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Capítulo 4

Uma semana se passou desde a conversa com Leonardo, e Aurora não conseguiu tirar da cabeça a sensação de que havia muito mais por trás de suas palavras do que ele deixava transparecer. Os dias na Costa e Navarro seguiram intensos. Projetos, reuniões, reuniões de alinhamento técnico, visitas a obras e anotações apressadas no caderno de campo se tornaram rotina.

Leonardo continuava enigmático. Cordial, profissional... mas sempre mantendo uma distância estratégica. Como se estivesse constantemente avaliando tudo e todos ao seu redor. Brenda e Lima, por outro lado, mostravam-se mais acessíveis. Ajudavam Aurora com dúvidas técnicas, compartilhavam experiências de campo e, aos poucos, ela foi conquistando seu espaço.

Apesar disso, a desconfiança continuava ali, latente.

Naquela sexta-feira à noite, Aurora estava na faculdade, em um trabalho de grupo na biblioteca. O tema era análise de viabilidade arquitetônica em áreas urbanas. Cada integrante deveria apresentar uma proposta para um lote fictício.

— Aurora, você vai sugerir o quê? — perguntou Clara, colega de turma, enquanto digitava no notebook.

— Hã? — Ela piscou, voltando à realidade. — Desculpa... eu tava pensando numa solução mista, tipo comercial e residencial.

— Boa. Mas cê tá bem? Tá meio aérea desde que chegou.

— Tô cansada, só isso — mentiu, forçando um sorriso.

Clara assentiu, mas não pareceu convencida. Aurora tentou voltar ao foco, mas sua mente voltava sempre para as palavras de Leonardo. Por mais que tentasse se convencer de que era paranoia, havia um nó na garganta que não desatava.

No domingo, ela foi almoçar na casa da mãe, como fazia sempre que podia. A mesa estava posta com arroz, feijão, frango assado e salada a combinação afetiva que cheirava a infância.

— E o estágio, filha? — a mãe perguntou enquanto servia suco de maracujá.

— Tá puxado, mas eu tô gostando. O ambiente é bem diferente da faculdade, sabe? As decisões são todas rápidas. Cada detalhe importa. — Ela parou por um segundo, escolhendo as palavras. — Mãe… posso te perguntar uma coisa sobre o pai?

A mulher parou de cortar a alface, com o olhar atento.

— Claro. Pode perguntar.

— Ele... quando foi preso, você achava que ele sabia o que tava fazendo? Digo... ele sabia no que tava se metendo?

A mãe hesitou. Respirou fundo, como quem escolhe com cuidado entre o que dizer e o que esconder.

— O Marcelo sempre foi muito correto, Aurora. Mas ele confiava demais nas pessoas. Trabalhava com uns nomes grandes, gente importante… e a verdade é que ele nunca quis te envolver nos detalhes. Só dizia que fazia o que precisava pra garantir nosso sustento. — Ela mexeu na jarra do suco. — Quando tudo aconteceu, ele só me disse uma coisa: "Confiei na pessoa errada."

Aurora assentiu, sentindo um arrepio subir pela espinha.

— Ele já trabalhou com alguém da Costa e Navarro?

A mãe levantou os olhos, surpresa.

— Acho que não… pelo menos nunca comentou. Por quê? Acha que tem alguma ligação?

— Não sei — mentiu. — Só fiquei pensando se ele tinha contatos nessa área. Às vezes os nomes se repetem.

A mãe não respondeu de imediato. Apenas passou a mão nos cabelos curtos, pensativa.

— Olha, eu posso dar uma olhada nos papéis antigos se quiser. Tem uma caixa no armário com algumas coisas do trabalho dele. Relatórios, contratos… talvez ache algum nome conhecido.

Aurora tentou disfarçar a ansiedade.

— Seria ótimo, mãe. Se não for muito incômodo.

— Claro que não. Depois do almoço a gente pode ver.

Enquanto comia, Aurora tentava manter o assunto leve. Mas por dentro, a sensação de que estava se aproximando de algo concreto era quase insuportável.

Talvez, naquela caixa esquecida no armário, estivessem os primeiros traços de uma verdade que ninguém nunca teve coragem de contar em voz alta.

E ela estava pronta para descobrir.

Ou pelo menos, achava que estava.

