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Capítulo 5 — Sombras e Segredos

O salão de estratégias estava envolto em um silêncio pesado, rompido apenas pelo crepitar das brasas na lareira. Beleth estava sentado em sua imponente cadeira de espaldar alto, os dedos tamborilando contra o braço esculpido, os olhos fixos em um grimório antigo sobre a mesa. O livro parecia murmurar segredos, mas os pensamentos de Beleth estavam longe dali.

De repente, uma pulsação de energia atravessou seu ser. Ele franziu o cenho, a postura se enrijecendo de imediato. Algo estava errado. Não era uma simples perturbação no fluxo mágico; era uma conexão pessoal, profunda. Ele reconheceu imediatamente: era Kayno.

Murmurando algo indecifrável, fechou o grimório com um movimento brusco. Sua mente, usualmente calculista e imperturbável, estava inquieta. A energia de Kayno vacilava, algo que nunca acontecera antes. Beleth se levantou, caminhando até a janela. O vasto território do submundo se estendia diante dele, mas nem mesmo aquela visão grandiosa poderia dissipar a sensação incômoda em seu interior.

— Lessir! — Sua voz cortou o silêncio como um trovão.

Das sombras mais profundas do salão, uma figura alta e encapuzada emergiu. Lessir, o demônio das sombras, parecia quase se fundir à escuridão ao seu redor. Seus olhos brilhavam como carvões em brasa enquanto ele fazia uma leve reverência.

— Meu senhor? — Sua voz era grave, carregada de uma serenidade ameaçadora.

Beleth virou-se para ele, o olhar afiado como uma lâmina.

— Kayno. Quero que o observe de perto. Cada movimento, cada decisão, cada interação. Descubra o que está causando essa... Fraqueza que sinto nele. E me avise de imediato.

Lessir inclinou a cabeça, mas hesitou por um instante antes de falar.

— Se houver uma ameaça clara, devo intervir?

Beleth estreitou os olhos, ponderando. Sua voz saiu firme, carregada de autoridade:

— Não. Não interfira, a menos que seja absolutamente necessário. Quero compreender o que está acontecendo antes de agir. Mas, se algo ou alguém ameaçar Kayno diretamente, elimine a ameaça. Discretamente.

Lessir assentiu, desaparecendo novamente nas sombras, deixando Beleth sozinho com seus pensamentos. O silêncio retornou, mas o peso em sua mente permaneceu. Ele sabia que a energia de Kayno vacilar era mais do que uma preocupação paternal; era um sinal de algo maior, algo que poderia desestabilizar os alicerces de seu reino.

Horas depois, Beleth adentrou o grande salão de reuniões. As tochas que iluminavam o espaço lançavam sombras dançantes nas paredes esculpidas com runas antigas. Ao redor da enorme mesa de pedra estavam reunidos os líderes mais poderosos do submundo. Suas presenças eram intimidantes, mas nenhuma rivalizava com a de Beleth.

Amroth, o espectral líder dos espíritos, foi o primeiro a falar.

— Beleth, agradecemos sua presença. Há questões urgentes que precisam de sua atenção.

Beleth assentiu, tomando seu lugar na cabeceira da mesa.

— Fale, Amroth. O que ameaça a estabilidade do nosso domínio?

— Há movimentações entre os vampiros. Eles estão formando alianças inusitadas com humanos. Não é algo que possamos ignorar. — Amroth disse, sua voz ecoando como um sussurro gelado.

Beleth estreitou os olhos.

— Humanos? — Ele deixou escapar uma risada fria. — Sempre tão frágeis, buscando poder em lugares errados. Por que os vampiros estariam interessados em alianças tão insignificantes?

Morgana, a líder dos necromantes, interveio com um olhar calculista.

— Não subestime os humanos, Beleth. Eles têm uma habilidade peculiar para sobreviver, e quando se unem a criaturas como os vampiros, podem se tornar mais perigosos do que imaginamos.

— Perigosos? — Beleth sorriu, mas não havia humor em sua expressão. — Eles não são nada comparados ao que controlamos aqui.

Orlan, o guerreiro infernal, atraiu a atenção de todos.

— Não se trata apenas de humanos, Beleth. Relatos indicam que esses vampiros estão tentando realizar rituais proibidos, protegendo suas mentes de nossa influência.

Beleth franziu o cenho, o tom de voz se tornando mais grave.

— Rituais proibidos? Quem está os ajudando?

— Ainda não sabemos. — Amroth respondeu. — Mas há rumores de que eles estão buscando artefatos antigos para aumentar suas defesas.

O salão mergulhou em um breve silêncio. Morgana foi a primeira a quebrá-lo.

— Talvez devêssemos infiltrar alguém entre eles. Isolda, talvez. Ela tem o talento necessário para descobrir os planos desses vampiros.

Beleth ponderou por um momento antes de concordar.

— Que seja. Isolda é confiável e discreta. Quero informações detalhadas sobre todos os envolvidos.

Morgana sorriu levemente, satisfeita com a decisão.

— Será feito.

No entanto, enquanto os outros discutiam estratégias, Beleth mal ouvia. Sua mente estava em outro lugar, voltando constantemente a Kayno e à sensação que o perturbava.

— Beleth? — Amroth chamou sua atenção, notando sua distração. — Há algo mais que o preocupa?

Beleth ergueu o olhar, recuperando sua compostura imediatamente.

— Nada que diga respeito a esta reunião. Foquem nos vampiros. Quero resultados antes que eles tomem qualquer iniciativa contra nós.

A reunião continuou, mas Beleth sabia que o verdadeiro desafio estava além daquelas paredes.

Na escuridão de sua mente, Beleth formulava seus próximos passos. Enquanto isso, nas sombras mais profundas do reino, Lessir já estava em movimento, observando Kayno como um predador silencioso. Cada passo do jovem príncipe era seguido de perto, mas ainda assim, Beleth sabia que a batalha mais perigosa seria dentro de si mesmo: entre o pai preocupado e o governante implacável.

— Nada pode sair do meu controle.

Suas palavras ecoaram pelo salão vazio quando todos os outros partiram. As chamas da lareira tremeluziram, como se concordassem silenciosamente com sua determinação.

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