Capítulo 10 - Tenha Cuidado
Eu estava no centro de comando lendo os arquivos sobre A Célula que o capitão me mandou, quando ouvi batidas na porta e Rhodes surgiu.
—Ele está te chamando na sala dele.
Essa não...
Eu acenei com a cabeça enquanto o sargento desaparecia pela porta.
O capitão alternava seu humor entre me ignorar, brigar e dar um sorriso fraco. Esse último aconteceu quando eu o agradeci pelos documentos, o que considerei como uma trégua dada as circunstâncias.
Caminhei pelos corredores com passos rápidos e precisos, ignorando o cumprimento de alguns oficiais no caminho. Eu não queria me atrasar e dar margem para brigas ou qualquer desentendimento já que John ainda parecia bem irritado comigo.
O que é uma pena!
Assim que alcancei sua sala, bati na porta e o esperei responder.
—Entre.
Aquela maldita voz ...
—Queria me ver, senhor? — eu perguntei assim que entrei, fechando a porta atrás de mim.
Seu rosto estava enterrado em alguns documentos e assim que ergueu seus olhos fixando-os em mim, me senti tensa e uma sensação de formigamento no estômago me deixou desconfortável.
Mas que porra está havendo comigo?
—Sente-se.
Sentei na poltrona à sua frente, cruzando as mãos sobre a perna enquanto ele observava atentamente cada movimento.
—Olhou os documentos? —ele perguntou friamente.
—Sim, senhor.
—E o que descobriu?
—A Célula parece estar negociando as informações do Pentágono aos poucos. Parece que estão em uma espécie de leilão, então quem dá mais é quem fica com as informações privilegiadas.
—Pelo menos isso comprova que estamos indo na direção certa. O que descobriu sobre Luke Ritter? — ele perguntou me observando atentamente.
—Um playboy metido que coleciona obras de arte e mulheres. Seu avô foi um membro ativo da bancada Socialista e fez sua fortuna durante a Segunda Guerra. Luke tem alguns negócios escusos no país e até onde pesquisei ele pode ter informações bem valiosas mas não é uma ameaça, é só um filhinho de papai querendo chamar a atenção.
—Então vamos dar a atenção que ele merece — o capitão disse enquanto se inclinava apoiando os cotovelos na mesa — Você será enviada a missão de hoje, já que é a mais qualificada para coletar informações. Nós daremos suporte, mas estará sozinha, não podemos enviar mais gente, seria óbvio demais.
— Vários americanos em um leilão em Berlim? Isso acabaria com qualquer chance de pegarmos Stein.
—Quero que se concentre em Luke —ele disse e meu rosto se contorceu em confusão.
— E quanto a Stein? Pensei ter ouvido na reunião que ele é o nosso alvo principal —questionei.
— A inteligência vai mandar alguém.
—CIA? Só pode estar de brincadeira— eu bufei e ele me encarou seriamente.
— Foram eles que descobriram o vazamento das informações—ele disse encostando-se na cadeira de espaldar alto que rangeu sob seu peso—Nós assumimos porquê somos a melhor equipe tática pra esse tipo de serviço, mas não podemos deixá-los no escuro. Eles estão na cola de Stein a meses.
— Então entramos lá, fazemos o serviço sujo e eles levam o crédito? — perguntei com a voz mais alterada do que gostaria—Desde quando a Delta trabalha pra CIA?
—Você sempre questiona as ordens que recebe, tenente? — ele perguntou com tom ríspido e mais frio do que o de costume.
Eu não respondi já que essa pergunta se tornou um grande problema pra mim nos últimos anos. Eu sempre fui um ótimo soldado, sempre respeitei e segui as regras. Costumo dizer que o exército me salvou de uma vida problemática e amarga já que foi alí que eu encontrei um motivo altruísta para fazer minha existência patética valer a pena. Mas desde que entrei para a Inteligência e as coisas ficaram fora de controle, questionar minhas ordens se tornou quase um hábito.
—Encontre o segundo-tenente, ele vai te dar os equipamentos e tudo o que precisa para a missão. Você parte em quatro horas, esteja pronta e não se atrase. Está dispensada.
Segui em direção ao depósito onde Hunter estava e fui recepcionada com um sorriso caloroso. Eu estava começando a me acostumar com isso e era bom.
