dois
A rua estava deserta, iluminada pela luz amarela dos postes de luz. Ele começou a andar novamente, mas de repente a floresta ficou em silêncio e as cigarras pararam de cantar. Ele parou novamente, mas desta vez ele não se virou. Ele não sabia onde, mas parecia-lhe que alguém estava lá. Nem atrás dela nem na frente dela. Não em seus quadris e nem mesmo acima dela. No entanto, parecia-lhe que estava em todos os lugares que olhava.
Um medo estranho a manteve plantada ali, como se acelerar o passo a obrigasse a correr porque algo, ela não sabia o quê, começaria a persegui-la. Como um rato perseguido por um gato. Seu coração estava batendo em seu peito.
Ele fechou os olhos, respirou fundo e colocou um pé à frente. Depois o outro. E então, novamente, todo o caminho para casa. Ele fechou a porta atrás de si e girou a chave duas vezes. Ela se inclinou contra ele e deu um suspiro de alívio.
"Você é um tolo", ela tentou novamente, rindo de si mesma enquanto entrava no quarto.
Estava um sol particularmente quente naquele dia e as cigarras cantavam todas juntas, formando um coro alto, quase irritante. O céu estava claro, de um azul delicado, e o vento leve que soprava pelas plantas do jardim era uma mão sagrada, puxando-a para trás para recuperar o fôlego.
Com ela estava Matilde, uma colega de classe com quem Altea havia cursado o ensino médio. Os dois continuaram amigos íntimos. Matilde tinha uma grande fazenda; ou seja, a fazenda pertencia a seu pai. Ela, junto com seus irmãos, trabalhava lá todos os dias, produzindo leite, queijos de vaca e ovelha e carne. As mãos de Matilde, assim como as de Altea, não eram completamente lisas e muitas vezes e de boa vontade tinham alguma pequena ferida, mas tinham dedos longos e finos, delicados, como se arrastados pelas nuvens.
Naquele dia, Matilde trouxe para Altea meia roda de queijo semi-curado, seu favorito. Em troca, dava-lhe um cesto com uma mistura de produtos da sua horta, embora Matilde nunca quisesse nada em troca; ele quase teve que forçá-lo.
Matilde sempre ficou perto de Altea após a morte de seus pais. Às vezes ele ficava em casa com ela, mesmo em silêncio, às vezes trovejando com ela com fofocas às quais Altea nunca respondia, mas ela a ouvia, talvez um pouco casualmente, mas pelo menos os dias passavam. Eles costumavam sentar juntos na cama com prazer, lendo algum livro antigo que Altea havia jogado em seu quarto, aquele que pertenceu a seus pais. Os livros eram sempre os mesmos, mas, quando não tinham nada para fazer, os reliam com prazer. Matilde preparou o jantar para ela e também a ajudou a colocar o jardim em funcionamento, até que Altea resolveu o assunto com as próprias mãos arregaçando as mangas. Ela não pediu ajuda desde então e prometeu a si mesma que conseguiria sozinha.
Eu estava colhendo os últimos tomates da temporada. As plantas já estavam secas e amareladas e nos próximos dias ele teria que retirá-las para dar lugar a novas colheitas. O mesmo aconteceu com as berinjelas e as abobrinhas, enquanto as pimentas ainda se saíram bem.
- Então, você vem para a festa no sábado? - perguntou Matilde com o entusiasmo típico daquela época do ano.
- Acho que sim. Não tenho nada melhor para fazer - respondeu ele, enxugando a testa com as costas da mão. - A única coisa que me incomoda é a ideia de ver o Luciano. -
- Ouvi dizer que você ficou noivo. -
Altea ergueu uma sobrancelha em desgosto. - E quem é o pobre coitado? -
- Eu não sei o quão azarado pode ser. -
- Pelo dinheiro, você diz? -
Matilde concordou. Ela estava vestindo uma saia longa azul clara e uma blusa branca de manga curta por cima. Ela tinha cabelos loiros, com mechas mais escuras, e olhos castanhos claros, como chocolate ao leite. Ela era linda e cheia de curvas, e mesmo trabalhando duro, ela se preocupava muito com sua aparência e sempre tentava ser legal e arrumada.
