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Capítulo 2

O sol já se despedia por trás dos prédios quando Aurora desceu do ônibus, arrastando os passos até a portaria do prédio simples onde morava, em Nova Iguaçu. A mochila nas costas pesava mais pelas emoções do que pelos cadernos. Aquela tarde tinha sido um furacão: o prédio luxuoso, os corredores silenciosos, os funcionários bem vestidos, e claro, Leonardo. O homem que parecia uma escultura viva, e que ao mesmo tempo dava a sensação de que estava sempre escondendo algo atrás dos olhos sérios demais.

Subiu os dois lances de escada até seu andar e entrou no pequeno apartamento alugado. Era simples, mas bem cuidado. Tinha paredes brancas, uma estante improvisada com livros de arquitetura, uma planta meio caída num canto e um sofá-cama aberto com lençol bagunçado. O celular vibrou na mochila. Mãe.

— Oi, filha! E aí, como foi? — A voz veio ansiosa do outro lado da linha, antes mesmo de Aurora dizer alô.

Ela tirou os sapatos e se jogou no sofá, rindo baixo.

— Foi… tenso. Mas incrível.

— Conta! Me deixa viver isso por tabela — disse a mãe, rindo.

Aurora fechou os olhos por um instante, organizando os pensamentos.

— Mãe, o escritório parece de filme. Tudo enorme, moderno, cheio de maquete, vidro, mármore… Eu juro que quase voltei pra casa quando entrei lá.

— E o chefe? Aquele tal de Leonardo?

— Misterioso. Assustador. Bonito demais. — Ela soltou um suspiro. — Mas ele foi direto. Não é simpático, sabe? Só… muito intenso. Parece que tá sempre planejando alguma coisa.

— Ih… cuidado pra não se apaixonar, hein?

— Mãe! — Aurora riu, mas o silêncio que se seguiu do outro lado deixou claro que a mãe não estava brincando tanto assim.

— Só não esquece por que tá aí. Você lutou por essa vaga, vai com tudo. Só não perde o foco.

— Eu sei, pode deixar. Amanhã começo a trabalhar de verdade. Ele disse que o Felipe vai me apresentar o pessoal.

— Então vai com seu melhor sorriso. Boa sorte, minha arquiteta preferida!

Elas se despediram, e Aurora passou o resto da noite com a cabeça entre desenhos de TCC e lembranças do escritório. O rosto de Leonardo insistia em voltar toda vez que fechava os olhos.

Na manhã seguinte, o sol ainda brigava com as nuvens quando Aurora chegou ao prédio da Costa & Navarro. A fachada era tão imponente quanto no dia anterior, mas dessa vez ela respirou mais fundo antes de entrar. Tinha o crachá pendurado no pescoço, e um pouco mais de confiança nas pernas.

Na recepção, uma moça simpática a encaminhou até um andar acima. Lá, ela foi recebida por um homem com barba por fazer, cabelo desgrenhado estiloso e uma prancheta nas mãos: Felipe.

— Você deve ser a Aurora. Vem comigo que o tour vai começar.

Ele falava rápido e sorria com facilidade. Andavam pelos corredores enquanto ele explicava:

— Aqui embaixo fica o setor de criação. A galera que bota a mão na massa com as ideias. A gente tem arquitetos, designers de interiores, estagiários… — Ele apontou para uma sala de vidro cheia de computadores. — Ali é o time de execução, que transforma nossos sonhos em plantas decentes. E do outro lado, o pessoal do 3D, render e animações.

Aurora olhava tudo com olhos grandes, absorvendo cada detalhe.

— Esse lugar é enorme…

— É, e você vai conhecer só metade hoje — ele brincou. — Mas a parte mais importante agora é essa: sua mesa.

Pararam diante de uma estação de trabalho com dois monitores e alguns blocos de notas novos. Em cima, uma maquete de projeto em andamento. Aurora quase sorriu como criança.

— Você vai ficar perto do pessoal do Ryan Lima e da Brenda. Eles vão te dar os primeiros projetos. Nada muito pesado por enquanto. Só pra você se acostumar.

— Perfeito. Eu tô animada.

Felipe a olhou com uma expressão mais séria.

— E um aviso, aqui dentro, todo mundo é gente boa, mas a gente trabalha duro. E o Leonardo… bom, ele vê tudo. Mesmo quando parece que não tá vendo.

Aurora engoliu seco e assentiu. Sabia disso desde o primeiro olhar que trocaram.

Felipe apontou o polegar por cima do ombro.

— Vou te deixar aqui por enquanto. Qualquer coisa, me chama. E bem-vinda ao furacão.

