Capítulo 4: Uma foto, um mistério
Quando acordou, Selena viu que o sol já havia nascido e que, certamente, já seria mais que oito da manhã. Preguiçosamente ela se mexeu na cama, esticando o corpo e bocejando enquanto tentava se lembrar do que tinha para fazer naquela manhã. Nesse exato momento, três batidas soaram em seu quarto.
— Sel, o motorista dos Campbell chega em alguns minutos, você já acordou? — a voz de George soou por todo o quarto e ela arregalou os olhos, lembrando-se de seu compromisso singular.
Aquele era o dia em que ela iria para a casa dos Campbell , o dia em que começaria a enteder o que havia acontecido no passado.
Ao menos era o que achava e o que esperava.
— Estou quase pronta! — mentiu, se levantando rapidamente e correndo para seu banheiro.
Ouviu de longe os passos de seu pai se afastando e logo arrancou toda sua roupa, ligando o chuveiro e fechando a porta do box, entrando na água quente e começando um banho rápido. A água escorreu por todo seu corpo e Sel tentou acalmar as batidas de seu coração, estava nervosa, mas qualquer um ficaria nervoso numa situação como a dela, certo? Voltar da morte não é para qualquer um.
Ela tentou relaxar, mas qualquer tentativa de fazer isso era em vão, já que seus nervos faziam o trabalho de deixá-la ansiosa. Por sorte, o tempo que conviveu com Roman a ensinou a disfarçar bem seus sentimentos, então, ela saberia esconder bem seu nervosismo.
Se lembrava vividamente do sonho que teve na noite anterior, lembrou-se de Roman, da forma como ele a tratava antes do casamento, aquela foi a melhor maneira que ele encontrou de conquistar seu coração, era o que ela presumia.
Mas por que?
Por que ele se casaria com ela contra sua vontade?
Roman sempre teve tudo, tudo estava sob seus pés, qual o motivo que o levou a casar-se com uma jovem sem riqueza, sem status?
Na sua antiga vida, ela não conseguiu essa resposta, mas agora ela a conseguiria a qualquer custo, principalmente por achar que aquela era uma parte importante do quebra-cabeças que revelaria quem era seu assassino.
Quando acabou o banho, ela pegou um vestido em seu guarda-roupas, havia deixado poucas peças ali e colocou na mala suas favoritas. O vestido ia até pouco acima de seus joelhos, tinha uma estampa florida, com belas margaridas num fundo branco. Calçou sapatos baixos e deixou seus cabelos avermelhados soltos, não passando maquiagem alguma em seu rosto.
Depois disso, Sel saiu do quarto arrastando a mala de rodinha consigo e chegando até a sala de estar, onde encontrou seu pai sentado no sofá, com uma xícara de café nas mãos. George a encarou por um momento e logo se levantou, sorrindo para sua filha e acariciando sua bochecha esquerda, suspirando levemente.
— Vou sentir sua falta aqui, Sel — ele falou co um sorriso triste —, mas é por uma boa causa… Espero que Henry consiga ficar um pouco mais alegre com você ao lado dele.
— Darei meu melhor para cuidar dele papai — ela confirmou, com um sorriso, o abraçando carinhosamente.
Mesmo que, no fim, ela não conseguisse cumprir o que foi fazer ali, Selena já se sentia feliz por ter salvo seu pai de uma vida vegetando sob uma cama. Aquilo por si só já aquecia seu coração, o que não significava que ela não se esforçaria para reaSel r seu segundo objetivo.
Quando ela o soltou, segundos depois, ouviu uma batida na porta da pequena casa e logo Sel correu até ela, a abrindo e encontrando, do outro lado, o mordomo de Anthony.
— Senhorita Selena, um carro a espera lá fora — ele disse, indicando o lado de fora para Sel.
— Estou indo, papai — ela anunciou, pegando a pequena mala e a arrastando consigo. — Venho visitar o senhor o mais breve possível.
— Não se preocupe comigo, querida — George falou, sorrindo para ela e a observando partir.
Sel apenas sorriu, saindo da casa e caminhando ao lado do motorista que estava silencioso, seguindo em direção a parte da frente da mansão. Os dois passaram em silêncio pelo portão e ele abriu a porta do carro para ela, colocando sua mala no porta-malas e entrando em seguida, dando a partida em direção a mansão Campbell .