Hunter era gentil e estava sempre de bom humor, diferente do nosso superior carrancudo e mais frio que as geleiras do Ártico. Nem parecia o homem quente e sedutor que me aninhou em seu peito logo depois de ter dado uma das melhores noites da minha vida.
Eu sou muito ferrada mesmo!
—Já preparei e testei a comunicação, nós vamos estar em contato o tempo todo —ele falou estendendo uma bolsa com os objetos — O lugar está cheio de detector de metal então não vai conseguir usar nada letal. Se as coisas esquentarem lá, terá que usar suas mãozinhas — ele gesticulou me fazendo revirar os olhos.
—Não se preocupe, eu dou um jeito— respondi.
—Tem algo bem especial preparado pra você, acho que vai gostar — ele sinalizou com os dedos para o seguir.
Assim que paramos em frente a um armário, meus olhos pousaram imediatamente em um vestido que estava pendurado por um cabide. Ele era longo em tom rosê bem delicado em cetim com alças finas. As costas eram nuas e havia um decote bem generoso nos seios. Ao seu lado, uma bolsa de mão pequena e um par de luvas brancas e na prateleira salto altos.
Hunter estava me olhando atentamente enquanto examinava meu traje de gala, seus olhos ficaram divertidos quando eu fiz uma careta.
— Mais quem em pleno século XXI usa luvas? —ele soltou uma gargalhada, provavelmente se divertindo às minhas custas — Nem ferrando eu vou usar isso!
—Tá bom, mas você tem que admitir que o vestido é bonito.
— Depende, foi você que escolheu? —perguntei imaginando ter sido uma escolha das meninas. Ally ou talvez Grace a analista de operações que parecia ter bom gosto.
—O capitão fez questão de escolher o vestido — ele falou informalmente me pegando de surpresa —Ele disse que combinava com você...sei lá, ele ficou todo estranho.
Mas que porra?!
—As luvas são meu toque pessoal — ele riu alto —não vejo motivo pra você ter odiado.
—Rhodes estava certo, você é um idiota— eu respondi enquanto juntava toda tralha e seguia para o vestiário enquanto ele zombava.
Depois de tomar um banho e me arrumar, eu tive que admitir que John tinha bom gosto. O vestido era bonito e sexy, perfeito para seduzir um homem. Parece que o capitão quis garantir que eu não passasse despercebida por Luke, já que o tecido se ajustou tão perfeitamente se agarrando ao meu corpo como uma segunda pele.
Não sei exatamente o que ele quis dizer sobre combinar comigo, já que Hunter foi bem evasivo, mas meu bumbum ficou lindo no vestido e se eu bem me lembro, John olhou pra ele a noite toda na festa que nos conhecemos.
Arrumei meus cabelos o prendendo em um coque elegante, deixando o decote exposto e me maquiei destacando os olhos.
Depois de checar o equipamento de comunicação e dar uma última olhada no espelho, segui confiante para a plataforma de embarque onde o helicóptero me aguardava.
Assim que vi o capitão, aquela maldita sensação de formigamento voltou e me senti tensa. Esse homem me deixa nervosa. Proibi mentalmente meu coração de querer disparar no peito quando concentrei todos os meus pensamentos na missão.
Ao me aproximar, percebi que não era a única nervosa ali. Os olhos de John percorreram todo meu corpo e se não fosse a raiva que ele sentia por mim, eu podia jurar ter ouvido um "nossa" escapar dos seus lábios em um sussurro.
Ao me posicionar a sua frente com a cabeça erguida e tentando parecer confiante, seus lábios entreabertos formaram uma linha e ele apertou o maxilar, um sinal corporal do capitão quando se sentia desconfortável.
— Alguma recomendação, senhor? — perguntei sabendo que ele estava ali pra isso.
—Sim! Quero que siga minhas ordens à risca sem questionar —ele me orientou já me repreendendo — Me mantenha informado o tempo todo e foque toda sua atenção em Luke.
—Entendido, mais alguma coisa, senhor?
Ele hesita por alguns segundos enquanto me observa, como se fosse dizer algo, mas desiste.
— Boa missão —se despediu rápido, virando as costas e descendo da plataforma.
Eu acho que não haverá um "tenha cuidado" ou "nos vemos em breve"
O capitão parece estar fazendo um ótimo trabalho me odiando. O lado bom disso é que podemos esquecer aquela maldita noite e seguir em frente.
O lado ruim é que eu não sei se quero esquecer.
