Capítulo 2 - Samba e causos
O QUEIXO DE DIOGO CAIU quando as duas primas entraram em casa. Nossas lembranças das duas eram as piores possíveis devido aquela viagem maldita para Minas Gerais, e de repente, todas nossas críticas com relação a elas haviam desaparecido.
Apesar de novas — elas tinham quase a mesma idade da minha irmã caçula —, as primas mineiras eram espetaculares. Ingrid — a loira —, tinha olhos castanhos escuros, era dona de seios tão fartos quanto rijos que pareciam querer saltar do decote a qualquer momento e a sua cintura era bem fina. Sua irmã, Joyce — de cabelos ondulados castanhos —, por sua vez, tinha olhos verdes cintilantes, seios miúdos e um quadril muito bem desenhado que fazia uma curva perfeita até mais atrás, em seu bumbum levemente empinado. Mesmo em respeito a meus pais que acompanhavam a chegada das meninas de perto e às próprias primas, era difícil desviar os olhos daquelas duas tentações, bem como controlar os pensamentos libidinosos que surgiam em decorrência ao que eu enxergava.
Enquanto Bianca e Aline ajudavam as meninas a se instalarem em meu quarto e no de Diogo, onde elas ficariam hospedadas durantes aqueles dias, a nossa troca de olhares era intensa. Por mais que não tivéssemos qualquer intimidade até aquele momento, claramente havia rolado um flerte entre eu e as primas na viagem de carro até Cotia e algo me dizia que aquele feriado prolongado iria render muitos momentos prazerosos com as duas, além de várias brincadeiras bobas e gostosas.
Algumas horas após sua chegada, meus pais armaram um churrasco para recepcionar as primas e por volta das quatro da tarde, a casa estava cheia de gente. O seu Francisco nunca perdia uma boa oportunidade de assar uma carne ou reunir os amigos da vizinhança em torno da churrasqueira no quintal e viu na chegada das sobrinhas o motivo certo de preparar uma comemoração festiva.
Uma média de vinte pessoas se amontoava entre a calçada do lado de fora do portão, no quintal da casa, sob o teto da varanda e na sala de casa. Os vizinhos mais próximos tinham trazido a cerveja, os mais distantes tinham comprado os tira-gostos e a grande maioria dos mais chegados da nossa família estavam ali só para forrar o bucho mesmo.
O som do samba e do pagode estava reverberando das caixas acústicas que eu e Diogo havíamos ajudado a montar do lado de fora da casa e dava para ouvir a música até da entrada da rua, uns quarenta metros abaixo de nosso portão.
Além do senhor Almeida, que era o vizinho da frente, marido da Leila e pai do meu melhor amigo, o Heitor, o seu Francisco tinha chamado mais uma porção de colegas da rua que não só se prontificaram a comparecer para filar toda a carne que meu velho assava na churrasqueira, como também para esticar seus olhares cobiçosos para cima das recém-chegadas.
Ingrid e Joyce estavam vestidas mais à vontade aquele momento do churrasco e chamavam todas as atenções para si. Além de bastante comunicativas e simpáticas, as duas mineirinhas logo provaram diante de todos que também tinham samba no pé e não pararam de dançar, deslizando com graça pelo piso do quintal em seus movimentos coordenados.
Tanto uma quanto a outra não lembravam nem de longe as menininhas irritantes que eu havia conhecido há alguns anos e agora exalavam carisma e alegria. Tinham deixado a arrogância da infância de lado e demonstravam que tinham amadurecido bastante, cultivando até mesmo uma personalidade mais humilde.
A certo ponto do churrasco, Ingrid e Joyce aproveitaram que todo o foco da vizinhança ali reunida estava sobre elas para começarem a contar, sem qualquer desprendimento, histórias de perrengues financeiros que elas e os pais haviam vivido em Minas Gerais recentemente. Estávamos em um grupo de aproximadamente quatorze pessoas formando uma roda a uns quatro metros entre a churrasqueira e o portão. Ingrid segurava uma lata de refrigerante na mão esquerda enquanto gesticulava com a direita, expressiva.
— … eu nem sei de onde meu pai arranjou aquele bode, mas do nada, estava eu e a minha irmã ouvindo um “bééé” ecoando do quintal e a gente saiu pulando da cama, coriscada, pra saber o que estava acontecendo.
Estavam todos atentos à narrativa, de olho na garota loira que contava sua história em seu sotaque cantado bem no meio do círculo de pessoas. Até a minha mãe, Edna, que havia estado na cozinha preparando o acompanhamento do churrasco já tinha aparecido para espiar.
— “De onde foi que saiu esse bicho, pai? ”, eu perguntei. Ele estava lá parado, segurando uma corda enrolada no pescoço do bode, todo troncho. Minha mãe apareceu na janela e esbugalhou os olhos num tanto assim — e ela simulou as órbitas dos olhos se arregalando —, depois começou a gritar lá de cima “que negócio é esse no meu quintal? De onde saiu isso? ”.
Além de contar o causo, Ingrid interpretava com gestos e expressões, o que tornava sua história ainda mais hilária. Eu estava rindo.
— Em resumo: meu pai tinha saído de casa pra beber, mas no caminho, foi convidado por um amigo de bar para acompanhar o sujeito num bingo. Comprou a cartela, jogou a noite toda e acabou ganhando uma rodada em que o prêmio era o bode.
A roda em torno das duas meninas caiu no riso. Joyce, que acompanhava a irmã, assentiu, confirmando a veracidade da sua história. Todo mundo estava muito curioso para saber o destino do bode e foi do seu Almeida a pergunta:
— E o que o seu pai fez com o bicho?
