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Capítulo 7

Eu sorri me sentindo boba. Não era do meu feitio me entregar a tais fantasias. Às vezes ele mal me reconhecia. Um emaranhado de características que já não me faziam ser o Roberto claro e definido do passado. Eu nem sabia mais quem ele era.

Respirei algumas vezes antes de me virar para ele e quando tive certeza da segurança escondida atrás das lentes falsas dos óculos de Robert, olhei para Lattner.

-Bom. Já que você quer preparar o jantar... de que adianta? - Ele estendeu a mão pegando uma cesta e caminhou pelo corredor. Ele parecia estar de bom humor novamente, como um lindo arco-íris depois de uma tempestade.

Olhei para ela por um momento e me perguntei por quanto tempo ela havia desfrutado daquela proximidade sem ser descoberta.

Quanto tempo mais Lattner e eu passaríamos juntos?

Quão agradável e rotineira seria a companhia deles?

Eu me sentiria mal longe dele? Teria sido triste se separar?

Afinal, ele não poderia fingir ser Robert para sempre. A ideia de que mais cedo ou mais tarde teríamos que nos separar, que eu teria que encontrar outro lar, me deixou estranhamente tonto. Fui forçado a me apoiar em uma prateleira, pressionando uma das mãos no peito.

Nunca havia me sentido assim antes, sentindo aquela facada cruel entre os seios, como se uma adaga tivesse sido esfaqueada em mim. Afastei a sensação desconfortável e corri até ele, tentando não ficar muito para trás enquanto pegava os itens nas prateleiras.

Não pense nisso ainda, Rob.

Aproveite o momento. Aproveita cada momento.

Quando chegar o dia, você pensará sobre isso.

-Você tem um prato favorito?- perguntei assim que o alcancei.

Não fazia ideia dos gostos dele, mas conhecia bem os meus e havia um prato que adorava preparar, talvez o único em que eu era bom. Foi baseado em frango e pimentão. Uma receita simples que aperfeiçoei nos meses de solidão quando cheguei em Detroit. Basicamente, eu cozinhava exatamente isso quando não estava aproveitando a comida para viagem.

Lattner balançou a cabeça, gotas de chuva escapando de seus cabelos molhados. Ele passou a mão entre eles e sorriu. -Eu como um pouco de tudo.-

Bom. E esperemos que não seja de paladar superfino, dados meus desastres na cozinha.

"Vamos comprar um pouco de carne para esta noite", dissemos em uníssono, pegando o mesmo pacote de frango cortado em tiras finas.

Meus dedos formigaram e um choque nas pontas dos dedos irradiou pelo meu braço até que eu pulei desajeitadamente. Nós dois largamos o frango e o pacote caiu de volta no balcão refrigerado. Agarrei a aba do boné com as duas mãos, tentando esconder o rosto corado e aquele olhar envergonhado que às vezes revelava mais do que eu queria.

Lattner riu e coçou a nuca, deslizando a mão pelo pescoço. -Bom, bom... eu diria isso... de qualquer forma, apoio sua escolha.- Por um momento tive a suspeita de que ele também estava constrangido com aquele contato.

-Perfeito! Então deixe comigo! “Não vou decepcionar você”, penso. Espere.

E esperemos que nada exploda!

“Não parecemos quase marido e mulher?” ele brincou, me dando um de seus sorrisos travessos.

Olhei para ele consternado. "Que porra é essa..." Suprimi um grunhido exasperado e peguei dois pacotes de frango e os joguei na cesta que estava segurando. "Vou pegar os pimentões", murmurei, correndo em direção ao balcão de frutas sem sequer me virar.

Mas por que diabos tem que ter essas saídas?

E então eu sou uma menina, de qualquer forma parecemos marido e mulher.

Claro, ele não sabe... mas caramba...

Corei e peguei uma pimenta em minhas mãos e brandi-a no ar amaldiçoando qualquer divindade que estivesse ouvindo. Deve ter havido alguém lá em cima que riu muito das minhas patéticas desventuras.

-Você está tentando invocar algum demônio maligno da pimenta?-

Virei-me com a arma ainda nas mãos e Nate riu. -Aqui, na verdade estou...- olhei para a pimenta. "Ele me provocou", murmurei, devolvendo-o ao seu lugar.

Ele estava vestido com roupas casuais e tinha uma leve barba. Ele parecia ter acabado de sair da cama, ainda com marcas de travesseiro no rosto. -Você está aqui com seu colega de quarto?- Ele passou a cesta carregada de compras de uma mão para a outra e só então percebi que ele parecia atento e tenso, ainda procurava por Lattner e com dificuldade conseguiu manter o olhar fixo . na minha.

Essa pergunta me colocou na defensiva. Não entendi por que ele estava interessado em saber se eu estava ou não aqui com meu colega de quarto. "Por que você está me perguntando isso?" Perguntei irritado.

-Você está vestido como Robert...-

"Oh sim." Eu imediatamente me senti estúpido.

Nate conseguiu me arrastar para limites muito elevados de desconforto e estupidez, que eu quase nunca havia ultrapassado em toda a minha vida, exceto recentemente com Lattner. Além disso, desde que suspeitei que ele era o motociclista, a minha atitude em relação a ele mudou radicalmente. Quando conversávamos eu não conseguia segurar seu olhar por muito tempo, meu peito batia forte como se um rádio tivesse sido enfiado no volume máximo em meu peito e eu invariavelmente acabava pensando nele em sua motocicleta. E esse pensamento me incomodou mais do que deveria. Acima de tudo pelos caminhos fervorosos e lânguidos que a minha mente imaginativa inclinou para aqueles cenários.

-Você está descansando esta noite, certo?-

Levantei a cabeça e observei enquanto ele passava a mão pelos cabelos, balançando de um pé para o outro. Percebi que muitas vezes fazia isso quando estava tenso. Era um tique que eu adorava nele. O desajeitado Nate venceu o taciturno e irascível por dez a zero. -Sim. O patrão me ligou há pouco e me disse que hoje está particularmente vazio... então ele me deu um dia de folga. Teremos muito trabalho perto do Natal, ele disse para me manter pronto para esses dias.-

“Eu trabalhava no turno do meio-dia”, ele murmurou e entendeu imediatamente a pergunta seguinte, tanto que imediatamente coloquei as mãos nos bolsos tentando esconder a paz de espírito que acabara de perder. "Olha, Rob... o que você diria se... bem, saíamos para tomar uma bebida esta noite?"

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