Capítulo 1_ Eleonor
O cheiro de alho dourando na manteiga ainda impregnava o ar quando eles entraram.
Primeiro, vieram os passos. Rápidos, determinados. Depois, as vozes firmes cortando a cozinha como lâminas afiadas. Me virei a tempo de ver três policiais de uniforme escuro avançando entre os cozinheiros, abrindo caminho entre as bancadas de aço inox. O restaurante estava lotado naquela noite. As panelas sibilavam no fogo alto, clientes riam e brindavam nas mesas do salão.
Mas, no meu mundo, tudo parou.
— Eleonor Bennett?
Meu nome nunca soou tão errado. Engoli seco, tentando entender o que estava acontecendo. O coração bateu uma vez. Duas. Três.
O chefe de sala olhava de um lado para o outro, como se esperasse alguém desmentir aquela cena absurda. Alguns dos cozinheiros se afastaram, as conchas e facas pendendo frouxas nas mãos.
— Sim? — minha voz saiu hesitante, quase um sussurro.
O oficial mais alto deu um passo à frente. Era um homem de rosto rígido, um olhar que não deixava dúvidas.
— Eleonor Bennett, você está presa pelo assassinato de Liam Wilson.
Não.
O ar se foi dos meus pulmões num instante, como se tivessem me socado o estômago. Alguém arfou atrás de mim. Meus dedos ficaram dormentes ao redor do pano de prato que eu segurava, enquanto a frase martelava na minha cabeça.
Liam Wilson está morto.
E eles acham que fui eu.
O oficial continuou falando, recitando meus direitos, mas as palavras eram apenas ruídos distantes. Um zumbido ensurdecedor preenchia minha mente, apagando tudo ao redor.
— Isso… isso é um engano — minha voz falhou. — Eu não… Eu nem…
As algemas frias tocaram minha pele. Foi quando o choque deu lugar ao pânico.
Puxei o braço por reflexo, mas o aperto de metal se fechou ao redor dos meus pulsos. A cozinha inteira estava imóvel agora. Nenhum barulho de frigideiras batendo, nenhum pedido sendo gritado. Só o murmúrio crescente vindo do salão. Alguém deve ter visto. Alguém sempre vê.
— Eu não fiz isso — insisti, a voz trêmula. — Eu juro que não fiz isso.
Mas ninguém respondeu.
Porque ninguém acreditava em mim.
Atravessar o salão algemada foi um pesadelo em câmera lenta. Os clientes interromperam as conversas. Copos meio erguidos pararam no ar. Vi rostos conhecidos – clientes regulares, críticos gastronômicos, até um casal que eu tinha cumprimentado minutos antes. Vi a incredulidade nos olhos de alguns e o choque nos de outros. Mas, pior do que tudo, vi os olhares de julgamento.
Sussurros começaram a se espalhar como fogo sobre óleo quente.
"É ela?"
"Meu Deus, é a chef?"
"O que ela fez?"
A humilhação queimava minha pele mais do que qualquer panela quente já fizera.
Lá fora, flashes dispararam assim que saímos. O frio da noite de Londres me atingiu em cheio, mas não foi isso que me fez tremer. Era a sensação de estar sendo devorada viva.
Jornalistas estavam esperando.
Esperando por mim.
— Eleonor, você matou Liam Wilson? — alguém gritou.
— O que pode nos dizer sobre a noite do crime?
— Você sabia que ele estava morto antes da polícia encontrá-lo?
Meus olhos piscavam contra as luzes incessantes, minha mente numa mistura de pânico e confusão. Como isso estava acontecendo? Como tudo podia ter desmoronado tão rápido?
Eu não conseguia falar. Porque, por um segundo, percebi algo ainda pior do que o medo e a vergonha.
Duvidavam de mim.
A cidade inteira, o restaurante que eu ajudei a construir, as pessoas que dividiam a cozinha comigo todas as noites. Todos estavam dispostos a acreditar que eu era capaz de matar alguém.
Eu não fiz isso. Mas será que alguém, além de mim, acreditava?
Dentro da delegacia
Fiquei sentada naquela sala por tempo suficiente para que meus nervos fossem substituídos por exaustão.
A luz fria e branca acima de mim zumbia. O metal da mesa refletia o rosto de uma mulher que mal reconhecia – pálida, olhos arregalados, a boca franzida como se ainda tentasse processar o que estava acontecendo.
O relógio na parede indicava que horas haviam passado, mas o tempo não fazia sentido ali dentro.