— Por sorte, o senhor meu pai conhecia um amigo de um amigo que tinha uma fazenda para os lados de Guapé, cidade vizinha de Capitólio, e depois de escutar todo tipo de xingo da minha mãe, o coitado resolveu vender o bode. Acabou que o dinheiro que ele ganhou deu pra fazer uma compra pra semana toda e diminuiu o aperto que a gente estava passando aquela época.
Eu adorava mulher bem-humorada, e Ingrid, até mais do que Joyce, era muito engraçada. Ela não conhecia praticamente ninguém naquele churrasco, mas falava com todo mundo como se já fossem seus velhos conhecidos, sempre fazendo uma piadinha ou um comentário jocoso. Joyce, por sua vez, exalava um carisma fora do comum e a sua grande marca era o sorriso, que não deixava de estampar o rosto bonito quase nunca. Tinha um charme inegável e mesmo sem querer, atraía os olhares para a sua plástica perfeita de menina atrevida, empinando a bunda enquanto sambava na ponta do pé.
Por que o tio Naldo não decidiu mandar essas meninas pra São Paulo antes, meu Deus do céu? Pensei, bebendo uma cerveja e suando mais por conta do samba no pé de Joyce do que pelo calor de quase trinta graus que estalava lá fora. A danada sabia o quanto era linda, mas agia de tal modo que aquele detalhe passava a ser pequeno entre as várias outras qualidades que acumulava.
Algum tempo depois, a tarde já estava caindo sobre a cidade e o samba continuava rolando alto nas caixas de som. Meu pai era fã dos grandes clássicos do gênero e na sua playlist nunca podiam faltar nomes como Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Alcione e Dona Ivone Lara. Ele tinha conhecido minha mãe numa roda de samba que rolava próximo ao bairro da Mooca onde tinha sido criado e sempre contava que a tinha conquistado dançando agarrado na pista e cantarolando a letra de “Andança” de Beth Carvalho em seu ouvido. Sempre que tocava aquela, o brilho nos olhos dos dois era intenso.
Eu estava distraído lembrando da história de meus pais com os olhos pregados no rebolado de Joyce que sacudia os seus quadris no centro do quintal na companhia da filha do Alemão, o dono de um bar de esquina. A mineira calçava um chinelo de dedo nos pés pequenos e sambava alegremente, parando apenas para dar goles em uma batida de abacaxi que o seu Francisco havia feito. A bunda metida no short justo ia para lá e para cá, de repente, senti dedos finos tocando o meu ombro por trás. Eu estava encostado no batente da porta da sala e tomei um susto.
— Daqui a pouco, a menina vai desaparecer de tanto que você está secando a bunda dela!
Eu e minha irmã Bianca tínhamos um relacionamento muito especial e ela costumava ser ainda mais ciumenta comigo do que a minha namorada. Com ela por perto, era difícil sair da linha ou arrastar a asa para quem quer que fosse e a garota parecia levemente incomodada com a chegada intempestiva das primas em nossa casa.
— Impressão sua. Não estou secando ninguém.
Um riso debochado acabou escapando da minha boca enquanto eu mirava o quadril de Joyce a uns três metros. Os dedos de Bianca se fecharam formando uma pinça e ela acabou puxando a pele do meu bíceps direito num beliscão.
— Aham! Aposto que você nem notou que ela está com um shortinho enfiado no rabo toda exibida!
Aquele era um comentário maldoso e por mais que Joyce estivesse chamando todas as atenções para si dançando toda animada na frente dos convidados, dava para perceber que não era de propósito. Ela estava se divertindo sambando com a filha mirrada do Alemão, mas em nenhum momento estava pensando “Olhem! Vejam como o meu rabo é gostoso! ”. Pelo menos eu acreditava que não.
— Não seja maldosa, Bia — retruquei —, a coitada só está se divertindo um pouco.
A mineira de cabelos castanhos tinha mesmo uma sensualidade natural e por conta disso, todos os homens heterossexuais presentes estavam passando apuros, inclusive meu amigo Heitor, que era o namorado não-oficial da minha irmã Aline. De longe, vi o momento em que ele tomou alguns murros no baço devido suas olhadelas insistentes para o lombo de Joyce e o olhar mordaz que a caçula dos Ferreti lançou em direção à nossa prima por causa disso.
— Vê se controla esse seu charme de macho-alfa, Caíque Ferreti — disse Bianca, ainda a olhar feio em minha direção —, as primas são novinhas demais pra você e depois, pelo que me lembro, o senhor tem uma namorada esperando por você em casa.
Bianca nunca tinha se dado bem com nenhuma garota que chegasse a um raio de um quilômetro de mim desde a nossa adolescência e Glauce não era uma exceção. As duas não se bicavam em nenhuma hipótese e eu já tinha mediado bem mais de uma dezena de entreveros entre as duas desde o início de meu namoro com a estudante de medicina. Eu achava que Ingrid e Joyce estariam fora do radar de implicância de minha irmã por fazerem parte da família Ferreti, mas estava enganado.
— Para de bobagem, Bia — disse, tentando fazê-la entender a real situação parental entre mim e as garotas de Minas —, eu não estou flertando com as primas. Você está implicando à toa.
Outra vez os olhos dourados de Bianca foram para a garota pequena a dançar e a rir no quintal, depois, se dirigiram para Ingrid, que tagarelava com o senhor Almeida do lado de lá da calçada. Com expressão sisuda, ela então falou sem me encarar:
— Você pode não estar querendo nada com elas, mas não posso dizer o mesmo das duas com relação a você.
Engoli em seco me recordando das secadas das duas em mim no banco de trás do Honda há algumas horas e percebi logo que o fogo mineiro já estava causando estragos antes mesmo que se completassem cinco horas desde que as meninas haviam chegado a Cotia.