A viagem até lá não foi tão longa, ficava a uma distância de cerca de quinze minutos de carro e foi feita em total silêncio. Sel sentia que aquela era a decisão certa a se tomar, mesmo que estivesse indo para o covil das cobras, ela estava mais esperta e sabia quem eles eram de verdade, ou melhor, sabia quem era Roman e não cairia no seu papinho de novo.
Quando chegaram à grande mansão, que era ainda maior que a de Anthony, Sel saiu do carro e, assim que pegou sua mala e se virou, encontrou Roman na porta, esperando-a. Ele havia deixado uma de suas reuniões do dia para recebê-la e aguardava por ela como um perfeito cavalheiro. Assim que a viu, ele caminhou em direção a ela com um meio sorriso no rosto. Usava um terno preto bem cortado e seus cabelos negros como a noite estavam bem alinhados para trás, sua presença era imponente e ele estava elegante, como sempre.
— É bom ver você de novo, Sele — falou, sorrindo para ela e tomando sua destra com a mão, levando aos seus lábios, exatamente como um homem o século passado faria —, meu avô está um pouco abatido hoje, preferiu ficar em seu quarto, por isso não está aqui para te receber.
— Tudo bem — ela respondeu, sorrindo brevemente —, é um momento difícil para ele, estamos todos meio abatidos, certo?
— Claro — ele disse rapidamente, a acompanhando para dentro da casa, passando pelo hall de entrada e apontando para a primeira escadaria. — Se subir por ali e virar a esquerda, encontrará um corredor longo, seu quarto é a quarta porta.
— Vou me perder fácil por aqui — ela mentiu, afinal, conhecia essa casa como a palma de sua mão. — Obrigada por me ajudar.
— Preciso ir agora, mas não precisa ficar preocupada, vovô vai sair do quarto em breve, pode tomar seu café e explorar, nos vemos no jantar — Roman parecia afoito e, mesmo que tentasse disfarçar sua pressa, suas tentativas foram fracassadas.
— Não se preocupe comigo, tenha um ótimo dia!
***
Depois de um café tranquilo, Sel decidiu dar uma volta. Esperava que Henry descesse, mas como ele não o fez, ela aceitou que aquele era um bom momento para começar sua busca.
Mas o que estava procurando? Ela não sabia, na verdade, não fazia ideia.
Mas estava confiante de que encontraria qualquer coisa, qualquer evidência, que dissesse por onde começar.
Os empregados estavam distraídos com a arrumação do andar de baixo, bem como com os preparativos para o jantar e demais afazeres do dia, então, não foi difícil para ela se esgueirar para as escadarias e se direcionar ao terceiro andar, o último. Sel caminhou apressadamente, os corredores estavam vazios, mas nada impediria que alguém chegasse a qualquer momento, então, teria que ser rápida. Ela tinha um destino certo, apesar de não saber o que procurar ali.
Agradeceu por Henry decidir se isolar naquele dia, ele tinha aquele costume, quando algo acontecia, ele escondia-se em seu quarto até que se sentisse bem para ser o mesmo de sempre com as pessoas. Preferia passar pela dor sozinho a acabar ocupando alguém com ela, ao menos era o que Sel pensava.
Caminhou pelos corredores até encontrar uma porta fechada, parando na frente dela e segurando a maçaneta, girando-a e empurrando a porta silenciosamente, revelando o interior de um escritório vazio. Ela sabia que aquele era o escritório particular de Roman e, como ele era seu principal suspeito, era por ele que começaria. O local estava perfeitamente organizado, as prateleiras de livros muito bem limpas assim como todo o resto. Tinha uma decoração minimalista, tudo em pretop e branco e as únicas cores além dessas eram as cores das capas dos livros nas estantes. Mas ela não estava ali para observar a decoração, que já conhecia.
Com passos de algodão, ela caminhou até a mesa e começou a olhar as gavetas que haviam nela. Eram quatro ao todo e Sel às abriu uma a uma. A princípio, não havia nada que a ajudasse ali, nada que a interessasse, haviam muitos papéis, recibos, contratos, canetas e chegou a encontrar até uma calcinha preta com laterais rasgadas numa delas, o que lhe soou extremamente depravado, mas as perguntas sobre aquela peça logo deixaram sua mente quando ela viu algo mais interessante.
