Capítulo 5: Carina
Quando a noite chegou, Selena estava exausta. Acabou passando todo o dia ao lado de Henry, tentando o consolar e o ajudar diante de todos os acontecimentos, mas quando a noite caiu ela finalmente conseguiu descansar, ao menos foi o que imaginou que aconteceria.
A foto ainda estava em sua cabeça, ela tinha um pressentimento que aquela era a primeira peça, mas não sabia o que fazer diante daquilo. Mas a foto não era a única coisa que a incomodava, pelo contrário, havia ainda a misteriosa mensagem que a dizia para não confiar em ninguém.
Quem havia mandado e porquê?
Tudo aquilo a deixou extremamente distraída, tanto que sequer notou quando Roman chegou à mansão e se sentou junto a ela na mesa de jantar.
Diferente de Sel, Roman estava muito atento, seus olhos negros se fiaram nela assim que ele adentrou a casa e, olhando-a dali, percebia quão distraida ela estava. Aos olhos de Roman, Sel parecia uma bela pintura feita especialmente para que ele a observasse, era inegável o quanto ela era bonita e ele não esperava perceber isso tão rápido.
— Aconteceu alguma coisa? Você parece estar no mundo da lua — ele perguntou, falando pela primeira vez desde que se sentou.
Selena piscou os olhos várias vezes e o olhou, um pouco surpresa, enquanto tentava puxar os ombros para trás e exibir uma postura mais elegante.
— Há quanto tempo está me olhando? Não te vi chegar — ela disse, tentando sorrir, tímida por ter sido pega no flagra perdida em seus próprios pensamentos. —Estou bem, não se preocupe comigo!
Roman estreitou os olhos, desconfiado. Ele havia percebido a preocupação de Selena com seu irmão e aquilo o deixava inseguro. Ele e Anthony sempre disputaram por tudo, iriam disputar a mesma mulher agora?
“Mesmo desaparecido ele continua empatando minha vida”, pensou Roman, suspirando pesadamente e pegando seus talheres para comer.
O jantar da noite era uma bela macarronada com almôndegas, além de alguns petiscos, saladas e também um bom vinho.
Henry não havia ido jantar naquela noite, sendo assim só haviam Sel e Roman sentados a mesa e aquilo a deixava nervosa. Tinha que se controlar constantemente para não ceder à vontade de esganá-lo, afinal, ao menos naquele momento ainda não tinha motivos para isso.
“Nessa vida… Porque antes eu tinha motivos mais que suficientes”, ela pensou, levando uma garfada até a boca e sentindo o delicioso sabor inundar seu paladar.
— Como foi o trabalho? — ela tentou iniciar uma conversa, procurando desfazer a tensão estranha que se formava no ar. — As coisas devem estar complicadas…
Roman se preparou para responder mas antes que ele o fizesse, a porta da sala de jantar se abriu num baque e uma mulher entrou enfurecida no local.
Selena a reconheceu imediatamente. Carina estava belíssima como sempre, seus cabelos loiros estavam soltos, longos e ondulados caindo por suas costas, ela usava um vestido justo rosado e saltos enormes. O vestido justo delineava suas curvas chamativas e Roman quase não conseguia não olhar.
— O que significa isso, Roman? Que porra de mensagem é aquela? — a pergunta foi feita a plenos pulmões e a voz esganiçada da loira chegou aos ouvidos dos dois na sala. — Acha que eu sou o que? Algo que você usa e joga fora?
Roman estava em choque, ele não esperava que Carina fosse até ali, não depois de tudo o que haviam conversado. Por alguns instantes ele não soube como reagir e aqueles instantes de inércia foram o suficientes para tudo sair de seu controle.
Carina estava com ódio, a mensagem de Roman ainda ecoava em sua mente como ele havia sido capaz de pedir um tempo a ela por mensagem de texto? Depois de tudo o que eles passaram ela se sentia jogada fora diante de uma opção melhor, como se fosse descartável.
Nesse momento, seus olhos viajaram para o outro lado da mesa e ela encontrou Selena, com um olhar vitorioso que acabou escapando ao seu controle.
