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"Não", ele suspirou. - Só estou pedindo que tome cuidado. E fique aqui enquanto vamos encontrar Dante. -
Althea sorriu. - Você pode colocar a mão no fogo sobre isso. Se você acha que estou perseguindo um vampiro centenário segurando nada além de uma estaca de madeira e uma garrafa de água benta, então você não me conhece muito bem. Aprendi minha lição lá embaixo. -
Ele desamarrou os braços das pernas e colocou os pés no chão.
- O que eu fiz... - As imagens passaram por sua mente até ela enlouquecer. Por um momento ele fechou os olhos. - O que fiz foi apenas proteger as pessoas que amo. Mas se você é um caçador e pensa que junto com Damiano você pode encontrá-lo e matá-lo, eu me afastarei com prazer. -
Luigi pareceu surpreso. "Não sei por quê", disse ele, "mas achei que você gostaria de se juntar à briga."
- Definitivamente não. -
Luigi franziu o cenho. - O que você quer dizer com não assim? -
Altea olhou para sua amiga e enquanto seus olhos viam Luigi, sua mente via sangue e carne, seus ouvidos ouviam as batidas na porta, o som de ossos quebrando, carne rasgando. Seu nariz sentiu o fedor da morte.
Aquele terror ainda corria em suas veias.
Ele ergueu o queixo.
- Você pode me treinar? -
Luigi olhou para Altea primeiro com surpresa, depois com incerteza.
- Não quero mais ter medo, Luigi. Quero dormir sabendo que posso me defender. -
- O medo nunca te abandona, Altea. Eu também tenho medo. Todo o tempo. -
- E como você encara isso? -
- Eu transformo isso em raiva. Como você fez naquelas masmorras. -
Althea concordou. Ele conhecia bem o sentimento.
- Tem certeza? Eu pergunto . - O treinamento é difícil. Você não vai mais distinguir entre sangue e suor. Eu não vou te dar descanso. Se você quer saber como se defender, é preciso suar, chorar e rezar para que isso acabe. Mesmo assim, não vou parar. Não serão permitidas desculpas ou pausas entre um exercício e outro. - Um descanso. - Nem todos podem passar no treinamento para se tornar um caçador. -
Altea pesou suas palavras. Ele teria que continuar trabalhando, ter sua vida de volta. Seu trabalho era exaustivo, mas agora que ela não estava mais cuidando de Sofia, talvez ela pudesse encontrar algum tempo.
Ele olhou para Luigi, cujo rosto já mostrava um sorriso satisfeito.
Altea revirou os olhos. - Acho que também é inútil responder a você neste momento. -
Ele estava fazendo exatamente o que tinha feito naquela noite na casa dela, quando queria ser jogado da ponte com ele. Luigi sabia muito bem que para convencer Altea a fazer algo, bastava fazer uma coisa. Diga a ele que talvez ele não consiga. Belisque seu orgulho.
"Não sinta o gosto disso", Altea repreendeu.
"Você é quem me dá esse poder", respondeu ele, levantando as mãos, com um olhar inocente.
Altea teria jogado o copo nele de bom grado, mas ela se conteve e depois de tantos dias, ela finalmente sorriu novamente.
- Quando começamos? -
Luigi deu de ombros. - Imediatamente, claro. -
Na verdade, eles não começaram imediatamente.
Altea ainda tinha que ir ver Rosalina, e depois de recuperar as forças e receber o devido incentivo de Luigi, ela pegou sua bicicleta, que Damiano gentilmente a levou, e se dirigiu para a casa de sua amiga.
Seu peito se apertou ao vê-la na cadeira de rodas, mas ela segurou as lágrimas e abraçou a amiga.
Aparentemente, Rosalina sabia que tinha ido à cidade fazer compras e que, em um momento de desatenção, um carro a atingiu. Nada mais do que isso.
Pouco depois, Giuliana também chegou. Ao vê-la, Altea voltou para quem vive, observou-a, conferiu seu olhar, seus movimentos, suas expressões.
Era sua amiga. Ele não estava mais sob a influência de Dante. Por agora.
