Capítulo 6: Encontro inesperado
A cena da noite anterior não saiu da cabeça de Sel.
Ela sabia que aquilo iria acontecer, imaginava que Carina armaria sua primeira confusão por aqueles dias, mas não achou que a atacaria daquele jeito, ela nunca foi de perder a classe daquela forma. Outrora, antes de sua primeira morte, Carina e Sel competiram muito por Roman, infelizmente, Sel havia saído perdedora daquela batalha, mas esperava, por orgulho, poder se vingar agora.
Carina havia se rebaixado ao atacá-la, mas aquilo não foi de todo ruim, afinal, era uma oportunidade, Carina perdeu a compostura e deu a Sel a oportunidade de se aproximar de Roman sem se esforçar, além de colocá-la no papel de vítima, que era exatamente onde queria estar, assim, ele não desconfiaria de suas pretensões.
Ainda era difícil para ela estar na mansão Campbell como uma estranha, fingir que não conhecia bem todos aqueles corredores, que não sabia exatamente onde ir e onde não podia pisar, fingir que era a primeira vez que conhecia Roman e seus falsos encantos. Henry estava de olho nela, ela já havia percebido que o senhor gostava de saber o que ela andava fazendo pelos corredores, só não sabia se ele estava apenas sendo cuidadoso, ou se tinha medo de algo.
A foto ainda estava em seu quarto, escondida entre suas roupas, mas não havia descoberto nada novo desde então, já que não teve tempo de procurar. Desde Carina , Roman tem estado muito mais próximo, tratando-a como uma princesa. Ele se preocupava com suas refeições, comprava presentes caros e tentava ser presente, nas duas últimas semanas eles conversaram tanto que Selena quase não conseguia mais ver a cara dele. Mesmo que no fundo ele estivesse incerto quanto sua decisão, para Selena ele demonstrava total certeza de seus atos, como se fosse o maior romântico apaixonado de todos.
Mas será que não era?
Naquela manhã, ele chegou bem cedo à empresa, deixando a secretária avisada de que não desejava ser incomodado e pedindo um café bem forte. Estava confuso, sua cabeça e seu coração estavam uma bagunça. Ele pretendia falar com Carina , explicar o que estava acontecendo, mas, de repente, percebeu que realmente não a queria tanto assim. Duas semanas se passaram desde a última vez que se viram e ele, aparentemente, sequer sentiu saudades, o que era estranho.
“O que essa garota fez com minha cabeça?”, ele se perguntou, passando as mãos nos cabelos negros e os puxando para trás, suspirando pesadamente, bebendo um grande gole de café e se lembrando dos belissimos cabelos vermelhos e dos olhos verdes de Selena.
Estava tentando se distrair e esquecer o rosto dela quando, de repente, a porta se abriu. Sabia exatamente quem era sem precisar sequer erguer os olhos, afinal, seu avô era o único que se atrevia a entrar em seu escritório sem bater ou chamar por ele, simplesmente invadindo, já que, poucos meses atrás, aquele escritório era dele.
— Achei que ficaria para tomar café na mansão hoje — Henry começou a falar.
Enquanto caminhava até a mesa de seu neto, em nada parecia o senhor gentil e carinhoso de sempre, tinha um porte frio, calculado, seus olhos eram tão afiados quanto o de uma águia e parecia saber bem de tudo.
— Tinha muito trabalho acumulado — Roman se justificou, suspirando. — Aconteceu alguma coisa?
— Você está indo muito devagar, Roman — Henry foi direto, como sempre fazia com o neto. — Não terá outra chance como essa, precisa pensar com mais racionalidade! Aquela garota foi uma…
— Carina não irá mais incomodar — Roman o cortou, impaciente —, já repeti isso milhares de vezes.
— E todas as vezes ela continuou incomodando — o mais velho retrucou, batendo a mão na mesa para chamar a atenção do neto. — Não lhe darei outra oportunidade, se não quer ser um inútil apagado da história dessa família, cumpra seu papel!
Roman ficou em silêncio, sustentando o olhar de Henry por longos segundos. Era como um embate silencioso, uma guerra fria da qual ele sabia que não sairia vitorioso, o gênio de Henry era imbatível, ele era o senhor daquela empresa e do resto de família que tinham, todos atendiam às suas vontades desde sempre e Roman não era diferente.