- Ele pode ser um bandido viscoso, mas é bonito e rico. Muitas mulheres o cortejavam. -
Altea arrancou um tomateiro e o empilhou com outros. - Quanto tempo você acha que vai durar? Você sabe como Luciano é feito. Apesar de morar na cidade, rumores circulam. Ele muda uma mulher da noite para o dia, de qualquer maneira, então não vejo como ele pode esperar ter um relacionamento estável. -
- Altea - avisou Matilde, com um olhar de quem sabe mais que o diabo. - Você acha que mulheres desse tipo realmente se importam se Luciano as trai ou não? Quando você fica com um homem por dinheiro, você espera que ele namore outras mulheres. - .
- Não me olhe como se eu fosse ingênua. Eu sei - ela respondeu, magoada. - Só não entendo como você pode estar com uma pessoa só por dinheiro e concordar em dividir a cama com um homem que estava com outra na noite anterior. - .
Ela pegou o último punhado de tomates e levantou a cesta, colocando-a do lado direito e caminhando em direção à casa. Matilde agarrou um lado da cesta, então eles a carregaram juntos para o seu destino, e depois a colocaram sobre a mesa de madeira que Altea tinha dentro de seu armazém.
Ambos apertaram as mãos e Altea também os passou casualmente sobre a saia marrom com a qual estava trabalhando. Ela ergueu uma aba e a enfiou na cintura, deixando os joelhos nus. Muito quente.
Ela preparou a cesta para Matilde colocando nela uma mistura de salada, tomate, pimentão, pepino, etc.
- As pessoas fazem isso e muito mais por dinheiro, cara. -
- Prefiro minhas roupas de segunda mão e quebrar as costas em minha terra natal, antes de me casar com tal ser. -
- Eu também. -
Então eu tenho que esperar que ele não nos incomode esta noite, ela adivinhou.
- Acho que podemos ficar tranquilos, tanto nós quanto as outras meninas. -
"Ah," ele suspirou. - Então sim, estou feliz em ir à festa! -
"Também porque está lá a avó de Rosalina que faz rosquinhas fritas com açúcar", lembrou Matilde com entusiasmo.
Rosalina era amiga deles. Sua família era famosa pela boa comida, na verdade todos eram particularmente redondos em casa, inclusive Rosalina, que era roliça e de bochechas rosadas.
"Meu Deus", sussurrou Altea em êxtase. - Não posso esperar. Subo as escadas com o estômago vazio, só para me empanturrar de doces. -
Eles fofocaram um pouco mais sobre quem eles veriam esta noite. A festa sempre atraía poucas pessoas; Não muito, com certeza, mas o suficiente para ver um antigo namorado, um garoto por quem eles se apaixonaram, um amigo raramente visto, etc. Era um dia de festa em um país onde nada de emocionante acontecia, então, gostando ou não, até Altea tinha que admitir que estava ansiosa por isso.
Com a ajuda de Matilde, Altea amarrou a caixa atrás da cadeirinha da amiga.
"Parece estável para mim", comentou ele, sacudindo-o um pouco para ver se cederia.
- Agora vá tomar banho, arrume o cabelo e coloque aquela saia azul que você guarda para ocasiões especiais. -
- Mas eu sempre uso isso na festa. -
- Querida, eu sempre uso essa rosa também. São os únicos que temos - respondeu Matilde. Os dois amigos riram juntos, conscientemente.
- Ok, então te vejo em algumas horas na praça. -
- Lave o cabelo - Matilde gritou enquanto se afastava em sua bicicleta.
- Mas eu lavei há dois dias! - .
- Lave-os de qualquer maneira. Nunca se sabe, poderíamos conhecer o homem de nossas vidas. -
Desapareceu na curva, deixando uma poeira de sujeira flutuando no ar.
"O homem da vida", repetiu Altea cinicamente. - Quero ver se ele pode pegar uma pá. -
Como Matilde sugeriu, Altea vestiu sua longa saia azul naquela noite e combinou com uma camisa que deixava os braços nus, com decote bordado. Essa camisa pertencia à mãe de Altea. Quando seus pais faleceram, todos os seus pertences permaneceram em Altea. Não que houvesse muitos, é claro, mas o suficiente para deixá-la com lembranças. Altea lembrou que levou quase cinco meses para o perfume de sua mãe desaparecer completamente de suas roupas. Só então Altea decidiu começar a usá-los, também porque nunca os teria jogado fora e, de fato, eram bastante confortáveis para ela. As roupas de seu pai, por outro lado, ele havia doado para o centro de idosos da vila, ficando apenas um par de suéteres, uma jaqueta que usava no inverno para trabalhar no jardim quando fazia frio e uma camiseta. Na verdade, ele também havia deixado suas botas marrons cheias de sujeira.
