Capítulo 3 _ Eleonor
Eu senti o sangue esvair do meu rosto.
Uma segunda taça.
Isso mudava tudo.
Liam não estava sozinho antes de morrer. Havia outra mulher ali.
Minha mente girava, passando por rostos, lembranças, fragmentos de conversas. Havia uma possibilidade.
Uma possibilidade perigosa.
Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, senti o peso do olhar de Sebastian sobre mim. Avaliando. Medindo. Tentando decidir se eu era confiável ou uma assassina mentirosa.
Eu fechei as mãos sobre o colo, me obrigando a respirar fundo.
— Você sabe quem era? — Ele perguntou, a voz baixa, sem pressa, com expectativa.
Eu sabia o que ele queria. Uma resposta clara. Um nome.
Mas falar aquilo em voz alta me fazia sentir como se estivesse atravessando uma linha invisível. Como se a qualquer momento, tudo fosse ficar pior.
Eu mordi o lábio.
— Eu… não tenho certeza — menti.
Os olhos dele estreitaram ligeiramente. Ele sabia que eu estava escondendo algo.
Maldição.
— Mas tem um palpite — ele deduziu.
Minha garganta ficou seca.
Sim. Eu tinha.
E se eu estivesse certa, então essa mulher não era só uma presença passageira na noite da morte de Liam. Ela era alguém que tinha motivos para odiá-lo tanto quanto eu.
Talvez até mais.
— Preciso que confie em mim, Eleonor.
Minha cabeça se ergueu ao ouvir aquelas palavras.
Confiar? Como eu poderia confiar em alguém que não confiava em mim?
A verdade era que eu estava sozinha nisso. Sozinha contra evidências que gritavam minha culpa.
— Eu não matei Liam — eu disse, mais uma vez, porque precisava que pelo menos ele acreditasse.
Sebastian não respondeu de imediato. Ele apenas me olhou, como se buscasse algo na minha expressão, como se estivesse tentando escavar a verdade direto da minha pele.
Então, ele se inclinou um pouco para frente, e sua voz saiu mais baixa, controlada.
— Então me ajude a provar isso.
E ali, naquele instante, eu soube. Se eu quisesse sair dessa, teria que contar a ele o que sabia.
Mesmo que isso significasse trazer à tona um nome que poderia destruir tudo.
Eu umedeci os lábios, minha boca seca como papel.
Dizer aquele nome era como abrir uma porta que talvez nunca pudesse ser fechada novamente. E, se eu estivesse errada…
Eu engoli em seco.
Sebastian esperava, paciente, mas seus olhos me perfuravam como se já soubesse que eu estava prestes a jogar uma bomba na mesa entre nós.
Eu respirei fundo.
— Eu acho… — Minha voz vacilou, então forcei as palavras a saírem. — Eu acho que era Annabelle Carter.
O nome preencheu o ar da sala como um veneno silencioso.
Sebastian piscou uma vez. Seu rosto permaneceu impassível, mas notei a tensão mínima em sua mandíbula. Ele conhecia o nome.
Todo mundo conhecia.
— A Annabelle Carter? — Ele repetiu, como se precisasse ter certeza de que ouvira certo.
Eu assenti, sentindo um peso ainda maior sobre meus ombros.
Annabelle Carter. Socialite. Filha de um magnata do setor imobiliário. Bela, rica, influente. outra ex-namorada de Liam.
O relacionamento deles tinha sido um espetáculo público—cheio de idas e vindas, traições, escândalos abafados pela família dela. Quando eu conheci Liam, ele já não estava mais com Annabelle, mas sabia que ela não havia aceitado bem o fim. E, agora, tudo fazia sentido.
O vinho caro. A presença feminina na cena do crime. O sumiço repentino. Ela esteve com Liam antes dele morrer.
Sebastian encostou-se na cadeira, esfregando o queixo. Pensativo.
— Por que acha que foi ela?
Eu apertei os dedos uns contra os outros.
— Porque, na algumas semana antes… — hesitei, sentindo meu estômago revirar — ele me disse que Annabelle tinha voltado a procurá-lo.
Sebastian franziu a testa.
— Procurá-lo como?
— Ele disse que ela estava… obcecada. Queria tentar de novo. Dizia que ia fazer qualquer coisa para tê-lo de volta.
Sebastian me estudou por um momento.
— Isso foi semanas antes dele morrer?
Eu assenti.
Ele soltou um suspiro lento, olhando para a pasta de documentos na mesa.
— E você não achou importante contar isso antes?
Meu estômago revirou.
— Eu não tinha certeza… Eu não sabia que havia outra mulher no apartamento naquela noite.
— Mas você sabia que ela tinha um motivo.
A culpa se arrastou pela minha pele. Sim. Eu sabia, mas não queria ser a pessoa a dizer isso em voz alta.
Sebastian passou a mão pelos cabelos e respirou fundo, organizando os pensamentos.
— Se Annabelle estava lá… então você não foi a última pessoa a ver Liam morto.
Eu nem percebi que estava prendendo a respiração até esse momento. Porque aquela frase era mais do que um pensamento lógico. Era uma brecha.
Uma que podia me tirar dessa.
— O que acontece agora? — perguntei, minha voz mais fraca do que gostaria.
Sebastian segurou meu olhar por um instante antes de se levantar da cadeira.
— Agora, nós encontramos Annabelle Carter. E descobrimos o que diabos ela está escondendo.
O nome de Annabelle ainda pairava no ar quando Sebastian se levantou, encerrando a conversa como se tivesse acabado de encontrar a peça-chave do quebra-cabeça. Mas eu sabia que não era tão simples.
— Sebastian… — Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
Ele parou e me olhou, impassível. Sempre tão controlado, tão difícil de ler.
— Minhas digitais ainda estavam lá — engoli em seco, sentindo o pânico voltando a subir pelo meu peito. — Na garrafa. Na faca. No maldito apartamento dele.
O peso dessa verdade me esmagava todos os dias desde que fui presa. Nada disso sumiria só porque uma nova suspeita entrou na história.
Sebastian inspirou fundo e se virou totalmente para mim.
— Me diz uma coisa, Eleonor. Como as suas digitais foram parar lá?
Meu estômago revirou.
Eu não sabia.
Quer dizer… sabia que já tinha estado naquele apartamento. Claro que já. Mas eu não tinha pegado aquela garrafa naquela noite. Nem aquela faca.
Pelo menos, não que eu me lembrasse.
Sebastian se aproximou um passo, os olhos fixos nos meus.
— Você tem certeza de que não esteve no apartamento de Liam naquela noite?
O jeito como ele perguntou me incomodou. Porque ele não estava mais apenas analisando o caso. Ele estava me analisando.
A dúvida dele era um veneno silencioso, e eu não sabia como convencê-lo do contrário.
Respirei fundo, obrigando minha voz a sair firme.
— Eu já disse. Eu não estava lá.
Ele não desviou o olhar.
— Então alguém colocou suas digitais lá de propósito.
Essa ideia me fez estremecer.
— É possível?
Ele deu um sorriso sem humor.
— Tudo é possível quando alguém quer te incriminar.
Minha garganta ficou seca.
Se alguém havia feito isso… então essa pessoa não só matou Liam, mas queria que eu pagasse por isso.
Meus olhos encontraram os de Sebastian novamente, e uma ideia horrível se formou na minha mente.
— Você acha que foi Annabelle?
Sebastian não respondeu imediatamente. Ele apenas me observou, seus olhos escuros avaliando cada detalhe da minha reação.
Então, com um tom cuidadoso, ele disse:
— Eu acho que, se ela estava lá naquela noite… temos perguntas para fazer.