Após o almoço, Aurora foi para o escritório que o pai montou dentro de casa, lugar onde passava horas e horas trabalhando.

Aurora continuou revirando os papéis, sem encontrar nada realmente interessante. Os documentos estavam desordenados, com anotações dispersas, contratos antigos e projetos que o pai havia feito ao longo dos anos. Nada que parecesse relevante para o momento. O tempo estava passando, e a sensação de frustração só aumentava.

Foi então que, ao fundo da gaveta, ela encontrou uma folha de papel mais amassada, com a tinta desbotada e algumas palavras difíceis de ler. Sem fazer muito barulho, ela puxou o pedaço de papel com cuidado. A caligrafia estava quase apagada, mas o que realmente chamou sua atenção foi o sobrenome.

O sobrenome "Navarro" estava ali, parcialmente visível, e algo dentro dela se revirou. Era o sobrenome de Leonardo. A ligação não podia ser mera coincidência. Mas o que isso significava? O que o nome de Leonardo fazia em um dos documentos do pai dela?

Aurora sentiu o coração acelerar. Aquele papel poderia ser a chave para entender algo mais profundo, algo que ela ainda não compreendia completamente. Sem pensar muito, ela dobrando a folha de maneira cuidadosa e a guardou na bolsa. Não queria que a mãe visse, nem que ela soubesse o que estava pensando.

— Mãe, acho que já peguei tudo o que eu precisava. — disse, voltando para a sala de jantar com um sorriso disfarçado, como se nada tivesse acontecido.

A mãe levantou os olhos de seu prato, um pouco surpresa, mas sem questionar nada.

— Ah, que bom. Vai ficar tarde, é melhor não ficar mexendo muito nesses papéis. Sabe como era o seu pai, né? Ele deixava tudo amontoado, mas às vezes se organizava… — Ela falou sem realmente perceber o que estava acontecendo. — Então, o que você vai fazer agora?

Aurora tentou disfarçar a tensão que começava a crescer dentro dela.

— Vou estudar um pouco mais, mãe. Preciso entregar um trabalho essa semana.

A conversa continuou, mas Aurora não conseguia mais focar. O papel com o nome "Navarro" estava lá, na sua bolsa, como uma peça de um quebra-cabeça que ela ainda não sabia como montar.

Depois do almoço, ela se despediu da mãe e saiu, a mente turbilhonando de perguntas. O que poderia ter sido aquele papel? Por que o nome de Leonardo estava relacionado com o seu pai? Ela sabia que precisava descobrir mais, mas não sabia por onde começar.

Enquanto dirigia de volta para o apartamento, a única coisa que se passava em sua mente era o nome "Navarro". Tudo parecia se conectar de maneira estranha e desconcertante, e a sensação de que algo estava errado crescia a cada minuto.

Chegando em casa, ela foi até sua mesa, pegou o papel e o esticou sobre a superfície. Tentou analisar cada linha, cada palavra, mas as informações eram escassas. O documento estava incompleto, e a tinta apagada dificultava ainda mais a leitura.

Ela se levantou e foi até a estante de livros. Puxou um volume sobre a história do bairro onde o pai costumava trabalhar. Havia um capítulo sobre empreendimentos e grandes empresários, uma parte onde seu pai aparecia em algumas menções, mas o livro estava tão antigo que não parecia trazer muitas informações novas.

Ainda assim, não podia deixar de sentir que esse sobrenome, esse Navarro, era a chave. Ele estava ligado a algo que seu pai havia feito, e agora estava, de alguma forma, ligado a Leonardo. Ela sabia que precisava seguir essa pista, mas como? E qual seria a reação de Leonardo se soubesse que ela estava cavando no passado dele?

O pensamento a consumia. Mas uma coisa era certa: não iria descansar até descobrir o que estava por trás daquele nome. E, mais importante, o que Leonardo sabia sobre seu pai.

Ela guardou o papel de volta na bolsa e, naquele momento, algo em sua mente se acendeu. O nome "Navarro" não era só o sobrenome de Leonardo. Ele poderia ser a chave para entender o que realmente aconteceu com o seu pai, e o que ele, de fato, havia feito. Ela só não sabia o quão perigoso seria se continuar nessa busca.

Aurora respirou fundo, fechando a bolsa. A jornada para descobrir a verdade estava apenas começando.

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