Capítulo 2
Fernando
─ Cara me livra dessa ─ Resmungo implorando a Deus que o Carlos desista dessa ideia louca de me arrastar para uma boate.
─ Sem chances, Nando. Hoje nós vamos a essa boate sim, quer você queira ou não. Chega desse luto, cara. Sei que você era e ainda é muito apaixonado pela Beatriz, mas irmão, já está na hora de você tentar seguir em frente, ela não iria querer que você se afundasse em tristeza, como está fazendo agora, além do mais a Helena precisa que o pai dela esteja feliz também.
─ Não coloque minha filha nessa sua tentativa esdrúxula de convencimento para que eu aceite esse convite estapafúrdio, e eu, sinceramente, não acho que entrar em um clube para ver mulheres nuas balançando seus corpos para que homens enlouquecidos babem como animais no cio sobre elas, seja uma boa ideia de diversão, quiçá de felicidade, Carlos. ─ Esbravejo me acomodando ainda mais no encosto da cadeira.
Pressenti que o dia de hoje iria ser difícil a partir do momento que pisei os pés fora da cama esta manhã. Primeiro foi o despertador que por algum motivo, ao qual ainda vou descobrir, não tocou e como resultado acordei meia hora atrasado. E quando acordamos atrasados passamos o dia inteirinho tentando correr atrás do relógio. Porém a coisa foi piorando no decorrer do dia, pois minha primeira reunião, a qual cheguei com 15 minutos de atraso, foi interrompida por uma falha no sistema de videoconferência, daí por diante foi problemas atrás de problemas para resolver e quando dei por findado meu dia de trabalho, eis que entra Carlos, meu amigo e sócio na empresa de software, com a proposta mirabolante de irmos para essa boate de strip-tease confesso que tudo que quis fazer na mesma hora em que escutei a ideia brilhante dele foi inventar qualquer desculpa e sair correndo, qualquer coisa para me livrar dele serviria, algo como: mentir que estava ficando doente, que minha filha ou minha mãe estavam doentes e eu precisava ir urgentemente para casa a fim de dar assistência a elas, no entanto, mesmo querendo escapar dessa roubada, não conseguiria mentir para ele dessa forma tão leviana. Rodrigo e eu somos amigos de longa data e apesar de sermos completamente diferentes em vários aspectos, ainda assim somos como irmãos e eu jamais mentiria dessa forma descarada para ele.
─ Entendo que para você é radical demais ir em um ambiente como esse, Nando, mas pensa bem cara, vai estar todo mundo lá. O Henrique já confirmou presença, e olha que pra fazer o Henrique sair de casa é quase que um milagre, mas mesmo assim ele vai, o Bruno também vai, Marcos, Douglas e obviamente o Murilo, já que ele é o aniversariante. Meu seria uma tremenda sacanagem da sua parte não ir e fazer uma desfeita dessas com nossos amigos, principalmente com o Murilo que foi padrinho do seu casamento. ─ O chantageador de merda sabe que me venceu com esse argumento, por isso o maldito da um sorrisinho de triunfo para meu lado, recostando-se na cadeira de frente para mim, do outro lado da mesa.
─ Cara, você escolheu a profissão errada, sabia? ─ O infeliz tem a audácia de aumentar o tamanho do sorrisinho cínico estampado no rosto.
─ Jura? E posso saber qual seria a profissão adequada para seu amigo e sócio? ─ Questiona ainda sustentando o ar de superioridade.
─ De advogado do diabo. ─ Carlos dá uma gargalhada com a minha resposta.
─ Cara você pode ser um chato, até ranzinza às vezes, mas ninguém pode dizer que você não tem bom humor. ─ Ele deixa escapar em meio a gargalhada.
─ Se o senhor já terminou de rir da minha cara, será que eu poderia ir pegar minha filha na escola, senhor Oliveira? ─ Questiono depois de checar as horas em meu Rolex, constatando que estou atrasado novamente. Bufo já me levantando e pegando meu paletó pendurado no encosto da cadeira.
