Capítulo 5_ Eleonor
Meus dedos tremiam quando deslizei pela tela do celular, lendo a mensagem mais uma vez.
"Sente minha falta, Ellie?"
O número era desconhecido. Sem foto de perfil, sem nome salvo.
Tentei ligar, mas a chamada caiu antes mesmo de começar. Número inexistente.
Meu estômago revirou. Isso não fazia sentido. Liam estava morto.
Soltei o celular sobre a bancada da cozinha e me forcei a respirar fundo. A cozinha do restaurante estava silenciosa, quase todos já tinham ido embora, e eu deveria fazer o mesmo, mas o medo me mantinha paralisada.
Meu primeiro instinto foi ignorar. Dizer a mim mesma que era algum erro, um trote ridículo. Mas a verdade era que desde que fui solta, minha vida não era mais minha.
Eu precisava falar com Sebastian.
Peguei o celular e disquei rapidamente. Ele atendeu no terceiro toque.
— Eleonor? — A voz dele estava tensa, atenta.
— Sebastian… — fechei os olhos por um momento, tentando parecer mais calma do que realmente estava. — Eu preciso te ver. Agora.
Houve uma breve pausa.
— Onde você está?
— No restaurante.
— Certo. Já estou indo.
Desliguei e apertei o celular contra o peito, sentindo o pânico se enraizar mais fundo.
***
Sebastian entrou pela porta lateral do restaurante vinte minutos depois. Ele usava um sobretudo escuro, a expressão fechada e os olhos me analisando como se tentassem decifrar cada detalhe da minha inquietação.
— O que aconteceu?
Não respondi. Apenas estendi o celular para ele. Ele pegou e leu a mensagem. Seus olhos se estreitaram.
— Você tentou ligar de volta?
— Sim. Número inexistente.
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na tela. Então devolveu o celular.
— Pode ser um trote. Uma brincadeira de mau gosto.
Eu ri, mas sem humor.
— Acha mesmo? Desde que fui presa, minha vida virou um espetáculo. Meus clientes me olham de forma diferente. Sussurram. Fingem que não sabem quem eu sou, mas eu vejo nos olhos deles. A única razão para eu ainda estar aqui é porque sou sócia do restaurante, e Noah está fora do país. Mas ele já sabe. Todos sabem.
Sebastian suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros.
— Eu sei que não está sendo fácil. Mas você precisa manter a calma. Não pode dar motivos para desconfiarem mais de você.
— Eu não matei Liam, Sebastian. — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Mas eu sei que a qualquer momento posso voltar para a prisão se não provar isso.
Ele assentiu, olhando diretamente nos meus olhos.
— E é por isso que precisamos descobrir quem está fazendo isso com você.
Sebastian me observava como se escolhesse cuidadosamente as palavras antes de falar. Ele segurou a borda da mesa de aço inoxidável da cozinha e inclinou-se levemente para frente, como fazia quando estava prestes a dizer algo importante.
— Eu fiz algumas investigações por conta própria. — Sua voz era baixa, mas firme.
Meus músculos ficaram tensos.
— O que descobriu?
Ele soltou um suspiro, os olhos castanho-escuros analisando cada mínima reação minha.
— Primeiro, Annabelle tem um álibi sólido. Ela não esteve com Liam naquela noite.
Meu coração acelerou. Annabelle era a ex-namorada de Liam. Eles tinham terminado pouco antes de ele voltar a me procurar, e eu sempre soube que ela não tinha superado. No fundo, eu tinha imaginado que talvez ela tivesse algo a ver com tudo isso.
— Como assim? — perguntei, franzindo a testa. — Se não era ela quem estava lá...
— Na noite do assassinato, Annabelle estava viajando para Edimburgo. Pegou um trem no começo da noite e há registros dela chegando no hotel. Câmeras, transações no cartão de crédito. Tudo bate. Ela não estava com Liam naquela noite.
Engoli em seco. Isso significava que minha última teoria tinha desmoronado.
— Então… se não foi ela, quem era a mulher que estava com ele?
Sebastian cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça, como se estivesse calculando cada detalhe.
— Eu estou começando a acreditar que alguém está te incriminando. Todas as provas contra você parecem… fáceis demais. A faca com suas digitais, os registros de entrada no prédio…
Arregalei os olhos.
— Está dizendo que alguém manipulou as evidências?
Ele assentiu lentamente.
— É uma possibilidade que não posso ignorar. Pense nisso: se alguém quisesse te culpar, o que faria? Pegaria algo seu, algo que poderia ligar você ao crime, e garantiria que tudo apontasse diretamente para você.
Engoli em seco.
— Mas quem faria isso?
Sebastian apertou os lábios, pensativo.
— Alguém que queria Liam morto. Alguém que sabia da relação de vocês e que poderia transformar isso em um motivo para assassinato.
Minha mente girava. Havia tantas peças soltas, tantas perguntas sem resposta.
— Mas quem poderia querer Liam morto? — murmurei, mais para mim do que para ele. — E por que querem me incriminar?
Sebastian balançou a cabeça.
— Ainda não sei. Mas temos que descobrir antes que seja tarde demais.
A mensagem no meu celular ainda brilhava na tela.
"Sente minha falta, Ellie?"
E se isso não fosse um trote?
E se quem quer que tenha matado Liam… ainda estivesse me observando?
Um arrepio subiu pela minha espinha, deixando meus dedos dormentes enquanto eu olhava para a tela do celular. Aquela mensagem parecia mais do que uma brincadeira de mau gosto. Parecia um aviso.
Levantei os olhos para Sebastian, que me observava atentamente, como se estivesse tentando medir minha reação.