Ela se sentou, olhando em volta. O espaço estava vivo. Gente conversando sobre projetos, papel manteiga esticado sobre mesas, cafés em copos reutilizáveis. E ao mesmo tempo, a sensação de que algo mais se escondia sob aquela rotina bonita e organizada.

Aurora ajeitou a postura, respirou fundo e sorriu.

Estava oficialmente dentro.

Aurora ainda estava se ambientando quando uma moça se aproximou da mesa dela com uma pasta em mãos. Cabelos vermelhos presos num coque alto, argolas nas orelhas e um vestido preto liso, de corte reto.

— Oi! Você deve ser a Aurora, né? Sou a Brenda. Felipe me falou de você. — Ela estendeu a mão com simpatia e o sotaque arrastado de quem é da cidade.

— Oi, sim! Prazer! — Aurora levantou, apertando a mão dela, aliviada por finalmente conhecer alguém da equipe.

— Vou te passar uma coisa tranquila por enquanto, só pra aquecer. A gente tá trabalhando na reforma de um centro cultural aqui perto, e tem uma parte do projeto de fachada que precisa ser redesenhada. Nada muito complexo, mas já dá pra ver como a gente funciona.

Ela abriu a pasta e mostrou uma prancha com algumas plantas técnicas.

— Tá vendo essa lateral aqui? — apontou. — A ideia é manter os traços originais do prédio dos anos 40, mas com uma repaginação moderna. Só que o cliente tá implicando com essa marquise de vidro. Disse que achou “fria demais”.

Aurora se inclinou, analisando os traços.

— Talvez a gente possa testar uma estrutura com madeira ripada. Traz uma sensação mais aconchegante, e ainda conversa com o entorno, que tem bastante coisa antiga…

Brenda sorriu.

— Gostei. Boa leitura, hein? Se quiser, pode começar a esboçar isso num sketch rapidinho. Depois a gente alinha no 3D com o Felipe Lima.

Aurora assentiu, já animada. Abriu o caderno e começou a rabiscar as ideias com lápis e régua. Estava tão concentrada que nem percebeu quando um rapaz puxou uma cadeira ao lado. Alto, pele morena, camisa social dobrada nos cotovelos.

— E aí, nova arquiteta. Eu sou o Felipe Lima, mas todo mundo chama de Lima, pra não confundir com o outro Felipe. Tô cuidando da parte 3D desse projeto com a Brenda.

Aurora levantou os olhos e riu.

— Tava mesmo pensando como ia lidar com dois Felipes.

— Relaxa, o segredo é fingir que entendeu quem é quem e responder só quando chamarem “você aí mesmo”. — Ele sorriu e olhou para o esboço que ela fazia. — Isso aí é seu?

— Uhum… ideia pra substituir a marquise.

— Curti. Se quiser, posso te mostrar como a gente monta os volumes no Rhino. É mais fácil visualizar assim antes de levar pro render.

Os dois começaram a conversar sobre o projeto com fluidez, com Brenda entrando de vez em quando pra apontar detalhes técnicos. O ambiente, apesar do ritmo acelerado, era leve e colaborativo. A equipe parecia realmente gostar do que fazia.

Mas de tempos em tempos, Aurora sentia o olhar de alguém passando rápido demais. Aquela sensação incômoda de ser observada sem saber de onde vinha. Uma ou duas vezes, teve certeza de ver Leonardo passando ao fundo do corredor, com passos firmes, como se estivesse sempre indo pra algum lugar importante.

O resto do dia passou em um ritmo tranquilo, mas produtivo. Aurora fez o esboço, assistiu à modelagem com Lima, ouviu dicas da Brenda, e no fim da tarde já tinha a sensação de fazer parte de alguma coisa maior.

Quando foi guardar as coisas, Brenda se aproximou outra vez.

— Você manda bem, viu? Pouca gente se adapta tão rápido. Amanhã a gente apresenta o resultado pro cliente. Quer vir com a gente?

Aurora hesitou.

— Sério? Já?

— Já. É assim aqui. Bem-vinda ao olho do furacão — ela disse com um sorriso. — Mas não se preocupa, você vai pegar o ritmo.

Aurora agradeceu, ajeitando os materiais e a cabeça cheia de pensamentos. Enquanto caminhava até o elevador, cruzou de novo com Leonardo no corredor. Ele passou por ela como se não a tivesse notado, mas ao virar o rosto por um instante, os olhos deles se cruzaram. E havia algo ali. Uma intensidade diferente. Rápida. Quase imperceptível. Mas suficiente pra Aurora ficar alguns segundos parada, encarando a porta fechada.

Como se algo tivesse começado, mesmo que ela ainda não soubesse o quê.

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