Capítulo 4 — Labirinto de fogo
No fundo do bar, Veny e Seraphine observavam atentamente Kayno e Alika, tentando decidir o que fazer.
— Eu sabia que isso ia acontecer. — Veny murmurou, apoiando os cotovelos na mesa enquanto observava Kayno inclinar-se perigosamente na direção de Alika. — Ele não consegue evitar, não é?
Seraphine suspirou, o olhar fixo nos dois.
— Não, ele não consegue. — Disse, quase resignada. — Mas quem pode culpá-lo? Olhe para ela. Alika tem essa... Luz inexplicável. Uma calma que, nos faz esquecer por um momento o peso que carregamos. É difícil não se deixar levar.
Veny assentiu, ainda que seu semblante permanecesse preocupado.
— Conhecemos Kayno, Seraphine. Ele não é alguém que age sem calcular as consequências. Se está se deixando levar, é porque algo nele mudou. E, ainda assim, ela não sabe no que está se envolvendo.
Seraphine estreitou os olhos, observando o modo como Kayno olhava para Alika, os olhos castanhos-avermelhados brilhando de uma forma que ela raramente via.
— Talvez nem ele saiba o que está fazendo. — Murmurou. — Mas nós sabemos. E não podemos ignorar o que isso pode causar para ela.
Antes que pudessem continuar, Orin e Morgath se aproximaram da mesa, cada um carregando um copo nas mãos e expressões completamente diferentes.
— As princesas do submundo parecem preocupadas. — Disse Orin, inclinando-se casualmente na mesa com um sorriso despreocupado. — Algo de errado com os pombinhos?
Veny virou-se para ele, o olhar frio.
— Não sabemos o que Kayno pretende, mas temos certeza de que ele está indo longe demais.
Orin deu uma risada curta e balançou a cabeça.
— Vocês se preocupam demais. Ele só está se divertindo um pouco, mignon (bonitinha). Depois de tudo o que passa naquele reino, ele merece, não acha?
— Isso não é diversão, Orin. — Seraphine interveio, cruzando os braços. — Ele está se envolvendo emocionalmente com alguém que não conhece o mundo dele, e isso vai acabar mal.
Morgath, que até então estava em silêncio, soltou um suspiro pesado e olhou para Orin.
— Elas estão certas. Kayno pode achar que está no controle, mas essa aproximação pode custar caro. Não apenas para ele, mas para todos nós.
Orin deu de ombros, claramente despreocupado.
— Vocês falam como se isso fosse o fim do mundo. Ele encontrou alguém que o faz sentir algo verdadeiro, pela primeira vez em muito tempo. N'est-ce pas une raison de se réjouir ? (Isso não é motivo para comemoração?)
Veny inclinou-se para a frente, os olhos fixos em Orin.
— Se isso fosse só sobre Kayno, talvez. Mas não é. Alika não sabe nada sobre o nosso mundo, o peso que o título de Kayno representa, nem os perigos que isso traz. E mais: você acha mesmo que Beleth vai ignorar isso?
Orin levantou as mãos em um gesto de rendição, o sorriso ainda intacto.
— Beleth sempre terá algo a dizer, mas Kayno é um príncipe, petit (pequena). Ele está acostumado a lidar com problemas. Estão fazendo drama por algo que talvez nem aconteça.
— Talvez nem aconteça? — Veny repetiu, incrédula. — Orin, se algo der errado, Alika será a primeira a sofrer as consequências.
Antes que Orin pudesse responder, um movimento na direção de Kayno chamou a atenção de todos. Ele se inclinava ainda mais para Alika, e, sem hesitação, tocou a mão dela. Veny prendeu a respiração.
— Ele não vai... — Começou Seraphine, mas sua voz falhou quando Kayno se aproximou de Alika e a beijou.
O beijo foi lento, mas carregado de uma intensidade avassaladora. Alika parecia surpresa no início, mas logo retribuiu, os olhos fechados enquanto se entregava ao momento.
— Ele foi longe demais. — Veny murmurou, os olhos arregalados enquanto observava a cena.
Seraphine desviou o olhar, mordendo o lábio inferior.
— Isso... Isso não vai acabar bem.
Morgath franziu o cenho, um brilho de preocupação em seus olhos.
— Ele acabou de cruzar uma linha que não pode mais desfazer.
Orin, por outro lado, parecia quase satisfeito.
— Bem, devo admitir que o príncipe tem bom gosto. — Ele disse com um tom leve, ignorando os olhares de reprovação das duas princesas.
Seraphine virou-se para ele, a paciência claramente esgotada.
— Isso não é engraçado, Orin! Nós temos que fazer algo.
Orin ergueu uma sobrancelha, como se estivesse surpreso pela intensidade da reação dela.
— Faire quoi? L'empêcher d'être heureux ? (Fazer o quê? Impedir que ele seja feliz?) Vocês são amigas dela, não babás. Se Alika e Kayno estão se envolvendo, deixem que resolvam sozinhos.
