Capítulo 9 - A Célula
Assim que Miller me pegou em casa seguimos em silêncio para a base. Ele trabalhava em seu laptop enquanto eu me sentia o ser mais inútil do planeta sendo levada para o trabalho pelo seu motorista particular.
Eu ainda não tive tempo, mas precisava conseguir um meio de transporte o mais rápido possível e então seria poupada de passar mais vergonha.
Conforme entramos no prédio, caminhei pelo longo corredor que separava a sala dos oficiais do centro de operações e senti um frio percorrer minha espinha assim que vi o capitão andando em minha direção vindo do outro lado, apertando descaradamente seus olhos em mim.
Seu rosto era duro e ele claramente ainda estava com raiva, o que foi comprovado pelo aceno de cabeça frio antes de entrar na sala. Hunter e o sargento Rhodes vieram logo atrás e me cumprimentaram com um sorriso caloroso. Pelo menos alguém ali estava feliz com a minha presença.
Eu ainda não tinha reparado nas características físicas dos dois e só agora me dei conta de que eram homens bem atraentes.
Enquanto nos acomodamos em volta da mesa de reunião no centro da sala de operações, eu pude notar como Hunter era alto, provavelmente a mesma altura do capitão, ele tinha olhos e cabelos claros rente ao couro no tradicional corte militar e tinha um corpo bem definido, já que seus braços a mostra me revelavam isso.
Rhodes tinha traços latinos bem evidentes, moreno, olhos escuros, cabelos raspados e o corpo coberto de tatuagens. Tinha uma águia enorme que cobria todo seu pescoço. Ele era mais baixo que os outros, porém não menos bonito.
— Graças ao empenho da tenente Banks em sua última missão — a voz do general Miller me tirou dos meus devaneios enquanto os olhos dos homens na sala escorregaram em mim.
— Conseguimos recuperar o disco rígido que estava em posse de um político na Chechênia. Nele continha informações valiosas sobre A Célula, o movimento imortal socialista, uma facção criminosa internacional que reúne revolucionários e paramilitares com base em Berlim.
— Como é do conhecimento de todos — ele continua falando. Menos do meu é claro, já que minhas missões até então eram de resgatar informações apenas, sem nunca participar diretamente de nenhuma delas.
— A Célula idolatra o Partido Nacional-Socialista, conhecido como Nazismo durante a segunda guerra mundial. Eles estão na mira do governo alemão a anos, mas agem discretamente e por baixo dos panos, fazendo acordos escusos com políticos e magnatas de outros países.
— Nossa inteligência, chegou até Adler Stein — a imagem do homem de meia idade apareceu na tela do grande projetor à nossa frente — O líder da facção. Ele não era problema nosso até começar a vender informações secretas do governo americano. A CIA está tentando traçar um perfil, mas não sabe quem é o informante, já que não existe nenhum registro ou comunicação que possa nos levar até ele.
— o general faz uma pausa enquanto coloca as mãos atrás das costas corrigindo sua postura superior.
— Precisamos pegar Stein para chegar ao homem que está revelando nossos segredos. A Célula a partir de agora é um problema nosso e precisamos resolver.
— Capitão? — Miller se afasta para que o capitão tome seu lugar à frente.
— Muito bem... — a figura imponente de John fez minha atenção oscilar por alguns momentos — Amanhã Luke Ritter, o filho de um dos magnatas financiadores da Célula vai dar uma festa, um leilão mais precisamente. Achamos que Stein vai aparecer e contamos com isso. Nossa missão consiste na captura dele, precisamos trazê-lo para os Estados Unidos e interrogá-lo — ele finaliza.
— O capitão Hale vai preparar a missão e os manterá informados — o general avisou — Estão dispensados.
Me animei com a ideia de tirar mais um filho da puta das ruas e faria meu melhor pra isso. Eu teria a chance de fazer as coisas certas dessa vez e apesar da presença constante do capitão me despertar lembranças da noite que passamos juntos e que eu não conseguia esquecer, era bom estar em um time novamente.
— Ei, tenente — Rhodes me chamou — Estamos indo tomar café, nos acompanha?
Pelo menos esse é mais sútil no convite.
— Desculpe, mas já fiz o desjejum — respondi, adicionando uma nota mental de revezar o café da manhã entre Miller e meus colegas de equipe, afinal eu precisava começar a me enturmar aqui.
