? Volta aqui sua doida! - Anne disse num tom alto me assustando.
Mabel ignorou Anne e foi lá mesmo assim, passou alguns minutos e ela continuava lá conversando com eles animadamente e parecia que eles se conheciam a muito tempo pois ela não parava de sorrir.
Mabel começou a chamar Anne e eu que estávamos com o pensamento fixo que não iríamos e no final acabamos indo.
- Olá. - os dois rapazes falaram em uníssono.
- Oi... - eu respondi porém Anne continuou calada.
- Alice, esses são Max e Alan. - Mabel os apresentou empolgada demais.
- Legal conhecê-los, sou Alice e essa é Anne- digo e Anne dá um aceno com uma cara de mal humorada.
- O prazer é todo meu meninas. - Alan se pronunciou.
- Sempre galanteador, Alan. - Max dizia sorrindo.
Depois que conheci eles, acabei descobrindo que eles realmente são pessoas legais e interessantes e não eram nada do que eu havia imaginado.
Eles eram engraçados então ficamos o resto da tarde conversando, os cinco, foi muito divertido, nós marcamos de se encontra de novo um outro dia, Alan é primo de Max e ambos tem 23 anos, são filhos de pais bem sucedidos, eles falaram que não suportavam viver a custa dos pais deles e por isso abriram uma empresa como sócios desde os 17 anos, Max é um pouco mais responsável que Alan, Max não gosta muito de beber e nem fuma mais já Alan não larga o cigarro e ambos são solteiros, Max gosta de viajar e Alan é igual a ele, eles não gostam de viver presos em um só canto, eles gostam de frequentar festas mas mesmo assim não largava a responsabilidade.
Bom, pelo menos foi isso que nos contaram.
Nos demos muito bem com eles, porém Anne não gostou muito e ficou calada durante toda a conversa.
Se despedimos dos rapazes e fomos embora, Mabel me deixou em casa e logo em seguida foi deixar Anne, eu só queria minha cama e depois que guardei tudo tomei um longo banho, vejo algumas chamadas perdidas do Eduardo em meu celular, foi inevitável não sorrir e eu não podia negar que me sentia atraída por ele. Resolvi retornar a ligação de uma vez, eu só não tinha certeza se ele iria atender e no terceiro toque ele atendeu.
- Oi Alice. - sua voz era sonolenta.
- Oi Heinrich.
- Heinrich, é ? - ele sorriu.
- Sim Heinrich, achei seu sobrenome interessante. Não posso usar?
- Claro que pode, só achei meio estranho, quase ninguém me chama assim.
- Pelo menos sou a única.
- Não duvido que seja.
- Te acordei?
- Não...Na verdade sim, já estava quase dormindo.
- Vi suas chamadas perdidas, o que queria?
- Apenas saber como você está.
- Bom, eu estou bem. - eu não podia evitar me sentir que nem uma boba.
- Tem certeza? Você estava muito abalada essa manhã.
- Não se preocupe, só estou meio envergonhada de chorar na sua frente.
- Não seja boba, é seu direito. - ele era passível.
- Meus motivos eram fortes. - eu não sabia porque mais queria me abrir.
- Passei por algo assim também.
- Como assim passou por isso?
- Esqueça, não quero me lembrar disso agora, talvez eu te conte um dia.
- Tem certeza? - pergunto curiosa.
- Sim. Vou desligar agora, ok? Estou cansado e preciso dormir um pouco.
- Ah, boa noite. Fica bem.
- Boa noite.
Depois que ele desligou fiquei pensando nessa história, ele havia mudado da água pro vinho em um segundo, como assim ele havia passado por isso? Acho que Eduardo tem muita coisa a dizer sobre si ainda e eu não podia descobrir de uma hora pra outra, afinal tinha 24 horas que eu tinha o conhecido e já estava imaginando coisas como se fossem a séculos. Ele é misterioso, sinto que ele esconde coisas complicadas.
Eu estava presa a esse pensamento a noite inteira, mas a verdade é que queria me livrar disso. Amanhã era dia de festa e eu tinha que esta disposta para me divertir um pouco, iria ligar para Alan e Max para que nos acompanhassem na festa, não queria ir sem acompanhante e eles foram como anjos que caíram do céu, vieram na hora certa, baladeiros daquele jeito, não iriam negar.
Não que eu começasse a confiar em estranhos do nada, mas definitivamente essa era a oportunidade de conhecê-los.
EDUARDO
Eu já estava quase dormindo quando mais uma vez meu celular tocou e com uma enorme preguiça me levantei e fui pegá-lo, depois que atendi um sorriso se abriu em meu rosto, era Alice, ficamos conversando e foi muito rápido pro meu gosto, só que uma curiosidade aflora nela e me deixou inquieto. Eu também tinha minha curiosidade, qual era o compromisso que ela tinha essa tarde? Na verdade não me interessava, ultimamente eu andava muito meloso e curioso a respeito dessa garota, para mim não importava o que ela fazia ou deixava de fazer, nunca fui de me importar tanto com os outros, sempre fui na minha e agora eu estava assustado comigo mesmo.
XX
No dia seguinte eu me perguntava o porque Olivia havia me ligado enfim, depois de tanto tempo, depois de todo o acontecido nunca mais tive nenhum tipo de notícia dela e tinham se passado anos, porque ela viria me procurar justo agora? Maldita hora em que conheci aquela mulher.