Morgath suspirou novamente e colocou a mão no ombro de Orin, como se tentasse trazê-lo de volta à realidade.
— Orin, essa não é uma situação simples. Kayno não está apenas brincando, e Alika é... Diferente. Se algo der errado, Beleth não será o único problema.
Veny levantou-se, os olhos ainda fixos em Alika e Kayno, que agora conversavam como se o beijo tivesse sido a coisa mais natural do mundo.
— Vamos precisar falar com Ali. — Disse com firmeza. — Ela tem o direito de saber no que está se envolvendo antes que seja tarde demais.
Seraphine assentiu, embora relutante.
— Concordo. Mas a questão é: como contamos a verdade sem destruir tudo?
Enquanto isso, do outro lado do bar, Kayno segurava a mão de Alika, um leve sorriso nos lábios.
— Quero ver você novamente. — Ele disse, a voz carregada de intensidade.
Alika sorriu, o olhar brilhando com uma mistura de alegria e entrega.
— Eu também quero.
E, no fundo, Kayno sabia que havia entrado em um labirinto do qual talvez não conseguisse sair.
...
A noite havia se tornado um redemoinho de emoções. As palavras trocadas, os olhares intensos e o beijo inesperado permaneciam pairando entre eles como uma chama que recusava apagar. Agora, do lado de fora, o ar era fresco, mas carregado com a eletricidade silenciosa de tudo o que não havia sido dito.
Kayno caminhava ao lado de Alika em direção ao carro de Seraphine. O estacionamento estava calmo, o som das botas de ambos ecoando suavemente no asfalto.
Ele estava em silêncio, os olhos castanhos-avermelhados observando cada detalhe dela, como se quisesse memorizar tudo: a maneira como o vento fazia os cachos de seu cabelo dançarem, o leve brilho dourado em seu olhar, a forma delicada como ela caminhava, como se carregasse um segredo do qual nem mesmo ela tinha consciência.
Alika também sentia o peso do momento, mas não sabia o que dizer. Suas mãos ainda estavam aquecidas com o toque de Kayno, e seu coração batia em um ritmo descompassado desde o momento em que seus lábios se encontraram. Ela queria entender, queria falar, mas tinha medo de quebrar a magia frágil que parecia envolvê-los.
Quando finalmente chegaram ao ponto de despedida, Kayno parou e virou-se para ela. Por um instante, ele ficou em silêncio, como se tentasse encontrar as palavras certas.
— Alika... — Ele começou, a voz baixa e profunda. — Eu não planejei isso.
Ela ergueu os olhos para ele, o coração apertando no peito.
— Eu sei. — Disse suavemente. — Eu também não.
Kayno hesitou. Ele era sempre tão confiante, tão firme, mas com Alika tudo parecia diferente. Ela o fazia questionar o que antes ele tomava como certo.
— Algo mudou hoje. — Ele continuou, os olhos fixos nos dela. — Não posso explicar, mas você sente, não sente?
Alika assentiu, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.
— Eu sinto. É como... Se algo tivesse despertado. Como se eu finalmente tivesse encontrado algo que sempre esteve faltando, mesmo sem saber.
Kayno segurou delicadamente a mão dela, o toque quente e reconfortante.
— Isso é perigoso, Alika. — Ele admitiu, a honestidade cortante em sua voz. — Para mim. Para você.
Ela mordeu o lábio inferior, mas não desviou o olhar.
— Eu sei. Mas não importa. Não quero fugir disso.
Ele exalou profundamente, balançando a cabeça com um leve sorriso de incredulidade.
— Você é... Impressionante. — Murmurou, mais para si mesmo do que para ela. — E isso só torna tudo mais complicado.
Alika deu um pequeno passo à frente, ficando ainda mais próxima dele.
— Kayno, não importa o que aconteça, eu quero descobrir o que isso significa. Quero entender o que somos.
As palavras dela o atingiram com força, e por um momento ele quis apenas esquecê-las, ceder completamente ao que sentia. Mas o peso de sua linhagem, de suas responsabilidades, estava sempre lá, como uma sombra persistente.
— Eu prometo que vamos descobrir. — Disse ele, sua voz carregada de sinceridade. — Mas por agora, você precisa ir.
Ela assentiu, embora a despedida parecesse mais difícil do que qualquer um deles imaginava. Kayno inclinou-se levemente, seus dedos roçando a bochecha dela por um breve momento antes de recuar.
— Se cuida, Alika.
Ela sorriu, um sorriso gentil que escondia uma euforia pela antecipação do reencontro.
— Você também, Kayno.
Se virando, ela entrou no carro, sentindo o peso do olhar dele em suas costas. Quando Seraphine ligou o carro, Alika olhou para trás uma última vez. Kayno ainda estava lá, parado, observando-a partir.
Com o coração disparado, soube que aquela despedida era apenas o começo de algo que prometia mudar sua vida para sempre.