— Estou fazendo isso para seu bem, meu neto… Essa empresa é o legado de nossa família, nossos negócios vão cada vez melhor, não podemos perdê-la para uma família que não tem onde cair morta — a fala de Henry era seca, rude e coberta por desprezo, sibilando como uma cobra prestes a dar o bote. — Confie em mim, eu sei o que estou fazendo.
— Confio em você, vovô — Roman respondeu, resignado.
Mas, àquela altura, ele estava começando a duvidar se o caminho que seu avô o mostrava era realmente o melhor a se seguir.
Enquanto os dois selavam um novo pacto, longe da empresa, fora da cidade, Selena estava com seu celular em mãos, encarando a tela curiosamente. O seu conselheiro secreto, como ela carinhosamente o apelidou, havia mandado uma nova mensagem. Nela, dessa vez, havia um endereço e um pedido de encontro.
“Me encontre no subúrbio, no encontro da Old Sea com a 2 avenida, estarei esperando para lhe contar tudo, e tomar um café."
— Me contar tudo o que? — ela perguntou para si mesma, olhando o celular curiosamente.
Seria aquele estranho mais uma peça do quebra cabeças? Será que se encontrar com ele era perigoso?
Provavelmente, as respostas para as duas perguntas eram sim, mas Sel não queria perder oportunidade alguma. Se não arriscasse, encontraria o mesmo destino de sua vida passada, a morte, então, entre a morte e o risco, o risco soa mais atraente, não? Não havia outra opção que não encontrar seja lá quem estivesse por trás daquelas mensagens.
Coincidentemente, Roman e Henry não estavam em casa, então, ela poderia sair sem ser enchida de perguntas. Henry costumava ser bem curioso e superprotetor, se pudesse, a faria levar um segurança onde quer que ela fosse. Já Roman, apesar de ser discreto, era tão controlador quanto o avô e sempre a seguia com os olhos pela casa.
Aproveitando a oportunidade, Sel correu para fora da mansão e pediu um uber, entrando nele antes que alguém a visse e passando o endereço para o motorista. O homem de meia idade que dirigia olhou para ela confuso, então perguntou:
— Tem certeza que o endereço está certo, moça?
— Claro — respondeu ela, unindo as sobrancelhas —, por que não estaria?
— Ah, é que não é muito comum ver alguém saindo de uma casona para um bairro no subúrbio — respondeu ele, começando a dirigir, dando de ombros. — Vai visitar alguém?
— Um amigo — ela respondeu, encostando o rosto na janela e observando a estrada.
Depois dessa resposta, o motorista não disse mais nada, guiando o carro silenciosamente. Selena mal prestou atenção nele, seus olhos claros e curiosos estavam fixos na estrada, que estava cada vez mais próxima da cidade.
Ela não se surpreendeu quando o carro entrou no centro comercial, mas ficou apreensiva quando o motorista a guiou para um bairro pobre, com prédios velhos e uma movimentação intensa de pessoas. As ruas eram mais precárias que as centrais, com sujeira aqui e ali, embalagens plásticas e folhas amassadas de jornais. Quanto mais entravam naquele lugar estranho para ela, mais assustava ela ficava. Claro, Selena nunca foi rica, mas sua mãe e seu pai sempre moraram em bairros mais elegantes da cidade, onde ela não tinha contato com ruas como aquelas, então, era um lugar novo.
O motorista parou o carro na frente do prédio e se virou, dando um sorrisinho gentil e esticando para ela a maquininha de cartão já com o valor da corrida digitado, esperando apenas o cartão para completar o pagamento.
— Obrigada — disse ela, após inserir seu cartão na máquina.
— Por nada, menina — ele respondeu, abrindo a porta para ela e acenando assim que a viu sair. — Se precisar de carro para voltar, manda uma mensagem que eu venho te buscar — ele completou, então, arrancou com o carro para longe dali, sumindo de vista.
Sel observou o carro se distanciar cada vez mais e, logo depois, ela se virou, encarando o grande prédio.