Giuliana não se lembrava de nada incomum daquele dia. Ele era como tantos outros. Ele foi trabalhar, desligou e voltou para casa. Obviamente Altea não lhe perguntou nada sobre isso, para não levantar suspeitas, mas o fato de Giuliana não ter mencionado naquele dia era bastante abrangente.
Rosalina, como Matilde lhe dissera, havia começado a reabilitação e talvez voltasse a andar.
Saindo de casa, Altea se escondeu atrás de uma árvore, chorando, sentindo-se indigna do carinho daquelas pessoas, pensando que tudo era culpa dela.
Uma mão agarrou seu pulso e a puxou para cima.
Matilde, à sua frente, olhava-a com apreensão e... raiva.
- Fala. Com. I.- tinha pronunciado, palavra por palavra.
Altea bufou e enxugou as lágrimas com as costas da mão.
- Eu... -
- Altea, não me diga que é só para Rosalina porque não acredito – trovejou. - Pare de falar bobagem. Você está trancado em casa há um mês, você se transformou em um esqueleto, você está branco como um cadáver. -
Matilde certamente não se perdoou.
- Diga-me o que você tem. Peço. -
Altea se apoiou na árvore. Ela podia sentir o latido áspero mesmo através de seu vestido. Pequenos raios de luz entravam pela folhagem das árvores e os pássaros cantavam, prontos para inundar os céus azuis da primavera.
- É complicado. -
Matilde bufou e depois riu. - Não tenho dúvidas. Ele pegou as mãos dela e inclinou a cabeça ligeiramente para olhar para ela. Seus cachos loiros caíram para um lado, seus olhos pareciam mudar de cor dependendo dos raios do sol que os atingiam. Primeiro azul, depois verde, depois uma mistura das duas cores. - Diga-me de qualquer maneira. -
Talvez devesse algumas explicações a Matilde. Ele era como uma irmã para ela. E talvez contar a ela servisse para avisá-la. Para protegê-la. Não lhe contaria sobre Rosalina e Giuliana. Ele não teve coragem. Mas ela poderia dizer a ele que havia criaturas aterrorizantes, como Dante, e belas e boas criaturas, como Dam. Ela poderia explicar a situação para ele em termos gerais.
Ele poderia?
Damiano ficaria bravo? Eu deveria também ter contado a ele sobre Luigi e sua família?
Matilde esperou que a amiga lhe dissesse alguma coisa, paciente, determinada. Altea nunca teria partido se ele não tivesse dito nada a ela. Ele a conhecia muito bem. Ele poderia ter ficado lá a noite toda.
Finalmente, ele marcou um encontro com ela em sua casa. naquela mesma noite
"Não sei se é uma boa ideia", disse Luigi.
Damiano estava parado em frente ao fogo. Ele deu-lhes os ombros, que eram largos e envoltos em uma camisa azul de manga curta. Era a primeira vez que ela não o via vestido completamente de preto, e ela tinha que admitir que aquela cor combinava muito com ele. Ele tinha um braço cruzado em torno de suas costelas e o cotovelo do outro braço apoiado nele, sua mão direita tocando seu queixo e lábios lenta e pensativamente.
Luigi educadamente sentou-se à mesa.
Altea se viu sorrindo ao pensar que a cozinha de seus pais havia se tornado um ponto de encontro para criaturas mágicas e caçadores. Quem sabe o que sua mãe teria dito!
"Não posso continuar mentindo", disse Altea.
"Contar tudo a ela a colocaria no meio de tudo isso", disse Luigi, movendo a mão em uma direção circular, como se estivesse indicando todos eles.
"Você já está no meio de tudo isso", respondeu Altea imitando zombeteiramente seu gesto. - Se você ainda não percebeu, Rosalina está em uma cadeira de rodas. -
"Eu sei," Luigi respondeu duramente. - Mas essa coisa é muito maior que você, Altea. Quando se trata da existência de... vampiros, bruxas, caçadores... sua vida muda para sempre. Poderíamos matar Dante e Matilde nunca saberia disso, e sua vida continuaria normalmente. -
A ênfase que ele colocou na última palavra fez Altea entender o quanto a vida de Luigi pesava em seus ombros. Como ele estava cansado.
