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Capítulo 7 - Dossiê

— O que está escondendo de mim? — perguntei a Miller assim que abri a porta e o encontrei em sua sala.

— Mas o que diabos pensa que está fazendo, tenente?

— Porquê não entregou o meu dossiê ao capitão?

— O quê?? — ele ficou confuso com a pergunta repentina.

— Não faz isso comigo, pai.

— Aqui eu não sou seu pai, sou seu general! E da próxima vez que entrar na minha sala assim...

— Só responde a droga da pergunta —eu berrei, fazendo-o levantar da sua cadeira furiosamente.

Ele caminhou se posicionando à minha frente me encarando com seus olhos serrados e rosto imponente.

— Você não tem ideia de como eu lamento ser seu pai agora garota, do contrário você já estaria presa por ser tão insolente.

— Pode mandar me prender, mas antes eu só quero que responda a minha pergunta.

Ele soltou um suspiro longo e pesado enquanto caminhava até a sua mesa novamente.

— Não existe dossiê, Sam. Não sobre você nos Estados Unidos.

— O quê?—eu balancei a cabeça em confusão.

— Sua ficha se resume a mera formalidade, entregá-la ao capitão era desnecessário, já que lá consta apenas aquilo que eu falei sobre você quando a apresentei à equipe.

— Do que está falando?

— Estou dizendo que era impossível você ter sido aceita nessa equipe com aquele maldito dossiê, Sam — ele explodiu— O que você fez é grave! Nem com sua experiência em campo e toda a minha influência eu conseguiria te colocar aqui dentro, se aquele maldito documento ainda existisse.

Fechei meus olhos, derrotada.

Eu fui de uma agente britânica brilhante, a uma tenente americana fracassada, tudo porque cometi um erro. Um único erro que me custou tudo.

— Eu sabia que não deveria estar aqui. Não tinha que ter saído de Londres — sussurrei.

— Você só continuou na agência porque Dan tem contatos lá, o que esperava? Aquilo que aconteceu em Moscou a dois anos foi grave, Samantha — o general disse duramente — Eu também tenho contatos e é por isso que você está aqui.

Não era nenhuma novidade o alto escalão usar seu poder para remanejar, manter e recrutar pessoas. Muito menos fazer documentos desaparecer, limpar ou sujar uma ficha e até destruir uma carreira.

Mas eu estava tão cansada disso.

Eu estava acostumada a deixar um rastro por onde passava, fosse de corpos ou sujeira. Eu estava cansada de ter sempre alguém limpando minhas cagadas.

Eu evitei isso a minha vida inteira: favores. Nunca tive a pretensão de sequer mencionar o nome do meu pai para ganhar um título ou alcançar uma posição, e no entanto eu estava ali porque ele tinha contatos.

Fiquei arrasada e me senti um lixo.

Foi inevitável não me torturar por tudo o que houve no passado. Eu odiava o que tinha feito e me odiava ainda mais pelo que havia me tornado.

Saí do prédio devastada e segui pelos corredores silenciosos e assim que alcancei a saída até o pátio principal, dei de cara com o capitão, a última pessoa que eu queria ver agora.

Eu virei na direção oposta a sua tentando evitá-lo a todo custo.

—Aonde vai, tenente? — ele perguntou. Sua voz parecia um tom mais calmo do que o da nossa última conversa.

— E porque você quer saber?

— A não ser que esteja seguindo para uma missão sozinha, está indo pro lado errado — ele apontou com os dedos — A saída é por alí.

— Mais que inferno! — eu praguejei, fazendo-o levantar as sobrancelhas.

— Está indo pra onde?

— Pra porra da minha casa—eu berrei.

— E vai andando?

Eu não respondi e continuei caminhando o mais rápido que consegui até alcançar a guarita da base. Assim que saí e percebi que estava no meio do nada, soltei uma meia dúzia de palavrões, enquanto sentava na calçada me amaldiçoando por ter arruinado minha carreira, a única coisa em que eu era boa de verdade.

— Você vai pegar uma insolação se ficar aqui —A voz marcante do capitão surgiu nas minhas costas.

— E desde quando o que acontece comigo é da sua conta?

— Desde que o general me mandou ficar de olho em você.

— Meu Deus, isso parece um pesadelo —eu disse enquanto passava as mãos no rosto.

Ele ficou em pé atrás de mim calado com as mãos nos bolsos por alguns momentos, enquanto eu sentia o sol escaldante queimar minha pele.

— Você tem sérios problemas de relacionamento —ele disse quebrando o silêncio.

— Obrigada por constatar o óbvio, senhor certinho—respondi rispidamente.

— Eu não sou certinho, mas pelo menos evito fazer um monte de merda, o que parece não ser o seu caso.

— Evita?—eu perguntei em tom julgador o fazendo lembrar da nossa noite nada convencional.

— Aquilo só aconteceu porque eu não sabia quem você era e sob nenhuma hipótese irá se repetir. Eu sigo regras, respeito meus superiores e não me envolvo emocionalmente com ninguém em meu ambiente de trabalho.

— Foi mal por destruir seu mundinho patético perfeito—sussurrei quase inaudívelmente, mas não o suficiente para seus ouvidos treinandos.

— Isso só vai acontecer se eu deixar, e eu não vou—ele respondeu irritado —Claramente você tem problemas de auto controle e possivelmente de subordinação, então quero que saiba que não vou tolerar nenhuma ordem minha sendo questionada seja você filha ou não de algum superior aqui. Eu não recebi nada que me dissesse quem você era e isso não só levantou suspeitas minhas como de toda equipe, o que já era motivo suficiente para delegação. Então não dificulta meu trabalho me fazendo te seguir por aí, porque eu não vou tolerar nenhum comportamento infantil da sua parte, você entendeu?

Caralho! Isso me excitou de tantas formas que quase esqueci que estava com raiva. Eu realmente tenho sérios problemas.

— Podemos entrar agora ou vou ter que te arrastar? — eu olhei em seus olhos e pareciam bem determinados em me arrastar para dentro.

Eu desejei intimamente que fosse para dentro dele.

Merda! Porque meu capitão não poderia ter a idade do meu pai ou pelo menos dentes podres ou uma perna torta? Qualquer coisa que não me fizesse deseja-lo tanto.

Se pelo menos não tivéssemos transado... Assim não teria como saber seu desempenho na cama.

E puta merda, que desempenho!

— Isso é uma ordem, tenente Banks —ele disse friamente, em seguida se virou e começou a voltar para a base enquanto eu me levantei e o segui relutante.

— Seja bem vinda ao seu primeiro dia!

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