Eu estava em uma praça que várias pessoas e crianças costumavam a frequentar, a praça possuía lindas flores e um belo lago, me sentei em um dos bancos e pude ver crianças brincando com seus pais, isso me trouxe uma velha angústia de saber que nunca fui amado por meus pais, eles haviam me feito tanto mal, eram coisas que eu esperava que o tempo apagasse. Me pergunto onde estava meu irmão, desgraçado. Não o culpo, sofreu em dobro. Eu só achava injusto ele querer me punir por isso.
Quando voltei pra casa eu continuava olhando pro teto. Até receber outra ligação, eu estava puto da vida, eu odiava ligações e nesses últimos dias as pessoas insistiam em me ligar.
- Alô...
- Esqueceu dos velhos amigos, né? - ouço aquela voz grossa e bastante conhecida.
- Para de drama Thomy, como se eu não te conhecesse. Você foi para a Europa, liga uma vez por mês e eu que te abandonei? - eu não conseguia não jogar isso na cara.
- Tenho uma grande notícia, irmão.
- Qual? Não me diga que finalmente arranjou uma mulher que te pôs na linha...
- No dia em que isso acontecer me interne no hospício porque vou ficar louco.
- Não seria tão ruim.
- Estou voltando, enjoei daqui e agora você vai ter que me aturar.
Me levantei em um pulo. Eu estava surpreso.
- Como assim voltando?
- Você não é surdo que eu sei. - ele dizia morrendo de rir.
- Quando você chega?
- Amanhã de manhã no primeiro voo. Não se esqueça de me buscar.
- Você é folgado, cara.
- Irmão, admita que você me adora.- Thomy tinha um ar sarcástico.
- Nem em seus mais remotos sonhos.
- Até amanhã Hubermann.
- Até Muller.
Nem acreditava que Thomy iria voltar, ele era um dos meus melhores amigos de infância, o meu companheiro de aventura e vandalismo, aprontamos todas quando éramos mais novos, infelizmente 2 anos atrás Thomy resolveu ir morar fora do país, eu sabia que ele deveria ter motivos de ter ido mas nunca quis me contar, Thomy era bagunceiro, mulherengo e sabia ser bem sério quando queria, nunca ninguém teve coragem de mexer com ele porque sempre foi de brigar e arranjar confusões, ele sempre ganhava as lutas e nunca deixava barato e sempre se vingava. Em nosso antigo bairro ele era respeitado por todos, e mesmo gostando de brigar, Thomy sempre foi bom amigo e sempre protegeu os mais fracos, ele não suportava brincar com os sentimentos dos outros e odiava quem tentava tirar graça com quem ele gostasse sem falar nos tumultos, Thomy gostava mais de ser sozinho, ele ficou menos obscuro antes da viagem pois notei que ele só vivia sorrindo e falando ao telefone coisas, fiquei feliz que meu amigo iria voltar, depois que ele havia ido embora continuávamos se comunicando porém muito pouco, antigamente éramos 3, eu, Fernando e Thomy e infelizmente Fernando se envolveu com coisas erradas e pessoas perigosas e morreu, o pior de tudo foi que ele envolveu a mim e Thomy nos rolos dele e até hoje nós dois somos perseguidos, foi muito triste a morte de Fernando pois perder um amigo não era fácil, era um tormento, pensamos que com a morte dele as coisas fossem melhorar pro nosso lado e ao invés disso fizeram piorar mais ainda.
Saio dos meus pensamentos e vejo que é tarde e eu precisava me arrumar para ir na festa, assim que saio do banho vou para o guarda-roupas procura uma roupa, escolhi uma blusa polo azul marinho e uma calça jeans preta, dou uma bagunçada de leve com as mãos no cabelo e no final eu estava pronto.
Chegando lá vejo uma casa enorme com muito barulho, a música estava alta e ecoava por todo bairro, e assim que chego sou recebido por umas pessoas que já havia visto na faculdade e logo depois avisto Luciano e uma moça vindo em minha direção.
- Oi Eduardo. - dizia Luciano receptivo.
Aceno para ele.
- Essa é minha prima Sofia. - ele apontou para a moça ao seu lado.
- Oi Sofia, prazer em conhecê-la. - Estico a mão para ela.
- O prazer é todo meu. - ela era meiga.
- Nossos pais viajaram juntos então resolvemos dar essa festa. - Luciano estava dançante.
- Não vai dá problemas? Estou correndo de confusão.
- Claro que não, eles sabem. E os vizinhos não irão chamar a polícia. - Sofia estava olhando para Luciano.
- Vamos esquecer isso, estamos numa festa, vamos curtir! - Luciano era eufórico e isso me deixava um pouco entusiasmado.
-Vocês querem algo para beber? - Sofia estava gritando devido ao barulho da música.
- Eu aceito! - Luciano gritou em resposta.
- Eu também!
- Mais com álcool ou sem meninos ?
- Para mim sem álcool porque estou dirigindo - digo - Prefiro não arriscar minha vida.
- Você quem sabe... - Luciano dá de ombros.
Sofia passou pelas pessoas indo em direção ao bar.
-Vem, vou te apresentar algumas meninas. - Luciano saiu me puxando entre as pessoas.
Ele me leva a um grupinho de meninas e ficamos conversando por um bom tempo até que olho para a porta e vejo Alice, ela estava mais linda que normalmente, assim que a vejo começo a sorrir que nem um bobo porém meu sorriso se desmancha quando percebo que ela está acompanhada de um homem moreno de olhos claros e cabelos castanhos, talvez fosse seu namorado? Quem sabe... de repente uma grande decepção surge dentro de mim, uma coisa que não sabia explicar porém eu não tinha nada ver com a vida dela. Continuo conversando com Luciano e as meninas só que sem um pingo de ânimo.
Alguns minutos depois, Mabel e Alice estavam vindo na minha direção e eu só sentia um enjoo.