— Você acha que essa mensagem tem alguma relação com o caso? — Minha voz saiu mais baixa do que eu realmente pretendia.
Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, pegou o celular da minha mão e analisou a mensagem mais uma vez.
— Não descarto essa possibilidade. — Sua expressão era tensa. — O número inexistente pode significar que foi enviado por um serviço que mascara o remetente. Ou pode ser alguém que quer que você pense que Liam ainda está vivo. Ou seja, te enlouquecer.
Meu estômago revirou.
— Isso é doentio.
— Sim. — Ele devolveu o celular e cruzou os braços. — A questão é: quem se beneficiaria com isso?
Eu abri a boca para responder, mas nada saiu.
— Eu… não sei. — Admiti, sentindo o pânico crescer dentro de mim. — Eu nem sei mais em quem confiar, Sebastian. Desde que tudo isso começou, minha vida não pe mais a mesma. Meus clientes cochicham quando me veem, me olham como se eu fosse um monstro.
Passei as mãos pelo rosto, tentando conter as lágrimas que ameaçavam surgir.
— A única razão para eu ainda estar aqui é porque Noah ainda não me dispensou como sócia.
Sebastian me analisou por um momento antes de perguntar:
— Você conversou com ele depois que tudo aconteceu?
Assenti.
— Sim. Ele me ligou assim que soube da minha prisão. Perguntou se eu estava bem, se eu precisava de algo… Mas não parecia o mesmo. A voz dele estava estranha, distante.
— Você confia nele?
Pisquei, surpresa com a pergunta.
— O quê? Claro que sim! Noah é meu amigo há anos, e ele nunca me julgou. Ele… ele acreditou em mim.
— Acreditou? — Sebastian repetiu, seu olhar perspicaz perfurando o meu.
Engoli em seco.
— Eu… acho que sim.
Ele suspirou.
— Eleonor, nesse momento, precisamos considerar todas as possibilidades. Até as que parecem improváveis.
Balancei a cabeça, negando.
— Noah jamais faria algo assim. Ele sempre esteve do meu lado. E mais, ele está viajando, desde muito antes disso tudo acontecer.
— Então quem mais poderia ter motivos para te incriminar?
Fechei os olhos, tentando organizar meus pensamentos.
Quem poderia querer Liam morto? Quem teria algo a ganhar com a minha ruína?
E, mais importante… Quem estava me observando?
O silêncio na cozinha era opressor. Apenas o zumbido distante dos refrigeradores preenchia o espaço enquanto eu tentava juntar os pedaços da minha própria história.
Sebastian estava certo. Alguém queria me incriminar.
Mas por quê? Quem teria algo a ganhar com isso?
Cruzei os braços sobre o peito e comecei a andar de um lado para o outro, sentindo a pressão familiar da ansiedade crescer dentro de mim.
— Eu não sei, Sebastian. — Minha voz saiu exausta. — Não consigo pensar em ninguém que odiava Liam o suficiente para matá-lo e me fazer pagar pelo crime.
Sebastian continuava parado, me observando com aquela calma inquietante que às vezes me irritava. Como se estivesse apenas esperando que eu falasse algo que ele pudesse usar para resolver um quebra-cabeça invisível.
— Pense, Eleonor. — Ele inclinou a cabeça levemente. — Além de Annabelle, havia mais alguém na vida dele? Algum amigo, inimigo, sócio, alguém que pudesse ter interesse em vê-lo morto?
Fechei os olhos e respirei fundo, tentando voltar no tempo.
Liam era charmoso, envolvente, manipulador. Tinha facilidade para conquistar as pessoas, mas também colecionava desafetos.
— Ele era um cara arrogante. Sempre achava que podia ter o que queria. — Comecei, tentando puxar memórias que talvez tivessem passado despercebidas antes. — Mas ele também era persuasivo, fazia as pessoas gostarem dele. Até o momento em que começavam a ver quem ele realmente era.
Sebastian franziu a testa.
— Alguém o odiava o suficiente para matá-lo?
Eu hesitei.
— Eu nunca soube de nada específico… Mas havia um cara. — Mordi o lábio, forçando minha mente a puxar a lembrança. — Algumas semanas antes de Liam aparecer na minha vida de novo, ele comentou que estava com problemas com um investidor. Disse que alguém estava tentando ferrá-lo em um negócio.
— Você sabe o nome desse investidor?
Pensei por um momento e balancei a cabeça.
— Não… Mas lembro que ele estava furioso. Disse que ia dar um jeito na situação.
Sebastian apertou os lábios e ficou em silêncio por um momento.
— Se esse investidor realmente existia, pode ser que ele seja a peça que estamos procurando.
Olhei para ele, sentindo meu coração acelerar.
— Você acha que foi ele?
Sebastian suspirou.
— Eu ainda não sei, mas se Liam tinha um inimigo e esse inimigo decidiu matá-lo, ele pode ter visto em você a oportunidade perfeita para escapar impune.
Meus joelhos fraquejaram, e me apoiei na bancada.
Então era isso? Eu estava pagando por algo que não fiz só porque alguém viu em mim a vítima perfeita?
O pânico cresceu dentro de mim, mas eu me obriguei a manter a calma.
— E se for isso… Como a gente prova?
Sebastian me olhou com a mesma intensidade de sempre, mas havia algo diferente agora.
Determinação.
— Nós vamos descobrir quem fez isso. Antes que ele resolva tentar te calar de vez.
O medo que estava sentindo era grande. Tão grande que eu voltava para casa receosa. A sensação de estar sendo observada o tempo todo era crescente. Eu estava considerando dormir no escritório do restaurante por algum tempo, até as coisas se esclarecerem, mas Noah odiaria isso.
