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Capítulo 6

Não havia nem calor naquela engenhoca infernal e eu estava realmente congelando.

Lattner dirigia com determinação, uma mão apoiada no volante e a outra trabalhando na mudança de marcha, caindo em seu colo quando não era necessário. Ele parecia absorto. Ele observou a estrada com cuidado. Parecia que só havia ele naquela cabana. Isso foi até ele falar comigo pela primeira vez, depois de minutos inteiros de silêncio. -O que você quer comer esta noite?-

Era uma questão trivial, mas continha uma vida cotidiana que em breve compartilharíamos constantemente. Tentei em vão não corar.

-Não sei. Eu poderia cozinhar.-

Ele desviou o olhar da estrada por um breve momento e olhou para mim surpreso. -Sabes cozinhar?-

-Claro! “Por quem você me toma?” Murmurei, estufando as bochechas.

O Rio. -E pensar que imaginei você mais como alguém que não consegue nem ferver um ovo cozido.-

Eu dei um soco no ombro dele. - Que idiota! Mas você acredita? Estou genial! Vou te surpreender, você vai ver!- Recostei-me no banco e fiquei olhando a água batendo na janela. -Na verdade, recentemente aprendi a cozinhar sozinho. Em minha casa era sempre meu irmão Adam quem preparava as coisas. A hora do almoço era talvez um dos poucos momentos felizes que compartilhava com minha família. Se feliz pode realmente definir. Estávamos todos à mesa, presentes mas ausentes. Adam era um cozinheiro habilidoso, minha mãe se divertia enquanto eu deixava para ele as rédeas da cozinha e meu pai só se aproximava da mesa quando já estava tudo no prato.

Parecíamos uma família, uma família de verdade, naqueles momentos. Na realidade era pura aparência, pois ninguém falava, entrincheirados atrás de suas próprias barreiras feitas de problemas e orgulho, porém, pelo menos compartilhamos o momento da comida.

-Eu não sabia que você tinha um irmão.-

Dei de ombros. -Sim. Cinco anos mais velho. Uma verdadeira dor de cabeça.-

-Irmãos mais velhos sempre podem ser um pé no saco, eu concordo.- A melancolia que captei em seu tom de voz me obrigou a me virar para ver seu rosto. Seus olhos ainda estavam na estrada, mas sua testa estava franzida em uma expressão sombria.

-Você também tem irmãos ou é filho único?-

Lattner mudou de marcha com muita força, gritando. Ele pareceu incomodado com a pergunta mas respondeu: -Um irmão mais velho... Samuel.-

-Bom nome.-

"Sim", foi tudo o que ele respondeu, voltando a dirigir, absorto em algum pensamento capaz de fazê-lo sorrir.

Eu gostaria de não ter perguntado a ele. A atmosfera congelou de repente.

No fundo eu não sabia nada sobre ele, não tinha ideia do que seu passado escondia e talvez, assim como eu, ele não se dava muito bem com sua família.

Eu o ouvi suspirar quando ele habilmente estacionou em uma vaga, desligou a engenhoca, imediatamente puxou as chaves e o carro fez um barulho não muito tranquilizador. Talvez ela estivesse morta. Talvez devêssemos ter voltado. Quando ele se virou para mim tentou sorrir, mas eu já havia aprendido a distinguir seus sorrisos sinceros daqueles das circunstâncias. -Você está pronto para uma longa viagem até a loja de conveniência? Ainda está chovendo... se não mais do que antes.-

Queria sugerir que ficássemos ali um pouco, que parássemos de conversar, que esperássemos a tempestade passar; Porém, aquele olhar frágil e atento que ele me lançou me fez entender que eu precisava sair daquele espaço que de repente parecia se estreitar para ele. Ele precisava correr, molhar-se, encharcar-se de chuva e ser fustigado pelo vento. Ele precisava se sentir vivo, presente.

Não sei como entendi tudo isso. Ou como ele descobriu isso com uma simples expressão. Talvez porque se assemelhasse ao meu próprio olhar quando minha mente tocou uma de minhas muitas lembranças dolorosas.

Aqueles olhos inquietos, aquele ar atormentado, aquele suspiro cheio de arrependimento me fizeram perceber rapidamente que falar sobre sua família doía mais que uma tempestade. E então, sem contar a ele, pulei do carro e comecei a correr.

Eu o ouvi dizer meu nome, mas não parei. Não até que as portas da loja se abriram e eu entrei, trazendo comigo a tempestade e uma quantidade de água pingando das minhas roupas em uma poça aos meus pés.

Lattner chegou um momento depois, ofegante e com o casaco erguido sobre a cabeça como um escudo. -Você está louco? Você está louco, né? - Mas ele riu. As sombras deram lugar a um olhar vivo por trás dos óculos embaçados e a um sorriso torto. -Olhe para você! Você está encharcado. Você parece uma garota careca, venha aqui.- Ele agarrou meus braços, esfregando-os para transmitir seu calor para mim.

Eu estava tremendo. Não sabia se era por causa do frio ou por causa daqueles dedos finos deslizando suavemente sobre o tecido molhado dos meus braços. Embora separado do moletom, aquele toque pareceu se transferir diretamente para minha pele, me fazendo estremecer. O frio deu lugar a um calor sufocante. De repente aquela sensação agradável se transformou em ondas de calor avassaladoras que invadiram a frieza da minha alma.

Com os dedos ainda emaranhados nas dobras do moletom, percebi que havíamos nos isolado de todo o resto. Afaste-se dos ruídos. Perdidos no olhar um do outro.

Era como se fôssemos apenas nós dois naquela loja de conveniência e o resto das pessoas estivesse apenas murmurando ao fundo.

Ou assim eu queria pensar. Acreditar por um momento que para ele também era assim, que aquele olhar intenso e firme era uma forma silenciosa de me transmitir aquela implicação momentânea mas total.

Estávamos tão próximos que a diferença de altura me fez pensar irracionalmente em quão alto eu teria que ficar na ponta dos pés para beijá-lo. Foi um pensamento tão ingênuo e ao mesmo tempo constrangedor que escapei de suas mãos, sentindo meu corpo formigar de cima a baixo.

Foi tolice ter tais pensamentos. Inapropriado. Especialmente se eu tivesse que ficar na casa de Robert.

Bem, sim, eu era Robert naquela época; Não Roberto. E era impensável que Lattner olhasse para mim como um homem olha para uma mulher.

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