Capítulo 3
Fabiane
Desperto do transe que me acometeu e ando rapidamente sumindo por trás da cortina que separa os bastidores da visão de todos da plateia.
─ Será que ele me reconheceu, meu Deus?! ─ Sussurro colocando as mãos sobre o peito respirando irregularmente.
Ando tropegamente até o camarim ainda em estado de choque com o fato de dar de cara com o pai de uma das minhas alunas aqui na boate, isso nunca aconteceu comigo antes, mas quando comecei a dançar na boate tinha plena noção de que algum dia poderia passar por esse tipo de situação, só não imaginei que seria justamente com Fernando, o homem que povoa minha mente desde o momento em que pus meus olhos, pela primeira vez, sobre ele.
Sigo até o biombo com a intenção de trocar de roupa rapidamente com o intuito de ir logo embora. Já devidamente vestida, saio logo em seguida para pegar meu carro que fica estacionado num beco por trás da boate, pego uma saída escondida que só é utilizado pelo pessoal que trabalha na boate, porque é uma passagem discreta, mas, principalmente, pelo fato de ser longe do salão principal e de todos os homens que o frequenta.
Não vou dizer que todo assédio que sofro não me envaidece ou me deixa lisonjeada, mas essa mesma fama também já me causou muitos problemas. Uma vez cometi o erro de me envolver com um cliente da boate, um homem muito atraente, sensual e muito atencioso também, mas no momento em que começamos a namorar ele se tornou muito possessivo e ciumento ao extremo, tivemos várias brigas por causa da dança, porém a situação complicou quando resolvi terminar tudo com ele. O cara ficou louco, ele me perseguia aonde quer que eu fosse, inclusive na escola em que lecionava na época, ele teve a audácia de expor minha vida, a que eu tinha fora dos portões da escola, para diretora que imediatamente me demitiu achando que eu era garota de programa, coisa que jamais fui, danço em uma boate de strip-tease, sim, mas jamais me prostitui, amo subir no palco, executar a coreografia de cada número que ensaio com afinco, mas não passa disso, e se me envolvi com algum homem em minha vida foi por desejo e vontade e não porque ele estava pagando.
Foi muito difícil me livrar do André, meu ex namorado obsessivo, o denunciei e obtive uma medida protetiva contra o lunático, e que graças a Deus surtiu efeito e serviu para que ele me deixasse finalmente em paz.
Tendo o cuidado de colocar o casaco com o capuz cobrindo minha cabeça, já que me desfiz da Star, aperto o casaco sobre o corpo e saio para a brisa fria da madrugada, entro no beco caminhando rapidamente até meu veículo, um Fiat Mobi branco, entro no automóvel me sentindo mais segura ao me abrigar no interior dele, respiro fundo e ligo o motor guiando o carro para fora do beco, aceno para o segurança que sempre fica de prontidão na entrada do beco a fim de proteger todos os funcionários da boate que saem por aqui, mas mais especificamente as garotas que trabalham nela e que são bastante assediadas, não só as dançarinas, mas as garçonetes, bartenders entre outras, por isso a segurança dos funcionários é algo primordial para o dono da Red Danceteria. Dou a seta para entrar à esquerda e aguardo um carro passar para fazer a curva, mas antes de girar o volante olho para o movimento em frente a boate e me deparo com a imagem de Fernando e os homens que estava na mesa junto com ele, todos conversam animadamente, no entanto ao olhar a figura dele, de Fernando, vejo- o retraído, com uma ar de tristeza e um sorriso que não chega aos olhos, igualmente como a sua filha, a Helena, ela é uma menininha linda e doce, mas é calada demais para a sua idade, introspectiva e sem toda a alegria que uma criança deva ter. Não sei o que aconteceu na vida deles para que a tristeza tome conta dos dois, só sei que ninguém merece viver em uma tristeza tão profunda que chega ao ponto de saltar aos olhos de quem os olhar com mais atenção.
Manobro e sigo o caminho em direção a minha casa, prometendo a mim mesma tentar me aproximar mais da menininha linda de olhos tristonhos.
─ Isso se você ainda tiver um emprego para o qual voltar amanhã, Fabi. ─ Murmuro pedindo a Deus que isso não aconteça e que Fernando Monteiro não tenha me reconhecido.
***
Na tarde do dia seguinte fecho a porta do carro travando-o, arrumo a roupa no lugar para tentar acalmar o nervosismo e sigo para dentro da escola.
Aceno para o seu João, o porteiro do colégio, recebendo um tchau e um sorriso em resposta assim que passo por ele, subo os degraus e me dirijo direto para a sala dos professores para bater o ponto, ao fazer isso me encaminho até o meu armário para pegar o material da aula de hoje que deixei pronto, porém sou interrompida pela secretária da diretora que me informa que estou sendo chamada por ela, assinto e vou seguindo dona Gertrudes até a sala que fica anexa a sala dos professores. Assim que sou anunciada, vou adentrando o ambiente, no entanto, paro no lugar ao perceber quem está ao lado da diretora: Fernando Monteiro. Começo a tremer de nervosismo já prevendo o que fez com que a diretora Carmen me chame em sua sala, já que para ela ter pontualidade em começar a dar as aulas é algo primordial.
Reajo terminando de completar a distância que faltava para que entrasse completamente no ambiente.
─ Bom tarde para todos. A senhora mandou me chamar, diretora Carmen?
─ Mandei sim, Professora Fabiane. Sente-se, por favor. ─ Aceno sentando-me na cadeira ao lado do Fernando, seu perfume imediatamente invade minhas narinas me fazendo arfar em deleite. ─ A senhorita já conhece o senhor Fernando Monteiro, professora?