─ Claro que sim, senhor Monteiro, mas antes gostaria de ouvir sua resposta ao meu convite, é claro. ─ Carlos levanta-se me acompanhando até a saída.
─ Você já pode ir, Adriana. ─ Aviso para minha secretária assim que passo em frente a sua mesa.
─ Está bem, senhor Monteiro. Até amanhã então.
─ Até amanhã.
─ Até, Dri. ─ Carlos sorri para minha secretária cheio de charme, fazendo com que se derreta toda ao ouvir o apelidinho infame com o qual ele a trata.
Adriana é uma mulher atraente, morena, com cabelos castanhos na altura dos ombros, com trinta e oito anos. Ela trabalha para mim desde a fundação da empresa, mas apesar de suas tentativas de me chamar atenção depois que fiquei viúvo há uns dois anos confesso que nunca tinha prestado atenção nela como mulher, na verdade eu não a notava ou qualquer outra, porque simplesmente só tinha olhos para Beatriz. E quando ela morreu tive que me segurar para não entrar em desespero, fui forte por minha filha, mas confesso que quando a Bea morreu, ela levou consigo meu coração.
─ Então, Dr. Fernando Monteiro, qual é a sua resposta? Hum? ─ Sou interpelado por meu amigo assim que paramos em frente ao elevador.
Aperto o botão para chamar a caixa metálica e viro em direção ao Carlos.
─ Você já sabe muito bem qual é a minha resposta, não se faça de desentendido, Carlos.
─ E qual seria...? ─ Reviro os olhos sem paciência, primeiramente com o elevador que não chega, segundo com meu amigo.
─ Não ficou óbvio que a resposta é um sim? ─ Questiono erguendo um sobrancelha.
─ É assim que se fala, irmão. ─ Ele dá uma batidinha em meu ombro e segue pelo corredor em direção a sua sala. ─ Te espero lá as nove. ─ Anuncia antes de virar a esquina no exato momento em que o elevador se abre.
Entro nele balançando a cabeça em negativa, mas sem tirar o sorriso idiota da cara.
─ Aonde fui me meter, Senhor? ─ Passo uma mão pelo rosto, mas ao descer o braço olho o relógio em meu pulso de relance constatando que estou extremamente atrasado para pegar Helena na escola.
─ Que dia! ─ Esbravejo olhando as portas se fecharem.
***
─ Gostou da nova escola, princesa? ─ Desvio um pouco a atenção da estrada para olhar para minha filha.
Espero pela sua resposta que não vem. Sempre achei Helena uma criança introvertida, calada e muito tímida, no entanto, após a morte da sua mãe percebi que minha pequena ficou cada vez mais calada e quieta. Levei minha filha em vários especialistas, mas sem sucesso, por isso decidi parar as terapias por sentir que ao invés de melhorar a cada nova sessão Helena ficava mais fechada.
─ Então, princesa, gostou ou não?
─ Sim, papai. ─ Sua reposta não é nada mais do que um sussurro.
─ E dos seus coleguinhas novos gostou também? ─ Continuo com a conversa a fim de fazê-la falar mais, se comunicar e expressar seus sentimentos
Olho para ela novamente a tempo de vê-la assentir. Continuo com a especulação.
─ E da sua professora? Gostou dela? Como é mesmo o nome dela...?
─ Fabiane. ─ Fico surpreso ao ouvir a resposta dela, principalmente, pelo fato da resposta ter vindo espontaneamente sem que fosse preciso instigá-la a falar.
─ Fabiane é o nome da sua professora? É isso? ─ Ela assente mais uma vez voltando para seu estado normal.
─ Fabiane... ─ Testo o nome em meus lábios.
