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Capítulo 3

Aurora acordou mais cedo do que precisava. O sono fora inquieto, entrecortado por sonhos embaralhados com projetos, elevadores e olhos escuros demais para esquecer.

Enquanto escovava os dentes no pequeno banheiro do seu apartamento, ouviu o celular vibrar. Era uma mensagem da mãe.

“Bom dia, filha. Conseguiu dormir? Seu pai perguntou de você ontem… disse que sonhou com a gente em casa, tomando café juntos. Fiquei sem saber o que responder.”

Ela respirou fundo, sentindo o peito pesar. Respondeu com um simples “também sonhei com ele” e guardou o celular. Não era fácil falar do pai. Nunca fora. Desde que ele fora preso há quase dois anos, a casa havia silenciado. A vida continuou, mas os espaços vazios nunca foram preenchidos de verdade.

Ela saiu de casa com os fones no ouvido, tentando ocupar os pensamentos com a apresentação do projeto. Quando chegou na empresa, foi recebida por Brenda, que já arrumava tudo para a reunião com o cliente.

— Tá nervosa? — ela perguntou, vendo Aurora ajeitar a gola da camisa.

— Um pouco, né… segundo dia e já tô em reunião — riu, meio nervosa.

— Relaxa. Leonardo vai estar lá. E quando ele tá na sala, ninguém ousa abrir a boca demais. — Brenda piscou, como se dissesse mais do que falava.

Dez minutos depois, a sala de vidro do andar de cima já estava ocupada por quatro pessoas: o cliente, Brenda, Lima e Leonardo, que entrou por último, sem pressa, com a postura impecável e os olhos focados como se já soubesse o desfecho da conversa antes dela começar.

Aurora ficou ao fundo, observando, enquanto Brenda apresentava a ideia da fachada. O cliente pareceu gostar, Lima mostrou os detalhes técnicos, e Leonardo… apenas escutava. Imóvel. Quando todos terminaram, ele se levantou, foi até a projeção e, com uma fala contida, fez uma observação direta.

— A proposta é boa, mas vamos pensar no tipo de gente que frequenta o bairro. A fachada precisa conversar com o entorno, mas sem parecer que a gente tá tentando enfeitar demais. Senão desvaloriza o projeto.

E então, seus olhos passaram rapidamente por Aurora.

— Quem pensou nessa estrutura ripada?

Brenda apontou discretamente para ela.

— Aurora deu a ideia ontem.

Leonardo assentiu, lentamente.

— Foi uma boa leitura. Gosto quando olham pro que tá fora da folha.

Ela sentiu um misto de orgulho e desconforto. O jeito que ele falava era firme, mas havia algo mais — como se tudo o que dissesse tivesse um peso extra. Como se cada elogio fosse medido, como moeda.

A reunião terminou bem, e enquanto o cliente se despedia, Leonardo permaneceu na sala. Ele observava a vista da cidade pela parede de vidro. Quando todos saíram, Aurora hesitou, mas acabou se aproximando.

— Obrigada pelo elogio… eu ainda tô me adaptando — disse, sem saber bem se era o momento certo.

— E tá fazendo isso rápido — ele respondeu, sem virar o rosto. — Eu gosto de gente que observa antes de falar. Fica aqui tempo suficiente, vai entender que isso é mais útil do que parece.

Aurora forçou um sorriso.

— Vou lembrar disso.

Quando virou para sair, Leonardo falou, mais baixo:

— Seu pai… Marcelo, né?

Ela parou. O nome dito naquela voz causou um arrepio desconfortável.

— Conheceu ele? — perguntou, virando-se lentamente.

— Já ouvi falar. — Ele enfim encarou ela. — Ele trabalhou anos com gente grande, um ótimo Engenheiro, já prestou serviços para empresas parceiras. Mas fez parte do grupo errado. No fim, foi quem pagou pelo erro dos outros.

Aurora travou. Como ele sabia disso? E por que parecia… saber mais do que dizia?

— Você sabia que ele foi preso? — perguntou, surpresa pela própria coragem.

Leonardo a olhou por um instante mais longo.

— Todo mundo que tem poder sabe das histórias que correm por aqui. — Depois disso, ele virou-se novamente para a janela. — Mas nem toda história é contada do jeito certo. Pode acreditar...