Ela estava gostando de ver Carina desesperada daquele jeito, sabia bem que ela era manipulada por Roman, obcecada por ele e que precisava tanto de ajuda quanto ela mesma, mas isso não significava que negaria que o fado de Carina estar tão desesperada quando havia a deixado no passado a satisfazia.
— A culpa é sua, não é, sua vadia? — gritou Carina , fazendo Sel dar um pulinho e se levantar apressada.
— Eu não sei do que você está falando — ela disse, dando alguns passos para trás.
— Ah, então vai me dizer que você não é a biscate que está tentando roubar o Roman de mim! — gritou Carina novamente com os olhos cheios de ódio.
Ela tinha certeza que o pedido de Roman tinha a ver com alguma mulher e suas suspeitas foram confirmadas quando encontrou aquela ruiva estranha na mansão. Não sabia quem ela era, mas estava convencida de que a culpa de toda a merda que aconteceu em seu dia era dela.
— Não me chame de biscate! Eu nem te conheço” — Selena gritou, perdendo a paciencia e batendo com a destra na mesa, tentando soar mais imponente.
— Não me conhece, mas vai conhecer! — Carina ameaçou.
O que aconteceu em seguida foi rápido demais para Sel processar. Carina correu até ela e agarrou seus cabelos, puxando com força os fios ruivos e a jogando no chão. Aquilo nunca havia acontecido, ela e Carina jamais tiveram uma briga física assim e com certeza Selena não estava preparada para aquilo.
Diferente de Selena, Carina estava sendo guiada pelo seu ódio, sua raiva era tanta que, quando ela conseguiu derrubar Selena suas mãos foram direto para o rosto dela, a estapeando sem parar, sequer contando os tapas, foram dois, três e a bochecha de Selena já ardia e doía.
— Você tá maluca?! — ela gritava, segurando com força as mãos de Carina , cravando sua unhas na pele da loira enquanto tentava a impedir de bater mais em seu rosto.
Enquanto as duas rolavam no chão, Roman continuava em choque, seus olhos negros estavam fixos na cena que se desenrolava diante dele e foi só quando ele ouviu a voz de Selena que ele acordou do seu transe, se levantando da cadeira e finalmente tentando separar a briga.
A essa altura Selena estava com o rosto vermelho, um arranhão na bochecha esquerda e com os cabelos desgrenhados, enquanto Carina estava com os braços completamente arranhados e os cabelos bagunçados.
Um dos empregados puxou Carina enquanto Roman puxava Selena para seus braços a abraçando e colocando seu corpo na frente do dela para a proteger caso Carina conseguisse se soltar.
— Sua vadia! É isso o que você é! — Carina gritava enquanto era arrastada para fora, completamente insana.
—Levem ela e não deixe que entrem de novo! — Roman ordenou, furioso com toda aquela cena.
Então, quando o silêncio reinou novamente, ele voltou os olhos para Selena e segurou seu rosto entre as mãos, a olhando com culpa enquanto acariciava sua bochecha.
— Está tudo bem? Ela te machucou muito? — seu tom era preocupado e por um momento Selena até acreditou nele, mas logo voltou a si.
Ela deixou que seus olhos expressassem tristeza e confusão., mesmo que tudo o que sentisse fosse raiva. Aproveitou a vontade de chorar de ódio que sentia e sentiu seus olhos marejarem, com algumas lágrimas escorrendo por sua bochecha.
— Quem é ela? Por que ela fez isso comigo? — perguntou Selena, com voz de choro, mesmo já sabendo a resposta.
Queria ver a desculpa que Roman inventaria.
— Ela é apenas alguém com quem eu tive algo… — ele disse, suspirando, abraçando Selena mais uma vez. — Hoje eu dei um fim a essa coisa que tínhamos e ela ficou assim, me desculpe, a culpa é minha…
— Por que.. Por que você terminou com ela? — Selena perguntou, erguendo os olhos para os dele, já prevendo o que viria a seguir.
Roman a encarou por alguns instantes, acariciando seu rosto e suspirando por um breve momento, então, com um pequeno sorriso, ele disse:
— Estou interessado em outra pessoa, Sele… — falou ele, acariciando o rosto dela. — E pretendo me concentrar em conquistá-la.
