Capítulo 5
Aurora passou a semana com a cabeça mergulhada em pranchas, cálculos e dúvidas que iam além das técnicas. No trabalho, Leonardo seguia como sempre: postura impecável, palavras medidas, olhar de quem vê tudo sem dizer quase nada. Mas havia uma diferença agora — um detalhe sutil nos olhares que trocavam nos corredores ou durante as reuniões, como se ambos soubessem de algo que ainda não podia ser dito em voz alta.
Ela carregava o papel dobrado cuidadosamente dentro do estojo da faculdade. Era uma folha antiga, com a marca de um contrato desbotado. E, no rodapé, o sobrenome “Navarro” quase apagado pelo tempo. Poderia ser coincidência… mas Aurora não acreditava em coincidências desde que seu pai fora preso.
No domingo, ela voltou à casa da mãe. Almoçaram juntas, como de costume, mas dessa vez Aurora manteve o assunto leve, desviando de qualquer pergunta mais direta. Após a sobremesa, foi até o armário onde estavam guardados alguns documentos antigos do pai. A caixa estava empoeirada, cheia de pastas desorganizadas e papéis amarelados. Vasculhou tudo com cuidado, mas além daquela folha, nada parecia relevante.
Ainda assim, era um fio. Um ponto de partida.
Na segunda-feira, chegou cedo à Costa e Navarro. Havia uma certa movimentação diferente no escritório: um novo projeto fora aprovado, e parte da equipe passaria a trabalhar no canteiro de obras durante a semana.
— Leonardo quer que alguém acompanhe a medição com a equipe da engenharia hoje — comentou Brenda, enquanto organizava os papéis na mesa. — Você tá por dentro do projeto do centro comercial, né?
— Tô sim — respondeu Aurora.
— Então vai com ele. — Brenda sorriu de lado. — E boa sorte. Ele é exigente pra caramba quando tá em obra.
O carro da empresa já estava à espera. Leonardo entrou primeiro no banco do motorista e olhou para ela, com um leve aceno de cabeça.
— Vamos?
No trajeto, o silêncio não era desconfortável, mas carregado de possibilidades. Aurora tentava controlar a ansiedade. O nome na folha voltava à mente como um lembrete constante. Não podia perguntar. Ainda não. Mas poderia observar. Juntar peças.
— Você costuma fazer esse tipo de visita sempre? — ela perguntou, tentando soar casual.
— Nem sempre. Só quando quero garantir que as coisas saiam como imaginei — respondeu, sem tirar os olhos da estrada.
Aurora riu, levemente.
— Perfeccionista?
— Pragmático. — Ele sorriu de canto. — O que a gente projeta no papel morre fácil se não ficar em cima na execução.
A conversa deslizou entre assuntos leves: o projeto, o terreno, os erros comuns em obras. Em certo momento, quando estacionaram perto do canteiro, ele desceu e contornou o carro para abrir a porta para ela. Um gesto simples, mas inesperado.
Aurora sentiu o rosto esquentar.
— Obrigada… — disse, meio sem saber para onde olhar.
— É só educação — ele respondeu, mas o olhar demorou um pouco mais que o normal no rosto dela.
Durante a visita, Aurora percebeu como ele se comportava fora do escritório. Imponente, mas acessível. Sabia o nome de quase todos os operários, fazia perguntas diretas e tinha um jeito calmo, porém firme, de comandar.
Em um momento, pararam próximos a uma laje em fase de concretagem. Aurora tirou fotos, fez anotações, e Leonardo se aproximou.
— Gosta de vir a campo? — ele perguntou.
— Gosto. Faz tudo parecer mais real. Na faculdade, a gente vive muito na abstração… aqui, o concreto é literal.
Ele riu, breve.
— Boa analogia. — E então, a encarou. — Você observa bem. Seu pai também era assim?
Aurora congelou por dentro, mas manteve o rosto tranquilo.
— Era… um pouco. Ele era engenheiro. Gostava de detalhes — respondeu, sem se aprofundar.
Leonardo apenas assentiu, desviando o olhar para a estrutura à frente.
Nada mais foi dito sobre o assunto. Mas aquele momento ficou marcado. Como se ambos tivessem pisado, ainda que por um segundo, numa linha invisível.
Ao final do dia, no carro de volta, Aurora olhava pela janela enquanto pensava em tudo aquilo. O nome Navarro, o comportamento dele, a conexão com o pai…
Mas, mais do que isso, sentia algo diferente crescer dentro dela. Algo que não tinha nada a ver com investigação ou culpa. Era o jeito que ele falava. O silêncio que ficava quando ele parava de olhar. A presença dele, tão firme, tão cheia de segredos.
Quando notou, Leonardo não seguiu o caminho de volta para o escritório.
— Esse não é o caminho... — comentou Aurora, confusa.
