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01 - Olivia Scott

Eu acordei como todo mundo gostaria de acordar: com uma ressaca monstruosa, um vestido de noiva sujo e a certeza de que minha vida tinha descido pelo ralo.

Minha cabeça latejava, meus olhos se recusavam a abrir completamente e minha boca parecia ter passado a noite comendo areia.

Abri os olhos devagar, com o coração disparado. O teto acima de mim não era o meu, e o cheiro de lençóis caros, misturado com um perfume amadeirado familiar, deixou minha cabeça ainda mais confusa.

Então ouvi a voz.

— Finalmente. Achei que teria que te levar ao hospital para tirar a dúvida se estava morta ou só de ressaca.

Lá estava ele. Dante Callahan. Em pé, recostado na parede, como se fosse a capa de alguma revista de bilionários irritantemente atraentes, com aquele sorriso preguiçoso e irônico que eu detestava tanto quanto meu pai detestava ele.

E era esse mesmo Dante, meu ex-namorado, arquirrival do clã Scott, o homem que meu pai havia jurado arruinar por completo, que agora, legalmente, respondia pelo título de… meu marido.

— Ah, não. Não, não, não. — Minha voz saiu mais para um murmúrio histérico enquanto eu me sentava de supetão na cama, tentando afastar o cobertor e a neblina de tequila da noite anterior.

— Sim, sim, sim. — Ele rebateu com um tom exageradamente animado, cruzando os braços.

— Por que você ainda está aqui? — resmunguei, minha voz mais rouca do que eu gostaria. — Você não tem um clube do bolinha milionário para comandar?

— E perder a chance de ver você tentando juntar as peças da noite passada? Nem pensar. — Ele entregou um copo d’água com aspirinas, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Engoli a água e a humilhação junto.

— E antes que você pergunte, não, eu não vou me divorciar de você.

Eu o encarei, boquiaberta, enquanto flashes da noite anterior vinham à tona: o karaokê desastroso, a rodada interminável de shots e, claro, a decisão completamente insana de assinar um contrato de casamento no meio de Las Vegas.

— Isso não faz sentido! — eu explodi, ignorando o latejar na minha cabeça e o embrulho no estômago. — Por que você, de todas as pessoas do universo, concordaria em casar comigo?

Dante arqueou uma sobrancelha, aquele sorriso irritante crescendo.

— Você parecia muito convincente quando escalou a mesa e começou a gritar que eu era o único homem com quem você confiava seu “futuro brilhante”.

Eu soltei um gemido de desespero e enterrei o rosto nas mãos. Isso não podia estar acontecendo.

— Olivia — ele continuou, inclinando-se levemente para frente, a voz baixa e provocante. — Admito que foi uma surpresa pra mim também. Mas, considerando nossa história… eu diria que o universo tem um senso de humor fantástico.

Minha cabeça levantou num estalo. Nossa história. Claro. A memória dele me largando sem explicações, meu pai surgindo misteriosamente para “me consolar” e insinuando que eu merecia algo melhor, a raiva, a mágoa… e agora isso.

— Isso não tem graça nenhuma — eu retruquei, apertando os olhos e tentando ignorar como ele parecia ainda mais bonito do que na última vez que nos vimos. A barba bem aparada, o cabelo bagunçado de propósito, a camisa levemente desabotoada… Concentre-se, Olivia!

Ele deu de ombros.

— Depende do ponto de vista.

— Que ponto de vista seria esse? O de alguém que gosta de ver minha vida virar um circo?

— Talvez. Ou o de alguém que acha que o casamento foi a melhor ideia que você teve em anos.

Eu queria gritar. Queria chorar. Queria voltar no tempo e dar um tapa na Olivia de ontem à noite antes de tomar aquela segunda — ou terceira, ou décima — tequila.

Mas, em vez disso, levantei, tropecei no vestido de noiva — não tão intacto e agora amassado —, e fui até o espelho. A visão era um reflexo do caos: cabelo bagunçado, maquiagem borrada e o vestido que, ironicamente, parecia mais adequado a um funeral do que a um casamento.

Dante veio atrás de mim, claro, porque ele nunca sabia quando era hora de calar a boca.

— Precisa de ajuda com isso? — Ele apontou para o zíper do vestido, um sorriso malicioso nos lábios. — Já vi tudo aí antes, então não precisa ter vergonha.

Eu me virei para ele, com o dedo apontado.

— Se você ousar tocar no meu zíper, Callahan, eu juro que o divórcio vai ser o menor dos seus problemas.

Ele levantou as mãos em rendição, mas o sorriso continuou lá, intacto.

