Capítulo 2 _ Sebastian
“Você quer aceitar esse caso?”
A voz do meu sócio, Henry Walsh, ecoava pela minha mente enquanto eu estudava a pasta aberta sobre a mesa. O nome Eleonor Bennett estava impresso no topo das páginas, seguido de uma lista crescente de evidências contra ela.
O tipo de caso que fazia qualquer advogado criminalista hesitar.
Inocente ou culpada? Isso ainda não estava claro. Mas o que estava claro era que defender Eleonor Bennett poderia custar minha reputação.
Puxei a foto que haviam me dado. Não da cena do crime, mas dela. Um registro de alguns meses atrás, quando foi fotografada para um artigo sobre o restaurante onde trabalhava. Na imagem, ela usava um avental escuro, o cabelo preso de maneira casual, um olhar intenso de quem dominava a cozinha.
Era difícil conciliar essa imagem com a mulher acusada de assassinato. Mas, havia outra coisa. Algo que eu não mencionei para Henry. Eu já a tinha visto antes. Não apenas no restaurante. Não apenas servindo pratos premiados para clientes exigentes. Eu a tinha visto com hematomas nos braços.
Lembro-me de reparar, de sentir aquela pontada de incômodo ao perceber que ela tentava escondê-los sob as mangas da camisa. Na época, achei que não era da minha conta. Agora, me perguntava se deveria ter sido.
Bati a caneta contra a mesa, analisando os papéis mais uma vez. Ela jura que é inocente. As provas dizem o contrário.
E, se eu aceitasse esse caso, teria que descobrir a verdade a qualquer custo.
Eu nunca fui um homem impulsivo. Meu trabalho exigia precisão, estratégia, um olhar cirúrgico para detalhes. A verdade não importava tanto quanto o que podia ser provado em tribunal. E eu sabia que, às vezes, culpados saíam livres enquanto inocentes apodreciam atrás das grades.
Era assim que o jogo funcionava. Poém, algo nesse caso me deixava inquieto.
O telefone vibrou na mesa, trazendo-me de volta ao presente. Era uma mensagem de Henry.
“Preciso de uma resposta. Vai ou não vai pegar o caso?”
Meu olhar voltou para a foto de Eleonor. Seus olhos eram fortes, mas havia algo mais. Decidi que só havia uma maneira de descobrir.
Peguei o telefone e liguei para Henry.
— Vou aceitar o caso.
— Você tem certeza? A promotoria está faminta por uma condenação. Se ela for culpada…
— Então eu vou descobrir.
Desliguei antes que ele pudesse insistir. Peguei meu casaco e saí do escritório. Era hora de conhecer Eleonor Bennett pessoalmente.
Na Delegacia de Polícia Metropolitana de Londres
O cheiro de café velho e papel úmido impregnava a sala de interrogatório.
Eleonor estava sentada à mesa, os pulsos livres agora, mas a tensão ainda presa ao seu corpo. Ela mantinha os braços cruzados, o olhar fixo na parede, como se estivesse se segurando para não desmontar ali mesmo.
A ficha dela estava diante de mim. Eu a li do começo ao fim antes de entrar.
26 anos. Chef principal de um dos restaurantes mais respeitados da cidade. Sem antecedentes criminais. Sem histórico de violência, embora as evidências contra ela estejam acumulando rápido. E eu precisava entender o que ninguém parecia perguntar.
Se Eleonor Bennett não matou Liam Wilson… quem matou?
Ela ergueu os olhos quando entrei. Olhos verdes, frios e duros, mas eu notei o que estava por trás deles. Medo. Cansaço. Uma batalha interna entre a indignação e o desespero.
— Eleonor Bennett — falei, puxando a cadeira e me sentando.
Ela não respondeu de imediato. Seu olhar avaliou cada detalhe meu. O terno escuro, o relógio caro, a postura rígida. Ela estava tentando me ler.
— E você é?
— Sebastian Markhan. Seu advogado.
Ela piscou, surpresa.
— Eu não pedi um advogado.
— Não. Mas você precisa de um.
Ela soltou um riso curto, sem humor.
— Por que aceitou o caso?
Boa pergunta.
A resposta simples seria: porque é um desafio, e eu nunca perco.
A resposta verdadeira? Eu ainda não sabia.
Cruzei as mãos sobre a mesa.
— Porque quero entender por que uma mulher que afirma ser inocente não consegue explicar um buraco de vinte minutos na própria noite.
A mandíbula dela ficou rígida.