Sel sentiu o rosto corar, mas de raiva diante da fala mansa e sinica dele, mas não deixou isso transparecer precisava ser tão dissimulada quanto Roman naquele momento, afinal, sabia que, por mais gentil que ele fosse, aquela iniciativa de tentar um relacionamento com ela não era movida pelo coração dele, Carina era a prova viva disso.
A ruiva baixou os olhos, dando um meio sorriso e fingindo um ar de timidez, sentindo as mãos de Roman apertarem mais sua cintura enquanto ela apoiava as mãos em seus ombros, segurando e apertando levemente o tecido da camisa social que ele usava, inspirando profundamente e sentindo o cheiro familiar do perfume dele misturando-se ao seu.
— Não sei o que dizer sobre isso agora… — ela falou, mordendo o lábio inferior, suspirando.
— Eu posso esperar até que você saiba o que me responder…
***
— Vai me jogar aqui assim? — Carina gritou com o segurança, que não esboçou reação alguma.
Ela bateu no peito do homem, que tinha quase o dobro do seu tamanho, mas ele mal se moveu, apenas ergueu uma das mãos e a empurrou para longe, fazendo com que ela caísse no chão enquanto chorava.
Nunca foi tão magoada, nunca sentiu tanta dor em seu coração. Se sentia traída, abandonada pelo homem que ela acreditava que a amava. Roman não teve a decência de sequer terminar com ela de maneira digna, ela apenas mandou uma mensagem de texto, como se o que eles tinham não fosse nada.
“Precisamos parar de nos ver por um tempo, Carina , eu explico tudo depois, mas não me procure nos próximos meses, ED.”
Apenas isso, nada mais.
Mas palavras nunca doeram tanto com aquelas.
Depois de ler a mensagem, Carina tentou ligar para ele, mas todas as chamadas iam para a caixa postal. Tentou ligar para a empresa e até foi até lá, mas Roman não estava, ou aom menos mandou que dissessem isso. Ela viu como única solução ir até a mansão, mas jamais imaginou que ele a jogaria para fora desse jeito para ficar com aquela ruiva que ela nunca havia visto.
Carina se levantou do chão, limpando os joelhos e passando as mãos no rosto, seus olhos estavam embaçados pelas lágrimas e sua maquiagem estava completamente borrada, ela sentia seu peito doendo e sabia que seu coração estava partido. Mas o amava tanto que torcia para que Roman aparecesse a qualquer momento para lhe dizer que era tudo uma brincadeira de mal gosto.
Carina entrou em seu carro e o ligou, dando a partida e acelerando pela estrada em direção a cidade. A mansão Campbell ficava distante, na área rural em um grande terreno cercado por uma floresta de pinheiros, seria lindo, se o momento não fosse tão trágico para ela. O caminho até a cidade durou quase vinte e cinco minutos e durante a viagem Carina ouviu músicas tristes e chorou o caminho inteiro, tentando manter os olhos na estrada apenas por medo.
Quando entrou na cidade ela passou numa sorveteria e comprou um grande pote de sorvete antes de ir para seu prédio, estacionando na frente e saindo do carro, caminhando para dentro e entrando no elevador.
Ela olhou para seu reflexo nas paredes metálicas, cabelos bagunçados, olhos inchados e vermelhos, braços arranhados… Jamais se imaginou numa posição tão humilhante como aquela, como ela conseguiu se deixar chegar a esse ponto? Perder a classe daquele jeito era inadmissível e se sua mãe soubesse iria querer matá-la. Mas como não perderia a classe quando via Roman olhar para outra mulher com tanto cuidado?
Quando o viu escondê-la em seu peito, o coração de Carina se partiu em milhares de caquinhos incoláveis. Foi como ser pisoteada, humilhada da pior forma possível, afinal, foi trocada sem aviso prévio.
Eles estavam tão bem na noite anterior que o fato de terem simplesmente terminado ainda não havia entrado em sua cabeça. Mas estava decidida a pegar de volta seu homem, não importava quem era a vadia ruiva que o havia roubado dela.
