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Capítulo 1

Fabiane

Arrumo a saia do uniforme no lugar e aliso, insistentemente, a blusa na tentativa de tirar qualquer ruga que ainda possa haver nela. A diretora da escola Sagrado Coração de Jesus é muito meticulosa com os uniformes dos professores da instituição o que faz com os professores que lá trabalham tenham que seguir a risca o protocolo de asseio estipulado pela diretoria a fim de preservar seu trabalho e não receber nenhuma advertência.

Para mim é bastante complicado me adequar à rigidez exigida, para aqueles que lecionam na escola, pois como se trata de um colégio bastante tradicional da cidade do Rio no qual tem como alunos os filhos das pessoas mais ricas do Estado, faz com que tanto as vestimentas dos alunos como as dos funcionários tenham que ser altamente rigorosas. Como estava tentando há anos trabalhar nessa escola, quando finalmente consegui, não me preocupei com esse pequeno detalhe, mas que com o passar dos anos foi se transformando em algo enfadonho e que realmente me deixa com um desânimo danado só de pensar em colocar essa roupa horrorosa.

Mas como não nasci rica então apresso o passo e bato o ponto me encaminhando para a sala dos professores a fim de pegar o material que havia separado para a aula de hoje. Falo com alguns colegas e parto para a minha sala de aula.

Vinte minutos depois todas as crianças vão chegando uma a uma e sentando em suas carteiras.

─ Bom tarde, crianças!

─ Bom tarde, professora Fabiane. ─ Eles respondem em uníssono.

Sou professora do terceiro ano do ensino fundamental, que abrange crianças entre oito e nove anos de idade. Eles são meus amores e uns anjinhos apesar das badernas que às vezes aprontam.

Começo a aula com entusiasmo, pois amo meu trabalho e interagir com meus alunos me dá um prazer inenarrável. Enquanto explico o assunto para os alunos alguém bate a porta interrompendo minha explicação e deixando as crianças em polvorosos.

─ Silêncio, crianças. ─ Ordeno colocando o indicador sobre os lábios pedindo que fiquem caladas.

Ponho o livro que estava em minhas mãos sobre a mesa e sigo até a porta para atender.

─ Bom tarde, diretora Carmen. Em que posso ajudá-la? ─ Digo assim que abro a porta.

─ Professora Fabiane, boa tarde. Gostaria de lhe entregar sua mais nova aluna, Helena Monteiro. ─ Ao me informar sobre a garotinha, a diretora agacha em frente a ela e diz: ─ Helena, meu amor, esta é sua nova professora, a tia Fabiane e vou deixar você com ela agora, tudo bem?

Ela assente timidamente.

─ Olá, Helena! Não gostaria de ir comigo para conhecer sua nova sala e novos amiguinhos? ─ Ela assente novamente e segura minha mão estendida em sua direção.

─ Professora Fabiane, deixo-a com você agora. Bom trabalho.

─ Para a senhora também, diretora. ─ Ela acena e se vai pelos corredores silenciosos da escola já que todos estão em suas salas de aula.

Helena entra comigo na sala, ainda calada, após apresentá-la para turma conduzo-a até a carteira ao lado da Maria, que tenta fazer amizade com sua nova coleguinha imediatamente já que é uma garotinha muito falante e carinhosa.

Estranho a introspecção da pequenina, no entanto é compreensivo já que ela deve estar estranhando por tudo ser novo para ela. Sendo assim, dou seguimento à aula, no entanto, notando vez ou outra que Maria tenta, sem sucesso, se tornar amiga da minha nova aluna.

Com o fim da aula, recolho os cadernos e a minha bolsa, depois de ordenar que as crianças façam uma fila, seguimos para a frente do colégio afim de aguardar os respectivos responsáveis buscar os pequenos.

A todo instante observo Helena que permanece sentada em um dos degraus da enorme escadaria do colégio olhando tudo ao redor, mas cabisbaixa, até mesmo tristonha.

─ Helena Monteiro! ─ O porteiro chama seu nome no microfone e eu acompanho-a até o portão para conhecer o seu responsável e poder descobrir um pouco mais sobre essa linda garotinha tristonha. Seguro sua mão e seguimos até o portão. Quando meus olhos batem no homem negro lindo, de terno, esperando a pequena fico paralisada com tanta beleza.

Passado o impacto inicial, recomponho-me e sorrio para o desconhecido estendendo minha mão para ele.

─ Olá. Sou a professora Fabiane. ─ O lindo homem segura a minha mão de volta. No momento em que nossas peles se conectam todo meu corpo entra em frenesi, pois uma corrente elétrica me toma da cabeça aos pés.

─ Olá, professora Fabiane. Sou o pai da Helena, Fernando Monteiro, muito prazer.