Era claramente velho, como todas as outras construções, mas também tinha sua beleza. A estrutura era construída com tijolinhos vermelhos e estava sem pintura, dando um ar vintage. Havia também uma grande janela no último andar e ela tinha quase certeza que era um conjunto de 3 apartamentos naquele prédio, 3 grandes apartamentos.
Receosa, ela deu alguns passos para frente e empurrou a porta de entrada, caminhando para dentro do hall e encontrando um porteiro aos cochilos atrás do balcão. Assim que ela pisou no local, o homem acordou sobressaltado, procurando quem estava andando por ali com os olhos confusos e finalmente pousando-os na jovem ruiva a sua frente. Ele a encarou bem, observando suas características físicas e, em seguida, sorrindo.
— Você e Selena, né? — ele perguntou, simpático. — Pode subir até o último andar, ok?
— Certo, obrigada — ela respondeu, ainda insegura e nervosa.
Sel entrou no pequeno elevador e apertou no botão para subir e viu as portas se fecharem.
Ela aproveitou o momento para olhar para seu reflexo, ajeitando os cabelos vermelhos e amassando os lábios um no outro para espalhar o batom rubro, estava perfeita o bastante para conhecer um estranho.
Assim que a porta do elevador se abriu, ela viu um corredor médio onde havia apenas uma única porta. Sel caminhou rapidamente até ela e a encarou, com medo do que encontraria do outro lado, poderia ser qualquer um, incluindo um louco.
Ela ergueu sua destra, aproximando o punho fechado da porta e dando três toquinhos, a princípio, achou que não havia ninguém, por isso bateu de novo e de novo. Somente na quarta tentativa ela ouviu, de dentro do quarto, pés se arrastando e, pouco depois, a maçaneta girou.
Ela inspirou profundamente, aquele era o momento da revelação e, quando seus olhos finalmente encontraram o remetente das mensagens que estava recebendo. Sel sentiu um misto de alegria e medo.
À sua frente estava Anthony, a imagem dele se revelou lentamente enquanto a porta era aberta. Ele usava apenas uma bermuda folgada, seu peitoral definido estava nú e com uma faixa na cintura fechando o curativo do tiro que ainda estava terminando de cicatrizar, mas a faixa sequer chamou a atenção de Selena.
Primeiro que conversar com Anthony depois de tanto tempo sem vê-lo se ela contasse com sua vida passada, seria um bom motivo para se estar empolgada e feliz, segundo que vê-lo assim, apenas com um short largo, não fazia bem a sua sanidade. Selena não conseguiu controlar os pensamentos nada castos que tomaram sua mente à medida que ela desSel va os olhos pelo peitoral dele, bem devagar, sem sequer se dar conta do que estava fazendo. Ele era um homem bem quente, alto, pele negra e corte baixo, com músculos definidos, fortes e sensuais. Além do corpo que parecia ter sido esculpido por deuses e anjos, Anthony tinha um sorriso que iluminava qualquer um e era exatamente esse sorriso que ele estava oferecendo para ela nesse momento.
— Meu rosto está aqui em cima, Sel — ele disse, se aproximando dela e erguendo seu queixo com os dedos.
Seus olhos castanhos se fixaram nos dela enquanto ele acariciava seu queixo. Ela estava ainda mais bonita do que ele se lembrava e, naquele momento, mesmo que ele quisesse, não conseguiria esconder o impulso que sentia. Se conheciam desde que o pai de Sel, George começou a trabalhar para ele, mas Anthony lembra vagamente de ter visto Selena uma ou outra vez em outras ocasiões, quando eram crianças. Mas a sua fase infantil em nada se comparava ao que ela era agora, uma mulher que o dava arrepios bons e aquecia sua pele.
Eles sempre trocaram olhares, mas Selena era muito tímida e Anthony não sabia interpretar seus olhares, sendo assim, ambos passaram muito tempo sem sequer conversar. Todo o tempo em que George trabalhou na mansão de Anthony, ele observava Selena, mas ela era como um anjo e ele concluiu que não era uma mulher para ele, que gostava de brincar.
Ambos se encararam na porta, muito pertos um do outro, perto o bastante para sentir o calor de seus corpos e tocá-los, bem como os perfumes se misturando de forma inebriante.
— Anthony! Você está vivo!
