Capítulo 5
A maneira como ele disse isso e o olhar triste que aquelas palavras despertaram nele apertaram minha garganta, cortando minha respiração bruscamente. Calafrios tomaram conta de mim e fui forçado a passar as mãos nos braços várias vezes para afastar a sensação desconfortável que de repente tomou conta de mim.
Ele sentiu pena de mim? Ele sentiu pena de mim? Ele foi tão gentil só porque conhecia minha história?
Apertei meus lábios. O café da manhã que acabei de tomar ainda estava revirando meu estômago, pronto para crescer novamente. Tive vontade de vomitar. Eu era patético.
-E como você sabe?- Eu tinha que saber. Queria saber.
Eu não dava mais a mínima para o meu papel como Robert. Naquele momento a necessidade de saber a verdade ultrapassava até mesmo o bom senso.
Torci as mãos nervosamente, esperando por uma resposta que não tinha certeza se queria ouvir.
-Seu currículo é conhecido por todos os professores. Descobrimos isso antes mesmo de ele pôr os pés em Missan. Acho que cautela, caso tivéssemos que abordá-la. Só posso dizer que ele teve um... hum, como dizer... passado colorido?
Eu teria preferido um tapa. Te juro.
Eu teria preferido um tapa àquelas palavras cheias de algo indefinível, a meio caminho entre a dor e a compaixão. Uma seriedade que de repente comeu seu sorriso. E embora Lattner não parecesse o tipo de pessoa que se importava com o que estava escrito em um currículo, não pude deixar de acreditar que sua gentileza comigo eram simples atos de caridade. Algo que se faz para não ser rude.
Tive que engolir várias vezes para parar o gosto amargo da bile, da vergonha e da humilhação. Coloquei uma das mãos no peito, acariciando-o em movimentos circulares e tentando aliviar aquele desconforto sufocante que até me impedia de respirar direito.
Porque? Por que falaram da minha vida daquele jeito, aos quatro ventos?
Por que eles repassaram a informação até para quem não teve nada a ver com a minha estadia lá? Por que avisar todo mundo assim, como se ele fosse um monstro?
Machuca. Foi mais uma derrota. Uma derrota perdida, sem sequer ter participado da batalha. Sem nem ter a chance de mostrar o quanto mudei e melhorei, do meu jeito.
-Um-absurdo. "Então ela realmente não serviu para nada", murmurei, tentando esconder meu interesse.
Foi difícil.
Foi difícil me passar por outra pessoa e manchar ainda mais minha imagem já suja dele. Era impossível cortar os laços comigo mesmo, com aquele velho eu que ainda me precedeu, que ainda carregava alto o meu nome e todos os delitos relacionados. Era difícil ser Robert, fingir estar distante, desinteressado, talvez até zangado. -Claro... passar de ruim para desajeitado não é um grande salto de qualidade. Deve ser um fracasso. Mordi o lábio nervosamente, contendo as lágrimas.
Senti-o bater na minha testa com os nós dos dedos algumas vezes, como se tivesse acabado de bater no meu cérebro. Eu nem percebi que ele tinha se levantado, dado a volta na mesa e se aproximado e arrancado o prato debaixo do meu nariz.
"Eu não vou deixar você falar sobre ela desse jeito." Ele estava falando sério. Incrivelmente sério.
Eu suspirei. Eu nem tive coragem de olhar nos olhos dele. Ao fazer isso, eu certamente teria me traído. Eu tinha acabado de me defender? Eu tinha acabado de me defender? Ele defendeu Roberto de Robert? Foi um absurdo.
-E por que?-
Ele foi em direção à cozinha e eu tive que me virar para acompanhar seus movimentos. Ele colocou suas coisas na pia e deu uma tragada no cigarro, fechando as cortinas da janela e olhando para fora. Num instante ele pareceu estar perdido, fugindo para outro mundo. -Acho que ele está tentando com todas as suas forças cortar os laços com seu antigo eu. Ao custo de reconstruir do zero.- Ele ficou em silêncio por um momento, cuspiu a fumaça. A mecha de cabelo cobria parte de seu rosto. Quando ele voltou a falar, sua voz saiu pesada e eu não tinha mais certeza se ele estava falando de mim, de Roberto O'Neil. -Sabe, Robert... às vezes para cortar os laços com o passado é-se obrigado a se reinventar.-
-E funciona?-
-Alguns dias sim... outros não.- Ele permaneceu encantado na janela, o olhar distante, a mente também. Os dedos apertaram o filtro do cigarro que ele consumiu sem mais tragar.