Ela se olhou no velho espelho preso ao interior da porta do armário que tinha em seu quarto. Ela era bonita? Sua saia caiu perfeitamente, marcando sua cintura. Seu cabelo estava na altura dos ombros e alguns fios mais curtos emolduravam os lados de seu rosto. Ele não tinha truques em casa e certamente não podia comprá-los, mas para ser honesto, eles nunca se importavam. Com seu trabalho, ela certamente não tinha tempo para se maquiar. Ela não tinha jóias ou ornamentos para usar no pescoço ou nos pulsos. Havia apenas ela, em toda a sua autenticidade, e isso a fez sorrir. Toda vez que se olhava no espelho, Altea se reconhecia. Ele sabia quem era, e nem todos tinham esse privilégio.
Uma batida forte na porta a fez pular. Não esperava ninguém, nem mesmo Matilde, pois tinham marcado encontro na praça.
Ela se dirigiu para a porta com uma estranha ansiedade, a mesma ansiedade que tinha tomado conta dela algumas noites antes no caminho de volta da cidade. Ele abriu a porta apenas uma fresta e se inclinou para olhar além dela.
Matilde estava logo atrás, com sua saia rosa e uma blusa de manga comprida muito fina que deixava o peito nu.
- O que faz aqui? -
Interiormente, Altea deu um suspiro de alívio e ordenou a si mesma que parasse.
"Bem, amiga", explodiu Matilde, entrando na casa como um furacão. - Eu estava pronto, não queria esperar mais, nem chegar muito cedo. Você tem que desejá-la - ele explicou com uma piscadela.
Altea fechou a porta e a seguiu até a cozinha.
- Então pensei em passar por você e começarmos juntos. -
- Ok, mas antes de ir, tenho que arrumar as galinhas. -
Altea tinha cinco galinhas em um pequeno galinheiro que ela tinha logo atrás de sua casa. À tarde, ele os trancou em sua casa de madeira para protegê-los das raposas que já haviam matado um deles.
- Mas você não poderia ter feito isso antes de se vestir? -
- Matilde, vou esperar um segundo. Eu não tenho que rolar no chão, eu só tenho que fechar uma porta. -
Matilde cruzou os braços sobre o peito e descansou a bunda contra a mesa.
- Te espero aqui. Não tenho intenção de sujar minha saia. -
- Pelo menos você pode sair, então assim que eu fechá-los podemos começar, certo? -
- Hmm... Está tudo bem. -
Com seu andar vacilante, Matilde saiu de casa. Altea deixou a janela da cozinha entreaberta para deixar entrar um pouco de ar fresco. Sua casa foi estruturada em dois andares. No piso térreo ficava o armazém, um grande espaço onde guardava mantimentos, ferramentas de trabalho, etc. A parte habitável, por outro lado, ficava no andar superior, tornando praticamente impossível a entrada de qualquer pessoa: primeiro porque não havia pontos de apoio, mas apenas uma parede de pedras lisas. Segundo, porque mesmo que o fizessem, não encontrariam nada para roubar. Terceiro, porque a casa dele era muito isolada, então praticamente ninguém passava.
Com a porta da casa fechada e as galinhas fechadas, os dois amigos caminharam de braços dados em direção à praça, caminhando a passos largos e com água na boca só de pensar em comer os donuts da avó de Rosalina.
A praça estava apinhada de gente, e embora para alguns possa parecer pequena, para Matilde e Altea era mesmo muito. Claro, não havia muitos jovens, mas parecia que alguns jovens de países vizinhos também decidiram participar naquela noite.
Uma longa fileira de dosséis brancos se alinhava no lado leste da praça, e a magia aconteceu ali mesmo. Bombons, rosquinhas, pizzas recheadas doces ou salgadas, fritas, etc. Em uma extremidade da praça havia três artistas envolvidos em prestidigitação, danças circulares e coisas do gênero. Por outro lado, houve alguns banquetes improvisados de locais que aproveitaram para tentar vender artigos artesanais como cestos de vime, recipientes de madeira, pratos de porcelana.
Altea e Matilde correram em direção a Rosalina, que estava em um canto conversando com Giuliana, outra moça da cidade. Altea abraçou carinhosamente Rosalina. Sempre sentira grande ternura por aquela moça, que era de uma doçura incomparável.