Escondida entre alguns papéis estava uma foto, virada para baixo, Sel só a viu pois acabou desalinhando os papéis quando puxou a calcinha. Rapidamente ela largou o tecido e alcançou a foto, mas, antes de virá-la, viu que havia algo escrito ali e, estreitando os olhos, ela leu:
“Para minha melhor amiga, Jude”
“Jude?”, pensou Sel, franzindo o cenho e unindo as sobrancelhas.
Então, finalmente ela virou a foto e sua expressão de confusão foi tomada pela surpresa. Na foto, havia uma mulher belissima, de cabelos negros e longos, muito parecida com Roman, ela era deslumbrante, jovem e tinha um imenso sorriso. Ao lado dela, uma jovem ruiva, igualmente sorridente, com olhos esverdeados e um rosto fino e delicado, Jude, a mãe de Selena.
“Minha mãe e a mãe de Roman eram amigas?”, ela se perguntou, sentindo um arrepio em sua espinha, “elas duas se conheciam? Como? Por que papai nunca mencionou esse fato?”
Sua cabeça estava girando e ela não conseguia entender direito, afinal, sua família tinha alguma ligação real com os Campbell ? Por que Henry nunca mencionou que sua falecida filha conhecia Jude?
As perguntas enchiam sua cabeça e Sel não sabia se isso de fato significava, mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, ela sentiu seu celular vibrar em seu bolso. Rapidamente, Sel pegou o celular e desbloqueou a tela, olhando para a notificação, vendo que era de um número desconhecido. Mas o fato de não saber quem a mandou não foi o que mais a surpreendeu, e sim seu conteúdo:
“Não confie em ninguém,eles não são quem você pensa!”
Mas antes que pudesse pensar sobre isso, ela ouviu passos no corredor. Selena escondeu a foto em seu bolso junto com o celular, fechou todas as gavetas e correu para perto da porta, a abrindo rapidamente e batendo de frente com Henry.
— Sel? O que faz aqui? — Henry estava surpreso, a encarando com as sobrancelhas erguidas. — Esse é o escritório de Roman.
— Eu estava explorando e acabei entrando aqui… Mas já estava saindo — ela se justificou, baixando os olhos levemente e tentando soar envergonhada disfarçando o medo que sentiu de ser pega no flagra.
— Tudo bem querida — ele disse estendendo o braço para ela e sorrindo. — Quer dar uma volta pelo jardim?
— Claro, Henry! — respondeu ela, com um sorrisinho, segurando no braço dele e seguindo pelo corredor.
Por fora, estava tranquila, sorridente e animada, mas por dentro, tudo em que conseguia pensar era na foto e na mensagem que havia recebido.
Será que as duas coisas estavam interligadas?
***
Quando abriu os olhos, Anthony sentiu seu corpo dolorido e sua cabeça doer. Lentamente, as coisas começaram a chegar aos seus olhos e quando ele se deu conta, percebeu que estava em um pequeno quarto. Olhando ao redor, viu que estava deitado em uma cama macia de casal em um Ap pequeno, o quarto ficava junto a sala, num unico espaço que era extenso e tinha uma grande janela de vidro que ia do chão ao teto. Havia um pequeno sofá e uma grande tv, mais ao longe uma cozinha americana e uma porta que ele achou ser o banheiro. Não era muito decorado, mas tinha tudo o que alguém poderia precisar.
Ele se sentou na cama e assim que tentou se levantar sentiu uma dor intensa em sua barriga, só então ele se lembrou do que havia acontecido.
— Porra — resmungou, olhando para baixo e vendo a barriga enfaixada.
— Fica quieto ai, cara — a voz do garoto chegou aos seus ouvidos —, você levou um tiro, tem que ficar em repouso.
— E você me ajudou? De novo? — perguntou Anthony. — Bem, obrigada, a propósito, sou Anthony, mas acredito que já saiba meu nome.
— Sei sim — ele parecia um pouco constrangido enquanto se aproximava, se sentando ao pé da cama. — Pode me chamar de Luck!
— É um prazer Luck — Anthony finalmente conseguiu se sentar e esticou as costas. — Pode me emprestar seu celular?