Não tinha entendido muito bem o que ele queria dizer com isso, e ao mesmo tempo teve medo, sentiu medo! O escândalo dos crimes que seu pai supostamente se envolveu poderia a atrapalhar de alguma forma.

Na verdade, poderia mesmo a afetar?! Quando quem conhece ele coloca a mão no fogo que, ele não era culpado, e esses dois anos a família e alguns amigos de profissão buscam provar a inocência dele...

Aurora saiu da sala com o coração disparado. Aquela conversa não foi à toa. E ele sabia. Sabia mais do que qualquer pessoa de fora deveria saber sobre o caso do pai dela. E por qual motivo saberia das informações?

Sentou na própria mesa e tentou focar no projeto, mas a mente insistia em voltar para aquela última frase.

"Nem toda história é contada do jeito certo."

Algo estava errado.

E talvez, o homem que acabara de elogiar sua sensibilidade para fachadas, fosse o mesmo que, por trás de um terno bem cortado, escondia os tijolos de uma história muito mais sombria. onde seu pai não fora só um peão. Mas o sacrifício.

Durante o resto do dia, Aurora não conseguiu tirar Leonardo da cabeça. O jeito como ele falara do pai dela, a escolha das palavras, o tom de voz... tudo parecia ter sido calculado para dizer o suficiente, mas nunca demais. Como se soubesse até onde podia ir, ou até onde queria que ela soubesse.

Ela tentou se convencer de que podia estar imaginando coisas. Talvez ele tivesse apenas escutado rumores. Afinal, seu pai era um engenheiro renomado antes da prisão, envolvido em grandes projetos na cidade. Não seria impossível alguém do meio tê-lo conhecido.

Mas ainda assim... algo não se encaixava.

Na hora do almoço, ficou sozinha num dos sofás da área comum da empresa, o prato esquecido no colo. Pensava nas palavras dele como quem revirava peças de um quebra-cabeça sem imagem de referência. "Pagou pelo erro dos outros." Aquilo não soava como um comentário aleatório. Parecia... pessoal.

Será que Leonardo tinha alguma ligação com o passado do pai? Ou pior, será que ele fazia parte dos "outros" que Marcelo havia pago por?

NÃO! NÃO PODE SER!

O coração dela batia acelerado com essa possibilidade. Queria ligar para a mãe, perguntar mais detalhes, cavar memórias antigas, mas ao mesmo tempo... temia as respostas.

No fundo, ela sabia, havia mais por trás daqueles olhos escuros e da voz controlada. E a intuição que sempre a guiara nos projetos agora pulsava dentro dela, avisando que Leonardo não é apenas o seu chefe.

Supostamente é a chave para entender o que realmente aconteceu com seu pai.

Mas, Aurora escolheria investigar algo colocando em jogo a oportunidade que está tendo? Vendo pelo ângulo que seu chefe se mostra satisfeito com seu trabalho, mesmo tendo pouco tempo na empresa. Valeria a pena o risco?

À noite, Aurora seguiu para a faculdade. Era dia de aula de Projeto Executivo, e o professor já havia avisado que cobraria uma pesquisa técnica sobre sistemas construtivos modernos. Mas, por mais que tentasse se concentrar nas anotações e nos artigos abertos no notebook, sua mente insistia em revisitar a conversa com Leonardo.

Sentada na biblioteca, entre pilhas de livros e plantas baixas antigas, ela olhava para a tela vazia do documento como se esperasse que alguma resposta surgisse dali. As palavras dele ecoavam como um mantra inquietante.

“Fez parte do grupo errado.”

“Pagou pelo erro dos outros.”

“Nem toda história é contada do jeito certo.”

Ela fechou o notebook por um momento, apoiando o queixo nas mãos.

E se o projeto que está começando na Costa e Navarro a levasse mais fundo nessa história do que jamais imaginou? E se o estágio que para ela era apenas um passo profissional fosse, na verdade, o início de algo muito maior?

Uma espécie de acerto de contas com o passado?

A biblioteca estava silenciosa, quase vazia. Mas dentro dela, o barulho era ensurdecedor. Algo estava para acontecer. Ela sentia.

E Leonardo... estava bem no centro disso tudo.

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