─ O prazer é todo meu, senhor. ─ Cessamos o cumprimento e eu lhe entrego a mochila de sua filha para que os dois possam ir para casa.

─ Depois gostaria de conversar com o senhor, senhor Monteiro, se possível, é claro.

─ Será possível, sim, professora. Depois marcaremos essa conversa. Agora preciso ir.

─ Claro. Até outro dia.

─ Até outro dia.

─ Até amanhã. Helena. ─ Ela acena e segue seu pai até o carro luxuoso estacionado no meio fio.

Ao chegar em casa de mais um dia de trabalho tomo um banho demorado e preparo algo para comer enquanto relembro o encontro com a linda garotinha Helena com seu jeito calado, mas o que mais mexeu comigo foi a força que me atraiu para o seu pai.

─ Fernando Monteiro. ─ Testo seu nome e minha língua ainda com a sensação do seu toque em minha pele que arde só de recordar a eletricidade que me atingiu ao sentir sua pele na minha.

─ Para de sonhar acordada Fabiane. Aquele homem é areia demais para o seu caminhãozinho capenga. Além do mais ele deve ter uma esposa linda e super chique esperando por ele em casa.

Levanto da cama ao checar a hora no relógio de cabeceira e sigo direto para o banheiro pronta para lavar a professora Fabiane do meu corpo e dar vida a dançarina Star.

***

Olhando-me no espelho do camarim da boate Red, checo a peruca loira sobre a cabeça verificando se ela está realmente presa e depois coloco a máscara terminando assim de concluir todo o figurino da bela e estonteante Star.

Ouço o locutor anunciar meu nome e apresso o passo até a entrada do palco para começar meu numero de dança.

─ Arrasa, gata! ─ Jennifer grita para mim assim que passo por ela em meus saltos quinze.

Sorrio e me posiciono, esperando a música selecionada começar a tocar. Quando a batida de Dance for You da Beyoncé ecoa nos alto-falantes abro as cortinas e caminho sensualmente até a cadeira disposta no meio do palco, sento com a frente para o encosto da cadeira, ficando assim de costa para a platéia, dando aos homens uma bela visão da minha bunda que mal está coberta pelo vestido curtíssimo e transparente e que exibe a calcinha fio dental atolada em minha bunda.

Sob os aplausos e assovios dos homens que estão ensandecidos pelo tesão e álcool começo meu numero passando as mãos pelo corpo, rebolo sobre a cadeira e me inclino jogando a cabeça para trás dando a visão dos meus seios, sob o tecido do vestido dourado, para a platéia que grita mais e mais a cada gesto meu durante a dança.

Retorno para a posição inicial e lentamente vou tirando o vestido que cobre meu corpo jogando o tecido ao longe, vejo-me sentada sobre a cadeira vestida apenas com a calcinha fio dental e o sutiã meia taça, além da meia arrastão segurada com a cinta liga e os saltos assassinos que completam o visual.

A enxurrada de aplausos e assovios se intensifica assim que levanto da cadeira empinando minha bunda para eles e ando sensualmente até o mastro do pole dance. Lá é que realmente meu número começa de verdade, pois seguro com as duas mãos na barra e dou um giro de trezentos e sessenta graus abrindo as pernas segurando o peso do meu corpo com a força dos braços.

O público vai ao delírio, a ponto de transformar o chão onde estou realizando minha coreografia, em um mar de notas de dinheiro, mas apesar de ganhar muito bem pela minha dança, não é só por ele que faço isso, mas sim porque sou apaixonada pela dança, prova disso é que eu não me prostituo tendo em vista que propostas de homens nunca faltaram para mim, no entanto dançar é o que me faz estar aqui todas as noites.

É o que me dá prazer e o que me realiza.

Quando a música vai chegando ao fim, concluo o número com as coxas presas no ferro e as pernas entrelaçadas nela, minha cabeça jogada para trás, braços abertos e corpo girando e girando, depois saio do pole dance segurando nele com as mãos dando para a plateia a visão da minha bunda. Eu nunca tiro toda a roupa, porque essa não é razão do meu número, mas sim todo o espetáculo envolvido nele, além do fato de eu não ser uma estripe, diferentemente das outras garotas, sou sim uma dançarina.

Já de pé me viro para agradecer pelos aplausos, mas assim que observo mais atentamente todos os homens, um em específico faz com que eu trave no lugar, pois o rosto desse homem não saiu um minuto sequer da minha cabeça desde o finalzinho da tarde de hoje, quando ele veio pegar sua filha na escola.

─ Fernando Monteiro o pai da Helena. O que ele faz aqui? ─ Murmuro, ainda parada no lugar, para mim mesma sem acreditar que estou o vendo novamente. Abismada e com medo de ter sido reconhecida dou meia volta caminhando apressadamente para trás das cortinas pesadas do palco.

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