─ Sim, diretora, nos conhecemos ontem quando ele veio buscar a Helena. ─ Viro-me para ele a fim de ser educada e cumprimentá-lo. ─ Como vai senhor Monteiro?
Quando seus olhos cor de mel recaem sobre mim todo meu corpo estremece com o olhar forte completando todo seu porte másculo e viril. Fernando Monteiro é um homem que aparenta ter uma personalidade forte, isto é inegável pela postura que ele está neste exato momento, dá para ver que ele não está confortável com a situação, mas mesmo assim se propõe a prosseguir com o que quer que tenha vindo fazer aqui. Só espero que não seja pedir a minha cabeça para diretora Carmen por ter me descoberto ontem à noite. Penso enquanto espero que ele termine a avaliação que está fazendo de mim nesse momento, inclusive erguendo uma sobrancelha especulativa a minha forma de vestir.
─ Eu vou bem, professora. ─ Responde sucintamente virando-se para frente.
─ Professora, creio que deva estar se perguntando o por que de tê-la chamado aqui antes da aula, não é mesmo?
─ Na verdade, estou sim senhora.
A diretora levanta-se ficando de pé atrás de sua mesa e encarando a nós dois com interesse.
─ Bem o senhor Fernando me pediu para chamá-la a fim de lhe informar a respeito de alguns problemas pela qual a pequena Helena está passando e por isso ele me pediu para conversar pessoalmente com a senhorita, por este motivo vou deixá-los a sós para que possam conversar mais a vontade. ─ Alívio cai em mim por descobrir que o motivo de ter sido chamada não tem nada haver com meu outro emprego secreto. ─ Vou tomar conta da sua sala, professora enquanto os dois conversam.
─ Obrigada, diretora. ─ Ela acena e se vai imediatamente deixando nós dois na sala em um silêncio mortal.
Alguns segundos se passam até que ele tenha algum tipo de reação. Fernando levanta-se indo até a enorme janela que fica atrás da mesa da diretora, coloca as mãos nos bolso da calça social que está vestindo e que faz conjunto com seu terno de aspecto caríssimo. Sem se virar em minha direção ele dá inicio ao assunto que o trouxe até aqui.
─ É bastante difícil expor esse assunto para estranhos, mas entendo que a senhorita como professora da minha filha deva estar ciente de tudo o que acontece com Helena para poder ajudá-la quando necessário. ─ Confesso que fiquei um pouco magoada com o tom um pouco mordaz que ele usou para dar início a conversa, mas não exprimo qualquer tipo de reação preferindo aguardar o que ele tem a dizer.
Fernando respira fundo e dá continuidade a sua narrativa.
─ Minha esposa, Beatriz sempre foi uma excelente motorista e para ela a melhor hora do dia era quando ia pegar a Helena na escola, Bea poderia estar no compromisso mais importante do mundo que mesmo assim dava um jeito de estar lá no horário certo para pegar nossa pequena no colégio. ─ Não me foge a forma como ele se refere a esposa no passado. ─ Beatriz sempre dizia que essa era a hora em que ela e nossa filha se conectavam mais, pois vinham brincando e cantando todo o trajeto até em casa. Mas numa quarta-feira há dois anos, não foi tão divertido o retorno para casa, pois nesse dia Bea percebeu uma moto a seguindo desde o momento em que saiu do colégio com a Helena, ela tentou despistar, sem sucesso, os caras que a seguiam e num sinal tentaram fechá-la mais Beatriz não permitiu e assim começou uma perseguição que foi traumática para ela e mais ainda para nossa filha, no entanto, minha esposa sabia que se tratavam de assaltantes e que pela maneira como estavam agindo tudo indicava que eles estavam dispostos a tudo, como Helena era tudo para Bea, ela tentou ao máximo escapar dos bandidos e quase conseguiu o feito se, sem perceber por causa da adrenalina da fuga, ela não tivesse cruzado um sinal vermelho o que fez com que um outro carro colidisse com o dela.
─ Deus! ─ Sussurro chocada ao colocar a mão na boca por causa do seu relato. Ele continua parecendo estar em transe.
─ O impacto da batina não as matou, mas deixou minha esposa muito machucada e Helena viu sua mãe agonizar por minutos antes de falecer em sua frente. Por isso, desde esse dia, Helena tem sido uma criança introspectiva e calada. Eu já fiz de tudo para que ela melhorasse, levei a vários especialistas, mas nenhum deles surtiram efeito. Na última escola em que Helena estudou eles não souberam lidar muito bem com o jeito da minha filha então decidi tirá-la de lá, foi me recomendado esta escola como a melhor do Estado do Rio e por isso a matriculei aqui, no entanto decidi vir pessoalmente esclarecer com a diretora e com a senhorita toda a situação pela qual minha filha passou a fim de que vocês saibam lidar melhor com ela do que a antiga escola.
Fernando dá um suspiro pesado e volta-se para mim com a expressão pesada como se toda a dor que esconde o tornasse mais velho do que na verdade é.
─ Compreende o motivo de ter vindo aqui hoje professora Fabiane?
Limpo a garganta a fim de tentar disfarçar o pesar e a tristeza que sinto tanto daquela garotinha linda que tocou meu coração desde o momento em que pus meus olhos sobre ela como deste homem que parece uma muralha a minha frente, mas que mesmo assim não consegue disfarçar a dor que carrega dentro de si.
─ Compreendo perfeitamente senhor Monteiro e lhe garanto que sua filha será muito bem tratada aqui nesta instituição, eu lhe garanto isso pessoalmente. ─ Digo com convicção por que sei que de agora em diante farei de tudo para me tornar amiga da menininha de olhos tristes. Sinto no fundo da minha alma que a garotinha morena e triste se tornará alguém muito especial para mim, de agora em diante.