— Fique à vontade, querida. Eu só estou aqui para garantir que você não saia correndo antes de conversarmos sobre… o futuro brilhante.

Meus olhos se estreitaram, meu sangue fervia, e eu sabia que, de todas as enrascadas em que já havia me metido, essa era a mais complicada. Porque fugir de Dante Callahan, de seu sorriso insuportável e de seu olhar provocador, era algo que nem mesmo meu vestido de noiva rasgado e meus saltos quebrados poderiam resolver.

Dante se apoiou na moldura da porta enquanto eu lutava com o zíper do vestido, que, naturalmente, havia decidido travar em um ponto que eu não alcançava de jeito nenhum. Ele parecia se divertir mais do que deveria, assistindo minha batalha particular contra um pedaço de tecido e uma ressaca assassina.

— Você sabia que era péssima com vestidos quando me escolheu para marido, não sabia? — ele provocou, cruzando os braços e inclinando a cabeça de lado. — Isso explica muito sobre suas escolhas na vida.

Eu virei para ele, ainda segurando o zíper preso no meio das costas, com a expressão de quem estava pronta para cometer um crime.

— Você realmente acha que tem moral para falar sobre minhas escolhas, Callahan? — retruquei. — Quer que eu faça uma lista de todas as suas decisões péssimas, ou o casamento comigo já é o suficiente?

O sorriso dele cresceu, e eu odiei o fato de que ele ficava tão bem sorrindo, mesmo sendo insuportável.

— A questão é que, pelo visto, você continua fazendo escolhas duvidosas, Liv. Primeiro, aceitar um casamento arranjado com aquele… como era mesmo o nome dele? Brad? Brian?

— Logan — corrigi, sem emoção.

— Isso. Um genérico qualquer de filme ruim. Depois, você passa de um altar abandonado direto para um cartório em Vegas, comigo. Não que eu esteja reclamando, claro.

Eu fechei os olhos e respirei fundo, tentando reunir forças para não atirar o travesseiro mais próximo na cara dele.

— Você acha que eu escolhi isso? — disparei, apontando para nós dois. — Você acha que foi um plano maquiavélico meu virar uma piada pública e acabar casada com meu ex-namorado e arquirrival do meu pai na mesma noite?

— Bom, você estava bastante animada ontem à noite. — Ele deu de ombros, fingindo inocência. — Pelo que lembro, você estava cantando no karaokê quando me chamou de “a melhor decisão que já tomou”.

Eu gelei.

— Não. — Balancei a cabeça. — Eu não fiz isso.

— Fez sim. Tenho até vídeos para provar, caso precise refrescar a memória.

— Apague. — Minha voz saiu em um rosnado baixo.

Ele apenas riu.

— Relaxa. Está salvo no meu coração. E no meu celular, claro.

Eu bufei, finalmente desistindo do zíper e jogando os braços para cima.

— Onde está Jade? — perguntei, mudando de assunto, porque se eu pensasse por mais dois segundos no que ele estava dizendo, ia acabar sendo presa por agressão.

— Sua prima? — Ele fez cara de pensativo, claramente se divertindo em me irritar. — A última vez que a vi, ela estava no cassino tentando convencer um croupier a apostar a jaqueta de couro dele numa rodada de roleta.

— O quê?! — exclamei, atordoada.

— Calma. — Ele ergueu as mãos. — Acho que ela perdeu a rodada, mas ganhou o número do cara. Jade tem seus próprios métodos de lidar com tragédias, aparentemente.

Eu levei as mãos ao rosto e soltei um gemido de frustração.

— Meu pai vai me matar quando descobrir.

— O que me leva ao próximo ponto. — Dante descruzou os braços e deu um passo para mais perto, sua expressão ficando séria. — Você não vai anular esse casamento, Liv.

Eu congelei.

— Como é que é?

— Você ouviu bem. — Ele me encarou, os olhos brilhando com aquele misto de determinação e provocação que eu conhecia tão bem. — Você acha que vou perder a chance de irritar seu pai e ainda me divertir no processo?

Eu o encarei, boquiaberta.

— Isso aqui não é um jogo, Dante!

— Claro que é. — Ele sorriu de lado, inclinando-se para mais perto, e minha respiração falhou por um segundo. — E, pelo que me lembro, eu sempre ganho.

— Você é insuportável!

Ele apenas deu de ombros, um brilho divertido nos olhos.

— E você é minha esposa agora, querida. Melhor se acostumar.

Se eu tinha dúvidas sobre como minha vida tinha chegado a esse ponto, elas sumiram ali. A resposta era clara: tequila, péssimas decisões e Dante Callahan. Uma combinação mortal.

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