Capítulo 4_ Sabastian
Se havia algo que aprendi ao longo dos anos como advogado criminalista, era que a verdade nunca vinha completa. Ela vinha em pedaços, distorcida, manipulada, enterrada sob camadas de medo e mentiras.
E agora, eu tinha um novo nome na equação. Annabelle Carter. Ela era uma peça que eu não tinha considerado antes, mas agora se encaixava de um jeito que fazia tudo parecer ainda mais sujo.
Eu saí da sala de interrogatório e caminhei pelo corredor da delegacia, minha mente processando as informações com precisão cirúrgica.
Se Annabelle estava com Liam naquela noite, então Eleonor não era a única pessoa que poderia ter matado ele.
Mas as evidências continuavam esmagadoras. As digitais dela estavam na faca. Na garrafa. No apartamento.
Eu precisava de algo mais. Algo que quebrasse a acusação contra Eleonor antes que fosse tarde.
— Markhan.
Levantei o olhar ao ouvir minha assistente, Ava Sinclair, se aproximando apressada. Eficiente, discreta, sempre um passo à frente.
— O que foi? — perguntei.
— Pedi para um contato meu conseguir os registros da portaria do prédio de Liam na noite do assassinato.
— E?
Ava me entregou um envelope pardo.
— Você vai querer ver isso.
Peguei o envelope e o abri, retirando as cópias das anotações do porteiro. Meus olhos correram pelas linhas rapidamente, absorvendo cada detalhe.
O nome de Eleonor estava lá.
O que não deveria ser possível, já que ela negava ter estado no prédio naquela noite.
Minha mandíbula travou.
— Maldição…
Ava cruzou os braços.
— Se ela está mentindo, você precisa saber agora.
Fechei o envelope e inspirei fundo. Eu também precisava saber. Porque, no fundo, uma pergunta martelava na minha cabeça.
E se eu estivesse defendendo uma assassina? Meu instinto gritava que algo estava errado.
Se os registros da portaria estavam certos, Eleonor mentiu para mim.
Mas a pergunta era: por quê?
Eu fechei os olhos por um momento, tentando organizar os pensamentos. Eu precisava vê-la de novo. Precisava confrontá-la.
— Você quer que eu continue cavando? — Ava perguntou.
Abri os olhos e olhei para ela.
— Sim. Veja se há câmeras de segurança, converse com o porteiro. Preciso saber se Eleonor realmente esteve lá ou se alguém pode ter usado o nome dela para entrar.
Ava assentiu e saiu rapidamente, deixando-me sozinho com minha frustração.
Eu odiava ser enganado. Odiava ainda mais a possibilidade de estar defendendo alguém que não me contou tudo.
Peguei minha jaqueta e saí da delegacia. Não me dei ao trabalho de ligar antes. Eu queria pegá-la desprevenida.
***
O restaurante onde Eleonor trabalhava ficava a poucos quarteirões da minha casa. Um dos melhores da cidade. Eu já tinha jantado lá antes mesmo de saber quem era ela, muito antes dela se tornar minha cliente.
Agora, eu estava prestes a encarar aquela mulher de um jeito completamente diferente.
Atravessei o salão com passos firmes, desviando de garçons apressados e clientes distraídos. O aroma de temperos finos pairava no ar, mas meu foco estava fixo na figura atrás da cozinha envidraçada.
Eleonor estava ali, trabalhando como se sua vida não estivesse desmoronando. Como se não fosse uma mulher acusada de assassinato.
Mas havia algo nos ombros dela, na tensão dos movimentos, que dizia o contrário.
Eu passei pela porta lateral que dava acesso à cozinha. Um dos cozinheiros abriu a boca para me impedir, mas minha expressão deve ter sido o suficiente para fazê-lo pensar duas vezes.
Eleonor percebeu minha presença antes mesmo que eu dissesse uma palavra.
Seus olhos se encontraram com os meus e eu vi algo ali. Susto. Talvez até um pouco de culpa.
Ótimo.
— Precisamos conversar — minha voz saiu baixa, mas firme.
Ela limpou as mãos no avental e olhou ao redor, como se checasse se alguém estava prestando atenção.
— Sebastian, eu estou no meio do trabalho.
— Isso não pode esperar.
Ela hesitou por um momento, mas então assentiu, jogando o avental sobre o balcão e me guiando até uma porta lateral que levava a um pequeno depósito de mantimentos.
Assim que a porta se fechou atrás de nós, soltei o golpe.
— Seu nome está nos registros da portaria do prédio de Liam na noite em que ele foi assassinado.
Ela empalideceu.
— O quê?
— Então vou perguntar de novo, e você vai me dizer a verdade dessa vez. — Cruzei os braços, mantendo minha voz controlada. Fria. — Você esteve lá naquela noite, Eleonor?
Ela balançou a cabeça, parecendo atordoada.
— Não. Eu já disse. Eu não estava lá.