"Ele pode chegar até ela antes que você possa matá-lo", respondeu Altea.
- E você acha que saber disso mudaria alguma coisa? Ele provavelmente a subjugaria como fez com Rosalina e Giuliana e aquele padre e agora saber ou não saber não mudaria nada. -
Eles ficaram em silêncio por um momento, cada um perdido em seus próprios pensamentos. O que Luigi disse estava correto. Toda a razão. Mas Altea viveu no escuro sobre tudo isso por muito tempo.
Sua vida tinha sido nada mais do que casa e trabalho, sempre em seu país, alheia ao mundo que a esperava lá fora. E talvez, se ele soubesse, ele poderia ter se preparado melhor. Estar pronto. Tome as devidas precauções.
- Treiná-la com Altea. -
A voz de Damiano veio profunda e envolvente, como se saísse do fundo de uma caverna. Quando ele se virou para eles, seus olhos estavam afiados, sua testa franzida com o pensamento.
Luigi estalou a língua. - Eu não posso treinar todas as pessoas só porque existem pessoas como você. -
O tom acusatório e desdenhoso que usou deixou Altea bastante nervosa.
- Ela não é digna de fazer parte do seu círculo de assassinos? Damiano perguntou então, o rosto sério, impassível, os braços cruzados sobre o peito.
O olhar de Luigi ficou mais amargo a cada segundo.
- Não somos um grupo de elite. Mas temos nossos segredos e não podemos exibi-los dos telhados, caso contrário não seríamos mais capazes de proteger a nós mesmos e a pessoas inocentes de você. -
A boca de Damiano se curvou em um sorriso mal insinuado.
Altea foi abrir a janela porque de repente não havia ar. A magia parecia subir como fumaça da pele de Damiano, sua língua formigando, como se pudesse saboreá-la.
Foi um aviso. para Luís. Que parecia entender perfeitamente o significado, mas não recuou. Pelo contrário.
Ele se levantou, raspando a cadeira no chão.
- Por que você não a transforma em uma vampira? -
Quase um mimoso chegou a Altea. Os olhos de Damiano tornaram-se assassinos.
"Isso seria forte, ele realmente poderia se defender", brincou Luigi.
"Eu não sou seu inimigo", sussurrou Damiano, como se tentasse conter sua raiva.
- Não - zombou Luigi. - Mas toda essa situação surgiu por sua causa. -
- Luís! - Altea o repreendeu. - Chega dessa história! -
- Não sou responsável pelas ações dos outros. -
"Não, mas Altea matou um homem e ela fez isso por você, e você não pode mudar isso", ela o acusou.
"Eu não matei Luciano por Damiano", respondeu Altea, mas Luigi não parecia mais vê-la.
Os dois homens se entreolharam, a tensão estava no teto e Altea se sentia tão pequena.
- Para isso você tem que treinar Matilde. e Alteia. Faça deles guerreiros. Prepare-os para pessoas como eu. -
"Vocês não são pessoas", criticou.
Damiano parecia aguentar todos os golpes, aceitar todos os ódios e insultos de seu oponente imóvel e escultural. A impressão que Altea tinha era que ela estava tentando manter uma atitude - também porque um dos dois tinha que fazer - e ser o mais razoável possível. Coloque-se no lugar de Luigi.
Damiano pesou o adversário, olhou-o nos olhos, embora na realidade parecesse estar olhando muito mais fundo dentro dele, para encontrar aquela abertura por onde um pouco de luz pudesse se infiltrar.
"Alguns de nós não escolhem ser assim", disse ele depois de um tempo. - Não fui transformado por minha escolha e não posso reprimir meu instinto, meu desejo de sangue. Eu não tenho que prestar contas a você por quem eu sou, mas você pode fazer alguma coisa. -
Luigi mordeu o lábio nervosamente. - Você a treina. -
- Não conheço suas técnicas de treinamento, seus pós mágicos. Eu não sei nada sobre isso, e acho que é por isso que vocês caçadores ainda estão vivos, não é? Se nós vampiros aprendêssemos como vocês se protegem de nós, levaria um momento para acabar com suas vidas. -
Luigi o ouvia, estranhamente silencioso.
