Capítulo 1
As nuvens corriam preguiçosas sobre o céu do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói quando ela desceu do ônibus, segurando firme a alça da bolsa surrada no ombro. A calçada ainda respirava a umidade da chuva da madrugada, mas o sol já dava seu jeito de secar tudo, como se dissesse que o novo dia não aceitava lembranças da noite anterior.
Aurora, nome dado em homenagem a um fenômeno da natureza que seu pai amava, olhava para o prédio espelhado à sua frente como se ele fosse uma espécie de universo à parte. Alto, imponente, com as letras metálicas brilhando na entrada "Costa & Navarro Arquitetura e Desenvolvimento".
Ela respirou fundo. O coração batia num ritmo acelerado, entre ansiedade e incredulidade. Era o seu primeiro dia de estágio. E não em qualquer lugar ali. Na empresa dos sonhos. Ninguém acreditou quando ela contou que tinha conseguido. Nem a mãe. Nem a vizinha do 402. Nem ela mesma. Mas de qualquer forma, sempre fora uma das melhores alunas da Faculdade, a qual faltam exatos dois semestres para se formar. Para ela mesma, estar ali era um reflexo de todos os esforços que vem tendo nesse quatro anos de cálculos e mais cálculos.
Tinha 23 anos, pele morena clara, os cabelos cacheados presos num coque improvisado, com alguns fios escapando e emoldurando seu rosto de traços delicados. Olhos castanho claros, quase dourados quando a luz do sol batia neles de jeito certo. Corpo esguio, postura ereta, como se cada passo que dava fosse uma tentativa de provar pra si mesma que pertencia àquele lugar, mesmo quando tudo dentro dela gritava o contrário. Vestia uma calça social preta de corte reto, blusa azul de botão e um tênis branco limpo, mas bem gasto. A bolsa a tiracolo denunciava o corre, pesada, velha, mas cheia de sonhos.
Entrou.
O saguão cheirava a madeira cara, café fresco e ar-condicionado potente. Era como entrar numa galeria de arte: tudo branco, concreto aparente, luminárias pendentes e um silêncio tão limpo que dava medo de quebrar. Os saltos discretos dela faziam eco nas paredes, acompanhando o som sutil de um piano instrumental que vinha de algum canto. Sentiu-se pequena, deslocada. Mas era só o começo, ela repetia mentalmente. Só o começo.
— Boa tarde. Aurora, certo? — disse a recepcionista, com um sorriso treinado, olhos atentos, vestida impecavelmente com um tailleur cinza.
— Isso, sim. Primeiro dia… — ela respondeu, tentando esconder a voz trêmula. Olhando para todos os lugares ao mesmo tempo, tentando gravar cada centímetro do imponente interior daquele prédio gigantesco.
— O senhor Costa pediu pra você subir direto. Décimo terceiro andar. Sala 1301.
— Perdão... e-ele quem vai me recepcionar no meu primeiro dia?
A recepcionista sorri com educação e uma pontada de incredulidade.
— Sim, ele é o chefe! Ele gosta de conhecer todos ao qual dá oportunidade, pode ir agora.
Senhor Costa...
O nome dele vinha carregado de boatos. Gente que falava em voz baixa sobre reuniões misteriosas, contratos sumidos, clientes que ninguém sabia de onde vinham e iam. Mas ele era também o arquiteto premiado, o CEO visionário. O homem que ergueu uma das empresas mais respeitadas do estado. Um mistério envolto em terno sob medida.
Ela apertou o botão do elevador com a ponta do dedo, tentando manter a mão firme.
No espelho do elevador, arrumou o cabelo. Prendeu a franja atrás da orelha. Passou a mão no colar simples que sempre usava, presente do pai antes da prisão. "Faça seu nome", ele dizia. Ela queria. E ia fazer. Nem que fosse engolindo a própria insegurança no café da manhã.
As portas se abriram com um suspiro metálico.
O corredor era amplo, com paredes cinza-grafite e luzes embutidas. No fim, a porta de vidro com o nome dele gravado.
Leonardo Costa. Diretor Executivo.
Ela bateu, exitante, incerta e insegura. Não sabia bem o que esperava ela a partir do momento que cruzasse essa linha.
— Pode entrar — veio uma voz grave, baixa, como um trovão preso no peito.
A garota suspirou, tão fundo que sentiu o pulmão arder, soltou o ar devagar e ensaiou um sorriso leve de lábios fechados. O choque de sua pele quente com a maçaneta gelada a arrepiou.
Entrou.
Ele estava em pé, de costas, olhando pela enorme janela que emoldurava Niterói como uma pintura viva. Camisa branca com as mangas dobradas, relógio preto no pulso, cabelo escuro bem penteado. Alto, firme, como se fosse feito de pedra.
Imponente.
Inabalável.
Poderoso.
Quando se virou, os olhos dele encontraram os dela com uma precisão quase desconfortável.
— Aurora, né? — disse, sem sorrir.
Ela assentiu, tentando não se perder naquele olhar fundo, castanho escuro como café amargo.
— Seja bem-vinda. — Ele caminhou até a mesa, pegou uma pasta. — Aqui estão os projetos que você vai revisar. Quero sua visão neles. Sem medo, ok?
Ela pegou o material. As mãos dele tocaram de leve as dela, só por um segundo. Mas foi o suficiente pra despertar algo, um arrepio, um alerta, uma faísca.
— Obrigada pela oportunidade, senhor Costa.
