Biblioteca
Português
Capítulos
Configurações

Capítulo 2 - Kelly (PARTE 2)

ALÉM DE ALINE, Bianca e Caíque, a família Ferreti ainda contava com o menino Diogo de 16 anos que tinha ficado bastante interessado em minha amiga Nicole, mas que não tinha sido nem um pouco correspondido por ela. Assim como eu, a loirinha sempre gostou de caras mais velhos.

Embora soubesse que ele era comprometido, os olhos azuis de Nic brilharam mesmo pelo irmão mais famoso de Diogo, o Caíque, e a loirinha me confessou que o tinha achado muito gostoso. Eu não podia tirar a sua razão, afinal, ele realmente era uma delícia. Alto, corpo atlético, definido e a maior cara de garanhão.

A notícia mais triste daquelas semanas de preparação para o meu aniversário em setembro, foi quando o meu primo Henrique disse por mensagem que nem ele e nem sua noiva Valéria iam poder vir para a festa em São Paulo. Liguei para ele na mesma hora e nem com toda a manha do mundo consegui convencê-lo do contrário.

— Eu, a Val e o meu cunhado Fred estamos em Honduras cobrindo um evento esportivo, priminha — se desculpou ele —, o canal do Youtube da Delta-Sky está bombando e é muito importante para os negócios que a gente produza bastante conteúdo.

Delta-Sky era o centro de instrução para esportes radicais que Henrique tinha começado com dois sócios na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e o canal do Youtube que ele havia inaugurado servia para impulsionar ainda mais a empresa dele. Eu acompanhava sempre que podia os vídeos que eles lançavam semanalmente e curtia bastante.

— Mas é meu niver, Rique! — Fiz voz infantil, toda dengosa. — Não pode mesmo vir?

Ele riu do outro lado da linha e respondeu:

— Estamos cobrindo um campeonato mundial de vôlei de praia e kitesurf, amor. Só termina daqui a três semanas. Você sabe que se eu pudesse, estaria aí te dando um abraço bem apertado, não sabe?

Não fazia tanto tempo que o meu primo mais velho tinha estado em São Paulo, mas já estava sentindo muito a falta dele. Desde que ele havia se mudado para o Rio de Janeiro definitivamente, eram raros os momentos que tínhamos juntos. Considerando que eu havia crescido na presença dele e da sua irmã Natalie, ainda não tinha me acostumado com sua ausência.

— Vê se aparece para me ver pessoalmente até o fim do ano, seu bobo!

— Apareço sim, amorzinho. Até antes do Natal eu vou para São Paulo e matamos as saudades!

Quem também tinha ficado triste pela ausência de Henrique em minha festa era a Natalie, que andava bastante afastada do meu apartamento desde que tínhamos nos reunido lá durante a última visita do irmão a São Paulo. Faziam algumas semanas que eu não a via pessoalmente e quando liguei para convidá-la para a comemoração na Vila Madalena, sua voz me soou um tanto quanto tristonha pelo telefone.

— Está acontecendo alguma coisa, Nat? — Perguntei, depois que minha prima me confirmou presença na festa.

— Coisas de adulto, princesa. Não precisa se preocupar. — Respondeu ela, tentando fugir um pouco do assunto.

Natalie era a namorada de Rodrigo Monterey já há algum tempo. Os dois tinham sido namoradinhos no começo da adolescência e tinham se separado por quase um ano quando a família dela inteira precisou se mudar para o Rio de Janeiro e ele foi cursar faculdade na Inglaterra.

O pai dele sempre foi um homem muito exigente e rude que queria que o filho seguisse seus passos dentro da construtora que ele dirigia, o que fez com que o menino nunca tivesse vida fácil — apesar de toda a riqueza da família. Para extravasar, apesar de toda a marcação cerrada do pai, Rodrigo acabou se tornando um perfeito galinha, sempre saltando de poleiro em poleiro atrás das garotas mais lindas da cidade... até reencontrar Natalie.

Se via na cara dos dois o quanto eram apaixonados um pelo outro, e foi só ela voltar do Rio e ele da Inglaterra para que não se desgrudassem mais, começando um namoro firme.

— Você e o tio Digo brigaram? Foi isso, Nat? — Perguntei, percebendo logo que tinha botado o dedo na ferida.

Eu tinha entrado bem no meio daquela história logo que eles começaram a namorar sério. Assim como Henrique, Natalie era responsável por cuidar de mim enquanto minha mãe terminava a faculdade de Publicidade e tocava a agência, que na época, ainda estava engatinhando.

Meu pai tinha falecido enquanto eu ainda tinha 6 anos, e longe da família que tinha se mudado para Minas Gerais, a minha mãe sempre teve bastante dificuldade para me criar em meio à bagunça que era sua vida. Ela precisava me sustentar, mas para isso não tinha muito tempo para cuidar de mim, tarefa que acabou sobrando, entre outras pessoas, para meus dois primos.

Eu conheci Rodrigo num desses dias em que Nat tomava conta de mim e me apaixonei perdidamente, embora fosse só uma criança e ele um adolescente.

