Biblioteca
Português
Capítulos
Configurações

Capítulo 1 - As primas de Minas

UM FERIADO PROLONGADO já aportava no horizonte, e ao invés de viajar, a minha família havia se incumbido de hospedar por três dias as filhas adolescentes de meu tio paterno Naldo em nossa casa em Cotia, São Paulo.

Ingrid, a mais velha, e Joyce, a caçula, haviam nascido em Minas Gerais, num município chamado Capitólio, a trezentos quilômetros da capital Belo Horizonte, e nunca haviam conhecido São Paulo. A ideia da viagem tinha partido do meu tio durante uma ligação telefônica com o meu pai, Francisco. Suas filhas ansiavam por conhecer a cidade que só viam pela internet e também se diziam eufóricas para reencontrar os primos que não viam há muito tempo, desde que ainda eram crianças.

Durante um período bastante longo, nós simplesmente havíamos perdido o contato com nossos familiares mineiros. Minha mãe era corretora de imóveis, meu pai trabalhava com vendas e raramente tínhamos tempo livre em nossas agendas apertadas para visitas a parentes, em especial, os que moravam longe. Eu não via as meninas há muitos anos, tinha péssimas lembranças das duas pirralhas da primeira vez que as tinha conhecido, e sempre que alguém citava seus nomes, eu só lembrava das palavras “irritante” e “inconveniente”.

Eu e minha família havíamos viajado para Minas Gerais para celebrar o aniversário de onze anos da mais velha Ingrid, e tudo de errado que podia acontecer no trajeto acabou acontecendo, como bem previa a velha Lei de Murphy. Meu pai havia cismado em ir de carro até o estado vizinho visitar o irmão e naquele fim de semana, nem bem saímos de São Paulo, o Honda que ele dirigia na época resolveu enguiçar.

No carro, além de mim e de meus pais na frente, estavam também minha irmã Bianca e meu irmão Diogo, os três espremidos no banco de trás. A minha irmã caçula, Aline, que estava gripada na época, tinha ficado aos cuidados da nossa vizinha Leila e não tinha podido nos acompanhar na jornada, para a sua sorte.

Passamos horas até que o guincho do seguro aparecesse para nos salvar e isso, claro, sob uma chuva torrencial que desabava na cidade. Seguimos o restante do caminho de ônibus e a viagem foi interrompida mais uma vez quando, por conta das chuvas fortes, uma árvore desmoronou de uma encosta e acabou atravessada na pista que interligava os estados.

Aquela viagem mais parecia um pesadelo. Acabamos chegando cansados e mal-humorados à festa de Ingrid, e tudo isso para que acabássemos tendo que suportar duas meninas extremamente mimadas e inconvenientes que passaram a comemoração inteira de nariz empinado e reclamando de tudo, incluindo de nossos presentes.

Por causa das lembranças ruins que guardava do fatídico fim de semana em que os Ferreti haviam resolvido viajar para Minas Gerais e de toda a má educação das primas em nossa chegada, dava para imaginar a razão da minha contrariedade em recepcionar as duas garotas no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Infelizmente, para o meu azar, naquela tarde, eu era o único motorista da família disponível no horário do desembarque, por isso, coube a mim fazer o sacrifício.

O Honda de meu pai — esse, uns dois modelos mais novo que o que enguiçara na viagem à Minas — deslizou suave na pista a caminho do aeroporto e para me preparar para o encontro com as duas mimadas, deixei tocar a viagem toda no rádio a minha playlist favorita de Hip-Hop, a fim de extravasar um pouco.

O voo de Belo Horizonte estava marcado para aterrissar por volta das onze da manhã em Guarulhos e consegui chegar ao local faltando trinta minutos. Enquanto aguardava do lado de fora da área de desembarque, troquei mensagens com Glauce, minha namorada, e aproveitei para mandar algumas fotos mais ousadas da galeria via WhatsApp, a fim de aguçar a sua imaginação.

Apesar de toda a implicância que sofria por parte do pai da garota que não via em mim um modelo adequado de genro, eu e ela nos dávamos muito bem. Por conta da faculdade de medicina que Glauce cursava, nós tínhamos agora poucos momentos para curtirmos juntos e até que chegassem os finais de semana, era por mensagem que matávamos a saudade.

Adorava provocá-la quando estávamos longe. Fotos eróticas, mensagens de áudio sacanas e textos mais quentes ajudavam a manter o fogo do relacionamento aceso. Nós dois adorávamos.

“Assim você me deixa suada… por cima e por baixo! ”.

Sua resposta à minha foto me abriu um sorriso no rosto. Eu estava parado ao lado do Honda, encostado em sua lataria e aquele era um dia bastante ensolarado de temperatura elevada na cidade.

Eu sabia que aquele horário ela devia estar em aula, mas passados dez minutos, Glauce me retribuiu o apelo visual com uma foto tirada num ângulo de baixo para cima da própria vagina, inteira depilada e úmida. O cenário ao fundo indicava que ela estava num cubículo de banheiro, mas só prestei a atenção mais tarde. Tinha ficado bastante empolgado e respondi usando caixa alta na mensagem para enfatizar:

“NÃO VEJO A HORA DE VER ESSA COISA LINDA BEM DE PERTO! ”.

Enquanto trocava mensagens safadas com Glauce através do WhatsApp, o tempo voou em frente ao aeroporto e o avião das primas pousou na pista algum tempo depois. Me posicionei no portão de embarque de uma forma que Ingrid e Joyce conseguissem me ver, depois, tirei o boné que usava na cabeça para evidenciar meu rosto. Minha camiseta vermelha com o logotipo branco e amarelo do Flash também ajudava bastante na identificação, e apesar do fato de que não nos víamos pessoalmente há anos, eu imaginava que não tinha mudado tanto fisicamente a ponto de não ser reconhecido.