A raiva subiu pela minha espinha. Se ela estava mentindo, eu precisava saber agora.
— Então me explique como o porteiro anotou seu nome na entrada.
Ela abriu a boca, mas não disse nada.
Silêncio.
A primeira rachadura na muralha de certeza que ela vinha sustentando.
Eu dei um passo mais perto.
— Eu sou seu advogado. Não posso trabalhar no seu caso se você continuar me escondendo coisas.
Ela ergueu os olhos para mim, e algo dentro deles me atingiu como um soco.
Dúvida.
Medo.
E então, baixinho, quase um sussurro, ela disse:
— E se eu estive lá… e não lembro?
Não lembro.
Essas palavras estavam ecoando em minha cabeça, como uma ameaça velada. Eu a observei em silêncio, tentando entender o que estava acontecendo.
O que ela quis dizer com isso?
Ela parecia realmente perdida. Seus olhos, normalmente tão firmes, agora estavam turvos, como se estivesse olhando para algo que não podia compreender.
— Não lembra? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, mas o controle estava começando a escorregar. Eu me aproximava mais, tentando entender o significado daquela resposta. — Como assim, Eleonor?
Ela fechou os olhos por um momento, apertando as têmporas com as pontas dos dedos, como se estivesse tentando forçar a memória a voltar.
— Eu… não sei, Sebastian. Eu estava com ele na noite anterior, mas… — ela fez uma pausa, como se quisesse se convencer de que aquilo tinha sido uma mentira, ou talvez apenas uma confusão. — Depois disso, não consigo lembrar de nada até acordar no meu apartamento.
Eu cruzei os braços, estudando-a de perto. Essa história estava ficando cada vez mais estranha.
Ela estava escondendo algo, ou estava realmente tão perdida quanto parecia? Eu sabia que ela não era uma pessoa fácil de enganar, mas havia algo nos olhos dela agora, algo que parecia… genuíno.
— Você quer me dizer que esteve lá e não se lembra de nada? — A incredulidade tomou conta de mim. Eu não sabia mais se estava irritado com ela ou se a compadecia. Ela parecia tão fragilizada, tão pequena diante da acusação que pesava sobre ela.
Eleonor não respondeu de imediato. Seu olhar estava distante, como se buscasse respostas dentro de si mesma, mas nada vinha. A culpa, o medo e o desespero estavam estampados em seu rosto.
— Eu não sou uma assassina, Sebastian. Eu juro. — Ela me olhou com os olhos arregalados, como se cada palavra fosse um grito. — Eu não matei Liam. Eu nunca faria isso, apesar de tudo.
Eu queria acreditar nela. Eu queria muito. Mas a realidade das evidências, o peso dos registros, as digitais na faca e na garrafa… não podiam ser ignorados.
Então, eu respirei fundo e dei um passo para trás. Eu precisava dar um espaço para a verdade se revelar.
— Ok, Eleonor. Vamos fazer o seguinte. Eu vou investigar isso. Eu vou procurar respostas, e, se você está dizendo a verdade, então vamos encontrar a prova de que você está sendo incriminada. Mas você tem que começar a me contar tudo. Não pode haver mais segredos.
Ela olhou para mim, seus olhos marejados, e assentiu lentamente.
— Eu não sei o que mais você quer ouvir. Eu já te disse tudo o que sei…
Mas seu tom falhou, sua expressão vacilou, como se, no fundo, houvesse mais que ela não estava disposta a revelar. Algo estava se escondendo ali, e eu sabia que ela não estava dizendo a verdade completa.
Eu sabia que estava perto de alguma verdade importante. Mas qual era?
— Eu preciso saber o que aconteceu entre você e Liam naquela noite, Eleonor. Como você se sentiu, o que você viu. Tudo. Sem mais omissões.
Ela hesitou, parecia se debater entre confiar em mim ou se proteger. Mas então, com uma voz baixa e quase tremendo, ela falou, como se uma última parede estivesse caindo.
— Eu nunca contei a ninguém… mas Laim estava me ameaçando. Ele disse que se eu não voltasse para ele, ele iria destruir minha carreira. Ele queria me arruinar. Disse que faria com que eu perdesse tudo, minha vida inteira. Eu… eu estava com medo. Tinha medo de que ele fosse capaz de me destruir de verdade.
Eu não sabia o que responder. A tensão na sala aumentava, o peso da confissão pendia no ar. Ela realmente parecia estar dizendo a verdade, mas isso fazia a situação ainda mais complicada. Medo, ameaças, ódio. Se isso fosse verdade, então ela não estava apenas sendo incriminada, ela estava sendo empurrada para um canto sem saída.
E se alguém a tivesse manipulado? Se as digitais dela na cena do crime tivessem sido plantadas por alguém com muito mais poder?
— Eu vou descobrir a verdade. Você tem a minha palavra.
Ela me olhou, os olhos cheios de medo, mas também de esperança.
Eu precisava garantir que fosse a verdade. Tudo dependia disso.