— Nós estamos dando um tempo, Kel — deu para sentir toda a tristeza na voz da minha prima. Ela estava mal —, aconteceram algumas coisas entre nós dois e eu achei melhor me afastar um pouco para organizar as ideias.

Nos últimos meses, os dois estavam morando juntos no apartamento da família dele da Vila Mariana. Por conta do tal desentendimento, Nat havia se mudado de volta para o flat dos Schneider, no bairro do Brooklin, e estava sozinha por lá.

— Não quero te ver tão triste assim, Nat. Promete que vai se animar um pouco durante a minha festa?

Eu amava Natalie. Por conta de toda a história que tínhamos juntas, dela ter cuidado de mim quando não tinha mais ninguém por perto, ela era mais do que uma prima e eu a considerava muito. Embora eu não soubesse explicar tudo que sentia pelo namorado dela — e sim, às vezes eu me sentia uma vaca por gostar tanto de Rodrigo mesmo ele sendo comprometido! —, eu não queria que os dois se separassem. Havia algo dentro de mim que me mandava aproveitar aquele afastamento entre os dois e me insinuar para ele, mas contive aquele sentimento o máximo que podia, em nome do sofrimento de Natalie. Eu não podia ser tão vagabunda.

O meu tio Digo — apelido que dei a ele ainda na época em que o conheci quando criança — confirmou presença na festa por mensagem e assim como Nat, não quis estender muito o assunto sobre a briga deles. Ele também parecia entristecido, mas procurou demonstrar simpatia enquanto falava comigo, dizendo que já havia comprado o meu presente e que ia mandar entregar em meu apartamento.

— Ai, tio Digo! Me conta o que é! Vou morrer de curiosidade!

— Nada disso, neném. Quero que seja uma surpresa. — Disse ele por texto, inserindo vários emojis de gargalhada se divertindo com minha ansiedade. — Só posso dizer que é algo que ninguém mais vai te dar de presente!

— Já sei então! — Me empolguei ao mandar uma mensagem de áudio para ele. — Meu presente vai ser você todo embrulhadinho pra mim!

Por mais que eu tentasse, raramente eu conseguia evitar de parecer oferecida para ele. Não importava quem estivesse em evidência em minha vida no momento; o meu tio Digo sempre ia se sobressair.

— Eu não sou seu presente, meu neném, mas confesso que adoraria ter você aqui agora para me abraçar daquele jeito que só você sabe.

Rodrigo não era de se fazer de carente. Muito pelo contrário. Jamais tinha conhecido alguém tão seguro de si quanto ele. Para dizer uma frase como aquela, era sinal de que ele estava bem fragilizado mesmo. Naquela noite, nós viramos a madrugada conversando e eu me coloquei à disposição dele caso precisasse desabafar. Foi uma das nossas conversas mais fofas de todos os tempos.

No dia da comemoração do meu aniversário, eu acordei extremamente nervosa e minha mãe precisou me acalmar para eu não ter uma crise de ansiedade. Como os demais dias, ela precisava dar expediente na Illuminare, e para ter a tarde toda livre para dar conta da organização da festa, ela foi trabalhar de manhã naquela quinta-feira.

Nicole e eu resolvemos fazer um aquecimento na sala do meu apartamento, já que tínhamos tirado aquele dia de folga do colégio — por nossa própria conta — e passamos horas ensaiando várias coreografias em frente ao espelho.

Assim como eu, Nic também não era muito chegada a festas barulhentas regadas a bebidas e drogas, mas nós duas adorávamos dançar, ou “mexer a raba”, como diria Micaela.

A loirinha tinha um gingado natural naqueles quadris, já eu, precisava exercitar mais para aguentar o ritmo de algumas horas de festa. Eu me considerava meio velha apesar da minha idade e minha própria mãe vivia me jogando na cara que eu precisava ser mais adolescente e parecer menos com uma senhora da terceira idade. Aquele era o dia para fazer algumas mudanças.

O começo da festa estava marcado para as dezoito horas e já às quinze, eu e Nic começamos a nos arrumar. Após vestir as nossas respectivas fantasias, uma trabalhou a maquiagem da outra e enchemos o nosso Instagram de fotos com poses e caretas diversas durante as pausas.

Nic penteou uma franja e prendeu os cabelos loiros num coque para ficar ainda mais parecida com a Sininho e era difícil competir com a beleza da minha amiga.

— Você é gata demais, vadia! Que inveja!

— Cala a boca, piranha! Você é que está maravilhosa de princesa. Todos cairão a seus pés, majestade! — Respondeu ela, fazendo uma reverência em minha frente no momento em que o interfone tocou.

Logo que atendi, descobri que Micaela e seus pais tinham chegado na portaria. Minha mãe tinha combinado com a dona Carla, mãe da minha amiga ruiva, para nos apanhar ali no Itaim Bibi e nos levar até a Vila Madalena. Tudo estava perfeito demais aquele dia e rezei para que continuasse assim.

Baixe o aplicativo agora para receber a recompensa
Digitalize o código QR para baixar o aplicativo Hinovel.