— Eu já disse. Eu não sei.
— Isso não é suficiente. Você precisa lembrar.
— Acha que não estou tentando? — A voz dela subiu um tom, mas se quebrou no final.
Ela estava perto de desmoronar.
Abaixei o tom, me inclinando levemente para frente.
— Olhe para mim, Eleonor.
Ela hesitou, então obedeceu.
— Se não encontrar uma resposta para isso, a promotoria vai encontrar por você. E garanto que não será uma resposta boa.
Ela engoliu em seco, desviando o olhar.
Então, num sussurro quase inaudível, murmurou:
— Eu não matei Liam.
Fiquei observando-a por um momento.
Não respondi. Porque, pela primeira vez desde que aceitei o caso, eu não tinha certeza se acreditava nela.
Eu não gosto de casos assim. Casos onde a verdade se esconde nas rachaduras da mente de alguém. Onde não há certezas, apenas sombras. Mas, agora eu estava dentro. E, se havia uma coisa que aprendi na minha carreira, era que uma vez que você entra, não pode sair até vencer.
Eleonor desviou o olhar, seus dedos apertando a bainha da camisa.
— O que acontece agora? — ela perguntou, a voz mais baixa, mais contida.
Agora?
Agora eu tinha que descobrir se estava defendendo uma mulher inocente ou se estava prestes a enterrar minha carreira defendendo alguém que mentia para mim.
Mas eu não disse isso.
— Agora eu preciso de respostas. Preciso saber exatamente o que aconteceu naquela noite, o que a promotoria tem contra você e encontrar um jeito de desmontar isso peça por peça.
Ela assentiu lentamente, mas vi seus ombros ficarem mais rígidos.
— Não tenho muito a oferecer — murmurou.
— Eu sei. Mas vamos começar com o que temos.
Abri a pasta sobre a mesa, passando os dedos pelos documentos. Eu já sabia o que estava ali. Só queria ver como ela reagiria ao ouvir.
— Liam Wilson foi encontrado morto no apartamento dele. Um golpe na cabeça. O objeto usado? Uma garrafa de vinho cara. Quebrada e uma faca. Com suas digitais nelas.
Eleonor fechou os olhos por um breve segundo.
— Isso não faz sentido…
Ignorei a interrupção e continuei.
— O porteiro do prédio dele afirma ter visto você entrando na noite do crime. A câmera do elevador capturou uma mulher de casaco escuro subindo para o andar dele. Seu rosto não aparece… mas a promotoria acha que era você.
Ela engoliu em seco.
— Eu não estava lá.
— Tem certeza?
Seus olhos encontraram os meus, e eu senti a hesitação. Mínima, mas presente.
— Sim. Eu… acho que sim.
— Acha?
Ela fechou os punhos sobre o colo.
— Eu já disse que não lembro direito daquele horário. Mas eu não fui lá.
Meu olhar ficou preso ao dela por um instante. Se estava mentindo, era boa nisso. Boa demais.
— Ok — eu disse, mantendo a calma. — A autópsia mostrou que Liam estava bêbado quando morreu. Mas também havia outra coisa.
Vi o estremecer súbito no rosto dela.
Ela já sabia.
— Eleonor — continuei, minha voz mais baixa agora —, Liam Wilson estava morto há menos de uma hora quando a polícia chegou. E quando fizeram a autópsia… descobriram que ele tinha cocaína no sangue.
Os ombros dela se encolheram.
— Liam nunca usou drogas. Ele odiava isso.
— As evidências dizem o contrário.
Ela passou a mão pelo rosto.
— Isso não faz sentido.
— Mais alguma coisa não faz sentido para você?
Eleonor hesitou.
— O quê?
Era agora.
Fechei a pasta, apoiando os cotovelos na mesa, prendendo seu olhar.
— Eleonor. Liam estava morto há menos de uma hora quando foi encontrado. Mas ele não estava sozinho.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— A perícia encontrou uma segunda taça de vinho no apartamento. Com marcas de batom.
Um silêncio cortante caiu entre nós.
O rosto dela perdeu um pouco da cor.
— Você está dizendo que…
— Liam estava com uma mulher pouco antes de morrer — eu disse, escolhendo cada palavra com cuidado. — E ela sumiu sem deixar rastro.
Eleonor ficou imóvel.
Por um momento, achei que não fosse responder. Mas, então, ela ergueu os olhos, e algo brilhou ali.
Algo entre medo e compreensão.
E então ela sussurrou:
— Eu acho que sei quem era essa mulher.