A porta rangeu quando se abriu, e uma mulher de sobretudo cinza entrou. Cabelos presos em um coque apertado, olhar clínico e afiado. Sentou-se à minha frente, abriu um bloco de notas e começou.
— Eleonor, eu sou a detetive Harper. Vamos falar sobre a última vez que você viu Liam Wilson.
O nome dele me atingiu como um soco.
Engoli seco.
— Eu… fazia semanas que eu não via Liam. Nós... rompemos, e desde então eu não o vi mais.
A detetive Harper arqueou uma sobrancelha.
— Ele não aceitou muito bem o fim do relacionamento, aceitou?
Um aperto formou-se no meu peito.
— Não — murmurei.
— Ele já foi visto gritando com você em público. Seus vizinhos relataram brigas. Você apareceu no trabalho com hematomas.
Olhei para minhas próprias mãos, apertadas sobre o colo. O estômago revirou.
— Mas eu não matei ele.
— Então por que todas as evidências apontam para você?
Meu coração bateu forte.
— Quais evidências?
A detetive inclinou-se para frente.
— Suas digitais estavam na cena do crime.
Senti o chão se abrir sob mim.
— Isso não é possível. Eu… eu não estive lá!
Harper manteve os olhos fixos em mim.
— Eleonor, você sabia que Liam estava morto antes de a polícia encontrá-lo?
— O quê? Claro que não!
A detetive cruzou os braços.
— E sabia que a autópsia revelou que ele morreu entre 22h e 23h da noite passada?
Balancei a cabeça.
— Isso significa que eu estava no restaurante. Eu estava trabalhando! Meus colegas podem confirmar!
Harper virou algumas páginas do bloco de notas.
— Sim, alguns funcionários dizem que você estava lá. Mas há um problema, Eleonor.
Engoli em seco.
— Que problema?
A detetive empurrou uma foto sobre a mesa. Eu não queria olhar, mas olhei.
Era uma imagem granulada, uma captura de uma câmera de segurança. Um relógio digital no canto da tela marcava 22h47. No centro da imagem, uma figura de casaco escuro saía pela porta dos fundos do restaurante. Eu.
Minha respiração ficou presa na garganta.
— Isso não faz sentido… Eu…
— Você saiu do restaurante no horário exato em que Liam foi assassinado. E voltou vinte minutos depois.
Harper me encarou como se já soubesse a resposta antes de perguntar:
— Onde você esteve nesse intervalo de tempo?
O silêncio na sala se tornou insuportável.
Minha própria imagem naquela foto me encarava, distorcida pela baixa resolução, mas ainda assim inconfundível. Eu saindo do restaurante às 22h47. O mesmo horário estimado da morte de Liam.
Meus olhos estavam fixos na foto, mas minha mente estava em outro lugar. Onde eu estava naquele horário? Eu queria ter uma resposta imediata. Mas não tinha.
— Eleonor? — A voz da detetive Harper me puxou de volta.
Eu levantei os olhos para ela, sentindo o estômago revirar.
— Eu… eu não sei.
As palavras saíram antes que eu pudesse pensar em algo melhor para dizer.
Harper franziu a testa.
— Você não sabe onde estava?
Eu balancei a cabeça, confusa. Não era possível. Eu teria que lembrar.
Mas minha memória era uma névoa. Um vácuo.
— Isso não faz sentido — murmurei. — Eu estava no restaurante a noite toda…
— Não. Você saiu — ela corrigiu, apontando a foto. — E voltou vinte minutos depois. E agora está me dizendo que não lembra para onde foi nesse intervalo?
O calor do pânico subiu pelo meu peito. Isso parecia loucura.
Claro que eu lembraria se tivesse saído. Eu teria um motivo. Um destino. Mas, por mais que eu me forçasse a lembrar, minha mente se recusava a colaborar. Era como tentar enxergar algo através de um vidro embaçado.
Eu apertei as têmporas.
— Eu estava exausta. A cozinha estava um caos. Talvez eu tenha saído para tomar um ar?
Harper permaneceu em silêncio por um longo momento. Seus olhos me avaliavam, frios e calculistas.
— Você quer dizer que saiu exatamente no horário em que seu ex-namorado foi morto… e simplesmente não lembra para onde foi?
O jeito que ela falou fez parecer ridículo. E talvez fosse. Mas eu não estava mentindo. Eu não sabia, e não matei Liam.
Mas se até eu começava a duvidar da minha memória… o que os outros pensariam?