- Você pode torná-los fortes, você pode prepará-los, eles podem se defender. Se você não é um grupo de elite, então você não tem motivos para não aceitar. -
Luigi afundou pesadamente em sua cadeira depois de segurar uma série de palavrões com dificuldade óbvia. Ele passou a mão sobre o rosto, em seguida, deixou cair ao seu lado.
- Não posso treinar pessoas que não terminam os testes. Não posso arriscar revelar meus segredos. -
- Tenho certeza que Matilde vai conseguir. Ela é mais dura que eu, muito mais dura - disse Altea.
Aquele ar pesado e aquela tensão pareceram diminuir lentamente, e Altea voltou a respirar regularmente.
Luigi olhou para ela. - Matilde não viu o que você viu. Não sabemos quanto tempo pode durar. -
- Por que você já presenciou tortura ou estragos de qualquer tipo quando começou a treinar? -
- Venho de uma família de caçadores, Altea. Eu não tive escolha. Era o meu destino. -
"Também pode ser o destino de Matilda", disse Damiano. Então ele inclinou a cabeça imperceptivelmente para o lado. - Decida-se rapidamente, caçador. Esta vindo. -
Quando Damiano abriu a porta da casa para Matilde, ao vê-lo ficou estupefato.
"Olá," ele disse timidamente.
Damiano se apresentou e a cumprimentou galantemente, fazendo o gesto do beijo na mão. Altea torceu a boca pensando que o jeito que ele havia reservado para ela certamente não tinha sido tão galante e gentil.
Ao encontrar Luigi na casa, ficou ainda mais surpreso, então se aproximou de Altea e a pegou pelo braço, e enquanto olhava para os dois homens à sua frente, especialmente Damiano, agora mais com a malícia de sempre que a caracterizava do que com timidez. , sussurrar:
- O que está acontecendo? -
Altea apertou a mão da amiga com a mão livre, sem soltar o braço, mas antes de falar olhou para Luigi, esperando seu assentimento ou negação, algo que a fez entender o que podia ou não dizer.
Luigi deu de ombros com um olhar sombrio.
Certamente não era uma resposta muito completa.
Na dúvida, Altea se concentrou em Damiano e começou a explicar quem era aquele homem. Matilde obviamente não se lembrava de tê-lo visto antes, já que Damiano havia apagado aquela pequena memória meses antes.
"Você me pediu para dizer a verdade", ele começou, e Matilde assentiu com determinação.
- Este é Damien. Já nos conhecemos há algum tempo. Mais ou menos do fim da festa de verão. Não vou parar em como nos conhecemos, porque tudo seria muito... complicado – explicou. - O que você precisa saber sobre Damiano é que... -
Como ela poderia dizer a sua amiga que Damiano era um vampiro sem parecer louca? Matilde era uma garota como ela, criada em uma cidade pequena, sem nunca ter visto o mundo. Talvez ele não acreditasse nela, talvez pensasse que estava tirando sarro dela.
Altea afastou esses pensamentos enquanto se manifestavam em sua cabeça. Não era justo supor que Matilde não acreditaria nele. Eles vieram do mesmo lugar, eles tinham a mesma história. Dois jovens que nunca tinham visto o mundo, que sonhavam em viajar, em aventuras, em amar loucamente. Matilde, mais do que ela, era imprudente, amava a vida, uma faísca brilhou nela.
Se havia alguém que podia acreditar em toda essa história, era sua melhor amiga.
- O que? perguntou Matilde.
"Um vampiro," Luigi trovejou.
Matilde olhou para Luigi e riu e riu, dando a Altea um ombro amigo. Só quando percebeu que não havia mais ninguém rindo é que ficou séria e olhou para a amiga, depois para Damiano.
Quem sorriu para ele.
- Você é um vampiro? -