— Eu sei. — Ele lançou um olhar de canto, contido, mas com uma ponta de sorriso. — Você trabalhou muito bem hoje. E me acompanhou sem reclamar, mesmo com o sol, a poeira e a tensão de obra. Então… tô te devendo um jantar.
— Jantar? — ela arregalou os olhos, surpresa.
— Como agradecimento — disse, com naturalidade. — Sem segundas intenções, se você preferir assim.
Aurora hesitou por alguns segundos, mas não conseguiu evitar o sorriso que surgiu no canto dos lábios.
— Acho justo.
Talvez ela ainda estivesse investigando. Talvez ele ainda escondesse mais do que revelava. Mas, por ora, havia um convite. Um momento. Um possível começo.
Ele a levou a um restaurante pequeno, com luz baixa e ambiente acolhedor, escondido entre ruas discretas do Méier. Não era o tipo de lugar que impressionava pela ostentação, mas pelo bom gosto.
Aurora olhou ao redor, admirando os detalhes do restaurante. Havia plantas pendendo do teto de madeira, luzes âmbar que criavam sombras suaves nas paredes, e uma trilha sonora de jazz que preenchia os silêncios sem sufocar.
Leonardo observava o menu com uma calma que a deixava inquieta.
— Vai de vinho tinto ou branco? — ele perguntou, desviando o olhar para ela, com uma expressão relaxada.
— Tinto. Mas nada muito seco — respondeu, ainda distraída pelos próprios pensamentos.
Ele assentiu, fez o pedido, e quando o garçom se afastou, pousou os braços sobre a mesa, entrelaçando os dedos.
— Você parece estar com a cabeça em outro lugar — comentou, com o tom mais baixo, quase como se não quisesse interromper demais o que quer que ela estivesse pensando.
Aurora forçou um sorriso, ajeitou os talheres.
— Semana puxada. Só isso.
Leonardo não insistiu. Apenas sorriu de leve, como se já tivesse lido mais do que ela estava disposta a dizer.
— Sabe o que eu gosto desse lugar? — ele disse, mudando de assunto. — Ninguém vem aqui pra aparecer. Só pra estar.
— E você gosta de... só estar? — ela perguntou, inclinando-se um pouco à frente.
Ele soltou um leve riso nasal.
— De vez em quando. Estar em paz é luxo.
Aurora apoiou o queixo sobre a mão, estudando-o com atenção.
— Você fala como alguém que já viveu guerra.
— Talvez tenha vivido — respondeu, sem encarar. Depois levantou os olhos devagar. — Nem toda guerra tem trincheira. Às vezes ela está... nas escolhas que a gente faz.
O garçom chegou com o vinho. A tensão foi quebrada pelo tilintar das taças.
— Ao quê? — Leonardo perguntou, levantando a dele.
Aurora pensou por um segundo e sorriu, sutil.
— Ao luxo de estar em paz.
Brindaram. Um silêncio breve. Um gole.
— Você me surpreende — ele disse, ainda com a taça na mão.
— Por quê?
— Porque, apesar da sua idade, você não parece perdida. Parece só... em busca.
Ela deu uma risadinha, sem esconder o ar enigmático.
— Talvez eu esteja perdida e só disfarce bem.
— Ou talvez esteja só esperando as respostas certas — ele murmurou.
Aurora o olhou mais intensamente, querendo decifrá-lo. Ele sustentou o olhar, sem fugir.
Era como uma dança silenciosa, um jogo de presença e intenções não ditas.
O jantar terminou com sorrisos discretos. Leonardo pagou a conta com naturalidade e a acompanhou até o carro. Durante o trajeto de volta, a conversa foi mais suave, embalada pela trilha baixa do rádio.
Quando pararam em frente ao prédio de Aurora, ele não desligou o motor imediatamente.
— Foi uma boa noite — ele disse, virando-se ligeiramente para ela.
— Foi sim — respondeu Aurora, com um sorriso pequeno, quase contido.
Ela estava prestes a abrir a porta quando ele falou novamente:
— Sabe, você tem uma presença que… mexe com o ambiente. É difícil não reparar.
Aurora virou o rosto lentamente para ele, surpresa. O coração acelerou num compasso irregular.
— E você tem esse jeito de deixar as pessoas confusas… mas curiosas — devolveu, encarando-o por um instante mais longo do que o necessário.
Houve uma pausa carregada. Ele se inclinou um pouco, não o bastante para cruzar a linha, mas o suficiente para deixar no ar a tensão.
— Boa noite, Aurora — disse ele, num tom mais baixo.
Ela hesitou por um segundo antes de responder:
— Boa noite, Leonardo.
E saiu do carro com a sensação de que, se tivesse ficado mais um minuto, algo mudaria de vez.
Subiu com o coração em descompasso. O papel ainda guardado com cuidado na bolsa. As perguntas ainda sem resposta.
Mas agora, tudo estava misturado.
Investigar. Sentir. Desconfiar. Querer.
E Leonardo… era o centro disso tudo.