— Leonardo — ele corrigiu, com um leve sorriso de canto. — Senhor me faz parecer velho. E perigoso.
Ela riu, nervosa.
Velho
Não, velho não... mas perigoso...
Perigoso.
Ele não riu de volta. Só olhou. E naquele olhar havia algo além do que se via à primeira vista. Algo escondido, silencioso. Como um segredo afiado, esperando o momento certo pra cortar.
— Pode sentar ali, à direita da estante. Tem papel, caneta, água. Hoje é mais observação.
Aurora sentou, as pernas um pouco trêmulas, tentando esconder o nervosismo. Espiou os projetos. Casas modernas, linhas retas, brutalismo elegante. Cada traço tinha intenção, alma. Aquilo tudo era real. E ela fazia parte agora.
Leonardo voltou à janela. Silêncio.
Ali, entre o céu de Niterói e o carpete macio do chão, começava uma história que ela nem sonhava onde ia dar. Mas já sentia, em algum lugar dentro do peito que estava cruzando uma linha. E que o homem à sua frente era muito mais do que deixava parecer.
Perigoso.
O silêncio que se formou dentro da sala era pesado. Não era incômodo, exatamente, mas fazia Aurora se contorcer por dentro. Ela ainda tentava assimilar a imponência daquele escritório e, principalmente, do homem à sua frente. Leonardo permanecia ali, atrás da mesa imensa, absorto em algum pensamento enquanto observava a cidade pela parede envidraçada. A luz do fim da tarde entrava com intensidade, tingindo tudo de dourado, como se o tempo estivesse em suspenso.
Aurora se ajeitou na cadeira, discretamente. As mãos ainda estavam entrelaçadas sobre o colo, como quem tentava evitar demonstrar qualquer tremor. Ela não sabia ao certo o que se fazia numa primeira conversa com um CEO. Muito menos com alguém que parecia ter saído de um filme não só pelo porte físico, mas pela aura de mistério e domínio que exalava. Ela volta o olhar ao projeto que ele tinha entregue em suas mão para analisar anteriormente.
— Quarto ano? — ele perguntou de repente, sem sequer olhar diretamente para ela.
A voz dele era grave, firme. O tipo de voz que não precisava ser alta para ser ouvida.
Aurora piscou, um pouco pega de surpresa.
— Isso… É meu último ano, na verdade. — Ela forçou um leve sorriso. — Se tudo der certo, me formo no fim do semestre que vem.
Leonardo finalmente virou o rosto em sua direção, os olhos escuros estudando os dela. Não havia julgamento, mas também não havia aquela simpatia protocolar que ela esperava de um chefe. Ele parecia mais interessado em observá-la, como quem lê um projeto antes de decidir se vale a pena tirar do papel.
— Já passou pela parte das estruturas? Ou ainda está em projeto executivo?
— Já passei, sim. — respondeu com um pouco mais de firmeza. — Agora tô focada em projetos residenciais e em interiores. Também tô trabalhando no TCC.
Leonardo assentiu com a cabeça, lentamente. Depois se levantou. O movimento foi quase silencioso, mas a presença dele parecia crescer quando ele caminhava. Ele passou ao lado da mesa, parando a menos de dois passos dela, os braços cruzados.
— E o que te trouxe até aqui?
— Como assim?
— Por que a Costa & Navarro? — Ele arqueou levemente uma sobrancelha. — Tem dezenas de escritórios que aceitam estagiários no Rio. Alguns até mais famosos entre os universitários. Mas você escolheu o nosso.
Aurora hesitou. Não queria parecer bajuladora, nem insegura. O nervosismo apertou no estômago, mas ela tentou manter o tom calmo.
— Porque gosto do estilo dos projetos. E… talvez porque pareceu desafiador. Acho que aprendo melhor quando me tiram da zona de conforto.
Leonardo a observou por mais um momento em silêncio. Então, um canto de sua boca se curvou, quase imperceptível. Não era exatamente um sorriso, mas algo que pareceu próximo de um reconhecimento.
— Boa resposta.
Aurora soltou o ar de leve, sem perceber que o prendia.
Ele voltou a caminhar, indo até um aparador de madeira escura ao lado da parede, onde repousava uma maquete impecável de um prédio residencial. Pegou um pequeno controle remoto e apontou para ela — a iluminação interna da maquete se acendeu, revelando detalhes minuciosos dos andares e fachadas.
— Gosta de trabalhar com maquetes?
— Bastante. Sempre foi uma das partes que mais me empolgaram no curso.
— Então vai gostar do que vai ver aqui.
Leonardo se virou para ela, agora com um tom levemente mais informal, ainda distante, mas menos opressor.
— Seu supervisor direto é o Felipe, ele vai te apresentar à equipe e aos projetos. Eu não costumo interagir tanto com os estagiários. — Ele deu um passo adiante. — Mas gosto de saber quem entra aqui.
Aurora assentiu, mais aliviada.
— Obrigada pela oportunidade, de verdade.
Leonardo a encarou de novo, dessa vez com os olhos um pouco mais suaves, ainda intensos, mas sem o peso de antes.
— Espero que não me faça me arrepender.
Ela sorriu, sem saber exatamente o que responder. E naquele instante, percebeu: ele não era apenas intimidador. Era magnético. E perigoso. Como um prédio de vidro à beira-mar, lindo, moderno, impressionante... e prestes a desabar, se as fundações escondessem rachaduras.