A nova professora da minha filha é muito bonita, apesar das roupas sérias demais, ainda assim sua beleza se sobressaí a toda aquela sobriedade. Confesso que fiquei bastante admirado ao vê-la segurando a mão da minha filha, tendo em vista que Helena não permite que ninguém a toque, principalmente estranhos, vê-la tão à vontade, assim com outra pessoa, interagindo tão rapidamente, já que com seus próprios familiares ela é calada e retraída. Tudo bem que não a vi sorrir ou conversar, como as outras crianças estavam fazendo, mas a vi assentir em resposta a uma provável pergunta que a professora estava fazendo a ela, coisa que é muito rara de vê-la fazer com estranhos.
Continuo o trajeto para casa perdido em pensamentos.
***
Observo o ambiente atentamente, um pouco desconfiado, porém confesso que a boate não chega nem perto daquilo que imaginei. Apesar de ser um ambiente onde mulheres ficam seminuas o lugar é bem decorado, com clientes bem vestidos, indicando que são pessoas de poder aquisitivo alto, além disso as garotas são lindíssimas, isso não posso negar.
Caminhamos por entre as mesas até parar em frente a uma que está localizada bem diante do grande palco com um bastão de pole dance no meio dele. Nós nos acomodamos em meio a uma algazarra tipicamente masculina. Fazemos nossos pedidos a uma garçonete peituda e insinuante com a qual Carlos flerta descaradamente.
─ Muda essa cara, Nando! Aproveita minha festa de aniversário, cara! Daqui a pouco o espetáculo realmente vai começar. ─ Murilo fala todo animado.
Não sei o que ele quis dizer com isso, mas não demora muito para que eu descubra, pois as luzes do salão abaixam e na mesma hora os holofotes são ligados, mirando o palco bem a nossa frente. Vejo a empolgação de todos os homens no ambiente, inclusive dos meus amigos, que parecem bastante animados olhando para o palco.
─ Cara ela é muito gostosa, você vai ver. ─ Sussurra o Henrique ao meu lado.
─ Ela quem? ─ Pergunto sem entender a quem eles se referem.
─ A Star.
Assim que o Douglas responde minha pergunta a batida sensual de uma música ecoa pelo ambiente, mas a atenção de todos recaí sobre a mulher de corpo curvilíneo que surge andando de maneira sexy. Olho ao redor e constato que todos os outros homens estão embasbacados, admirados pela mulher que desfila em nossa frente fazendo seu numero de dança que, sem sombra de dúvida, é a dança mais sensual que já vi em minha vida.
Assim como os outros, não consigo desviar meus olhos da deusa que gira e gira no pole dance mostrando desenvoltura e habilidade, indicando que já fez isso muitas vezes. Observo cada gesto dela embasbacado com toda sua beleza, o corpo escultural, coberto apenas por um conjunto de calcinha e sutiã negros, minúsculos, não deixando nada para imaginação.
Confesso que nunca fui um cara muito ligado em mulheres voluptuosas, com peito e bunda grandes, pois sempre o que me ligou em uma mulher foi sua conversa, o jeito, foi assim com a Beatriz, mesmo ela sendo linda, ainda assim me apaixonei perdidamente pela sua essência, seu jeito doce e meigo de ser. No entanto, essa mulher, a Star, está me deixando completamente louco, cheio de desejo e com algum tipo de sentimento novo que não sei nomear ainda o que é, mas que me faz queimar por dentro só de olhar para ela.
Passo todo o número de dança completamente hipnotizado pela deusa morena que rebola sensualmente ao executar sua coreografia bem ensaiada
Ao final da apresentação, Star vem até a frente do palco curvando-se em agradecimento e neste exato momento nossos olhos se cruzam e ela parece envolvida pelo mesmo encantamento que eu, deixando nós dois ligados em um magnetismo que nos prende em uma bolha, deixando todos ao nosso redor fora dela. Mas nossa bolha é quebrada quando ela pisca e sai apressadamente do palco e eu fico estático, sem compreender que tipo de ligação foi aquela que nos acometeu, e ainda com seu olhar cravado em minha mente.