— Tenente, por favor reconsidere. Eu não aguento mais fazer as minhas refeições tendo o Rhodes como companhia — Hunter disse assim que nos alcançou.
— Você é um idiota — Rhodes respondeu com uma carranca.
— Não é pessoal, cara. Eu e a tenente almoçamos outro dia e a companhia dela é bem mais agradável que a sua.
— É melhor você aceitar, tenente ou eu vou ter que quebrar a cara dele pra ver se pára de falar merda.
Eu ri. Era bom fazer parte disso. Estar nesse ambiente amigável novamente. Miller poderia estar certo e isso me fazer bem, eu estava disposta a dar uma chance e fazer as coisas certas dessa vez.
— Tudo bem eu vou, mas parem de me chamar de tenente o tempo todo. Vocês parecem dois recrutas — eu disse e os caras riram— Me chame de Sam.
— Certo Sam — Hunter repetiu o nome me dando uma piscada fazendo Rhodes balançar a cabeça.
— Fica longe dele, esse cara é um babaca — Rhodes disse enquanto abria a porta do refeitório que estava incrivelmente cheio.
Um rosto conhecido na multidão chamou minha atenção, era o capitão que tomava seu café da manhã com o rosto enterrado no tablet à sua frente. Ele parecia especialmente mais atraente hoje, se é que tem como. Seus braços imensos na camisa de manga curta do uniforme me causaram arrepios quando lembrei do seu corpo se encaixando perfeitamente ao meu e de suas mãos me apertando com força.
Eu não era do tipo de pessoa que suspirava pelos cantos, mas com certeza era do tipo que transava pela segunda vez…terceira, quarta...
Tire isso da sua cabeça, Samantha. Ele é o seu superior!
Quando dei por mim eu estava parada à sua frente, segurando uma xícara de café nas mãos. Examinei a tatuagem em seu braço com cuidado e agora ela fazia todo sentido. Se eu soubesse seu significado há algumas noites atrás… A adaga afiada com o raio que se curva a sua volta era o símbolo da Delta Force, nossa equipe.
Senti seus olhos subindo lentamente por todo meu corpo até encontrar meu rosto. Aquilo me fez ferver. Foi o mesmo olhar que recebi naquela noite acompanhado de um sorriso safado e malicioso.
Hoje, no entanto, seu rosto não estava nada amigável, sua voz era fria e seu olhar duro.
— Posso ajudar, tenente? — ele perguntou com aquela maldita voz marcante, me fazendo perceber que não tinha nada nele que eu não gostasse.
Porra! Porque o diabo tem que ser tão perfeito?
— Ela prefere ser chamada de Sam — Hunter se ajeitou ao seu lado enquanto me sentava à sua frente. Rhodes veio logo atrás e puxou uma cadeira.
— Prefere? — ele pergunta me encarando seriamente — Então podemos aproveitar e nos chamar por apelidos também. Você pode ser o Matt e você o Hall — ele aponta para ambos —Eu posso ser o Johnny o que acham? — seu tom era irônico e eu o encarava com a mesma frieza que ele olhava pra mim — Ou podemos apenas usar nossos primeiros nomes nas missões, os inimigos vão adorar saber quem somos.
John se levantou da mesa bruscamente, pegou a bandeja e saiu. Os rapazes se olharam sem entender e meus olhos o seguiram até ele sair de vista.
— Qual é o problema dele? — Rhodes perguntou sem entender seu mau humor.
Eu sabia que não tinha nada a ver com nomes, ou missões. Eu sabia que eu era o problema dele. Mas eu não tenho culpa se o capitão não consegue manter seu pau dentro das calças. Como é que eu iria saber que o cara mais gostoso da festa seria meu superior na manhã seguinte?
Tá bom, eu também não posso culpá-lo. Graças ao meu pai, ele não teve acesso a nada que o dissesse quem eu era, eu é quem tinha que ter falado que era filha do ilustre palestrante da noite e essa era a causa de toda sua fúria.
A Samantha de uns meses atrás ligaria o foda-se evitando o homem o máximo que pudesse. Mas a minha melhor versão, essa que está tentando, não vai varrer a sujeira pra debaixo do tapete. Eu tinha que lidar com isso da melhor forma possível, só precisava descobrir como.
Droga! você só faz merda, idiota!