Eu queria me levantar e correr e abraçá-lo, dizer-lhe que qualquer que fosse o demônio que o estivesse atormentando, nós o derrotaríamos juntos.
Mas quem era eu para me permitir tal gesto? Eu não sabia nada sobre ele. Eu nem sabia que ele fumava até hoje.
Ainda assim, ele não conseguia lutar contra esses sentimentos. Eles caíram sobre mim como uma tempestade de granizo. Senti-os cavar na carne, nos ossos, na cabeça, mas sobretudo no coração.
Era como se Lattner, Thomas, estivesse vindo em minha direção. Sem fazer nada além de ser ele mesmo. E quanto mais eu tentava permanecer impassível diante dele e do efeito que ele causava em mim, mais me via catapultada para um turbilhão de sensações capazes de desconectar a racionalidade da minha mente.
Não foi apenas a beleza dela que aniquilou meu cérebro. Era também aquela estranha percepção que ele tinha dele, como se bebesse nos olhos as sensações que sentia perto de casa. Uma dor que não me era desconhecida. Às vezes, como naquele momento, ele se perdia no vazio, no caos dos seus pensamentos e percebi que principalmente naqueles momentos, quando ele estava mais longe, eu o sentia mais perto.
Não sei como descobri ou o que me fez acreditar, mas tinha certeza de que havia um buraco em sua alma. Uma ferida que muitas vezes pode roubar o seu sorriso e a sua presença no presente. Um fantasma do passado que ele não poderia jogar fora.
E quanto mais esses silêncios confirmavam isso, mais eu percebia que Roberto, e não Robert, queria dar um passo em direção a ele; Vá até ele, diga que ele não estava sozinho, diga que éramos dois naquela batalha.
Takeru tinha feito isso comigo e eu estava começando a pensar que uma mão estendida também poderia ajudar Lattner às vezes.
“O que você me diz então?” ele perguntou, me trazendo de volta à terra. Ele havia se afastado da janela e terminado a limpeza.
“O quê?” eu gaguejei. Eu tinha perdido a maior parte de suas palavras, muito perdida em meus pensamentos.
- Vamos fazer compras na loja de conveniência aqui perto? Também está aberto hoje, que é domingo.-
-Oh. S- sim... claro.-
Ele sorriu. Um sorriso amigável, mas não totalmente sincero. Havia algo escondido por trás disso, algo que ele ainda não queria que eu visse. -Nesse tempo
A chuva caía forte, um zumbido incessante que abafava cada som, devorava cada vislumbre de sol e trancava cada pensamento numa jaula. Era como se o cérebro de repente se encontrasse preso em seus próprios quartos, olhando pela janela, com todos os problemas dos quais não queria ouvir por trás dele. Foi uma longa viagem do prédio até o carro. Ele o havia deixado em um estacionamento público porque aparentemente não tinha garagem disponível. E sem nem guarda-chuva em casa, tínhamos corredores improvisados.
Ele correu rápido, como se não estivesse fazendo mais nada. Passar um tempo esfregando os ombros me fez descobrir que o Sr. Lattner era na verdade um cara bastante atlético. Sem falar no espetáculo que pude presenciar nos banheiros masculinos do Conde: aquele físico bem definido e bem treinado ainda assombrava meus sonhos mais sombrios.
Passei as mãos rapidamente pelos braços, tentando conter os calafrios.
O carro de Lattner não era nada moderno. Um veículo de quatro rodas abandonado, centenário e de aparência decrépita. Eu poderia tê-lo deixado estacionado mesmo com as chaves na ignição, ninguém se daria ao trabalho de sair para dar uma volta.
Ele nem tinha certeza de que iria dar partida até girar o botão e, com um baque semelhante a uma tosse, o carro pareceu ganhar vida. Foi quase um milagre.