O voo estava relativamente vazio e poucas adolescentes com cara de mimadas saltaram dele, o que fez com que eu identificasse logo Ingrid e Joyce. A primeira, loira de cabelos bem lisos, estava usando óculos escuros, blusinha decotada fazendo conjunto com um short jeans e calçava um tênis branco nos pés. A segunda, de cabelos castanhos, era bem baixa, usava calça legging justa e um cropped mostrando a barriga. As malas que elas arrastavam pelo piso do aeroporto eram enormes e tão logo me viram, acenaram sorridentes. Me aproximei para pegar sua bagagem e uma a uma as garotas me abraçaram e me beijaram no rosto em cumprimento.

— Há quanto tempo, Caíque! — Disse a mais velha, pendurada em meu pescoço.

— Nossa! Que saudades, primão! — Confessou a menor.

Durante aquele abraço apertado e caloroso, toda minha cisma com as meninas desapareceu no ar, como vapor d’água. Pela primeira vez em muitas horas, eu estava feliz com a ideia de servir de chofer para as primas de Minas Gerais e não havia outra posição em que eu mais gostaria de estar naquele instante. As duas tinham crescido… e muito!

Algum tempo depois, já dentro do Honda, as mineiras aproveitaram para curtir a vista do lado de fora da janela e conduzi o carro em velocidade baixa para que ambas tirassem as primeiras fotos da cidade com seus celulares. Estavam sentadas juntas no banco de trás e pareciam realmente impressionadas com a selva de pedra a seu redor.

— Uai, mas é tudo grande demais, sô! Olha quanto prédio!

Ingrid chegou a filmar alguns trechos da pista que nos conduzia de Guarulhos de volta a Cotia. Eu tinha saído da BR-160 e seguia pela Rodovia Ayrton Senna, aumentando um pouco a velocidade para obedecer às placas de trânsito.

— Estão gostando da vista?

Perguntei, puxando assunto enquanto as observava pelo retrovisor. As expressões nos rostos das duas demonstravam que estavam curtindo muito a viagem.

— Lá em Capitólio a gente mora num lugar cercado de mato. A cidade mais próxima fica a uns 10 quilômetros de lá… mas em São Paulo, o trem é só prédio pra tudo quanto é canto. Tô adorando!

Joyce era uma garota extremamente bonita com covinhas charmosas formadas nas bochechas quando sorria. Quando criança, tinha feição quase sempre raivosa e parecia de mal com o mundo. Aquilo obviamente tinha mudado. Tirou uma foto da paisagem cinza com a câmera do smartphone apontada para a janela, logo em seguida, se inclinou no banco e me tocou o ombro.

— Vai nos levar pra conhecer tudo, né, Caíque?

Sorri em retribuição e acenei que sim.

— Pelo menos, o que estiver ao meu alcance.

Ela me lançou um olhar entre o curioso e o malicioso, depois, tornou a se sentar ao lado da irmã e as duas voltaram a curtir a vista, uma de cada lado da janela.

Os 64 km que separavam o aeroporto de Cotia foram longos e no percurso, descobri que as minhas primas eram bem faladeiras. Como diziam no interior, as duas pareciam que tinham “engolido uma matraca”, mas foi assim que as conheci melhor e passei a entender que aquela primeira impressão de anos atrás havia desaparecido totalmente.

— O tio Naldo não contou nada sobre São Paulo a vocês? Ele já esteve aqui algumas vezes.

Naldo era o irmão mais novo de meu pai e havia três anos de diferença entre os dois. Casado com a tia Anabela, tinha se mudado para o estado de Minas Gerais há mais de uma década e a viagem para o aniversário de onze anos da Ingrid tinha sido a primeira e última vez que eu havia visitado a casa da família em Capitólio. Por conta de seu trabalho como despachante, de vez em quando, meu tio visitava São Paulo e sempre nos presenteava com vidros de doce de leite, compotas de frutas diversas e peças generosas do legítimo queijo de Minas. Eu adorava.

As duas se viraram para a frente e foi Ingrid quem me respondeu:

— Só que o trem é grande e que tem gente pra mais de metro!

Estava fascinado com aquele sotaque gostoso. Era bom ouvi-las falar, mas pelo espelho, logo percebi que a audição não era o único sentido agraciado com a presença das duas dentro do carro. Estava difícil me concentrar na direção com o decote da loira e o sorriso da morena e precisei de toda a minha força de vontade para que não as ficasse encarando constantemente. Joyce percebeu uma de minhas olhadas e voltou a se inclinar.

— Você tá bonito, primo. Você malha? Pratica esportes?

Eu treinava desde os quatorze anos num clube de futebol situado em Cotia e não perdi a chance de me gabar:

— Eu sou jogador de futebol. Treino toda semana.

Aquela informação não pareceu ser uma surpresa para Ingrid que ficou sorrindo, mexendo num chumaço de cabelo dourado entre os dedos. Joyce se arreganhou num riso alto e completou:

— Tá explicado então porque tá todo fortinho. Não era assim a primeira vez que nos vimos lá em Capitólio.

Eu era alguns anos mais novo na época e ainda não treinava tanto a parte muscular. Atualmente, estava perto de me tornar profissional no clube e preparar a parte aeróbica era tão importante quanto a física.

— Vocês também cresceram bastante — elas sorriram lisonjeadas no banco de trás —, confesso que fiquei surpreso quando vi as duas andando pelo saguão do aeroporto já tão moças…

Ingrid encontrou meus olhos pelo espelho superior do Honda e disse, sem meias-palavras:

— Você ainda não viu nada, primão. Nada mesmo!

Baixe o aplicativo agora para receber a recompensa
Digitalize o código QR para baixar o aplicativo Hinovel.