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Capítulo 6

N

o amanhecer do terceiro dia, Cale e Jack retornaram. Eles já não sabiam mais qual era o dia da semana, só dia um, dia dois e assim suscetivelmente. A noite chegou e ambos inda não haviam tocado no assunto San Francisco até que Cale resolve quebrar o gelo.

― Eu gostaria de te fazer uma pergunta! ― falou enquanto tomava uma sopa quente.

― Mais uma? ― rebateu Jack. Eles começaram sorrir e o homem mais velho olhou para o rapaz meio diferente. Havia um brilho estranho em seu olhar, Cale particularmente não entendeu de primeira, mas depois a ficha caiu.

― Como eu queria que ele estivesse aqui. Ele estaria da sua idade, o meu Jacob! ― e voltou a tomar a sopa. ― Mas o que o garotão aí deseja saber mesmo?

O Jack tentou fingir que não estava triste, mas o sorriso amarelo dele já dizia tudo, assim como Cale, ele também havia sido destroçado por dentro pelos zinker´s. No entanto, para tentar deixar as coisas mais leves o rapaz decidiu continuar o assunto anterior fazendo a pergunta.

― Não sei porque, mas entendo o que os zinker´s falam!

Hhhmm! Isso é interessante! ― ele resmungou coçando a barba.

Jack era bem legal. Aquele cabelo grisalho e ondulado, com barba longa mais parecendo um mago da idade média, fazia quem estivesse do seu lado se sentir um aprendiz. Cale era esse aprendiz e seguiu ouvindo o que o velho homem dizia.

― Desde quando você percebeu que entendia a língua zinker? ― com outra pergunta.

― Desde a primeira vez em que os vi. Foi no abrigo quando saí correndo e vim parar aqui. Antes disso um deles falou e eu entendi o que dizia! ― respondeu o jovem. ― Tem alguma ideia ou motivo para isso?

Jack deu um longo suspiro antes de responder a referida pergunta.

― O “Fluido” como chamam, na verdade se trata mesmo de um fluido. Ele é retirado da medula espinhal dos zinker´s e combinado com o DNA humano. O fato de o fluido ter contato direto com cérebro dos alienígenas deve causar algum efeito no receptor ― concluiu.

― Nesse caso pode ser o de nos fazer compreender sua língua? ― complementou o homem mais novo.

― Sim! Vejo que sim! Isso também explica os líderes se comunicarem tão bem com os modificados. Certamente muitos deles não sabem ao menos o alfabeto que dirá um idioma alienígena. ― Jack completou e voltamos a tomar a sopa.

Então novamente voltou a falar do filho dizendo que o mesmo era fã de baseball e sonhava ser um grande jogador, ele era brilhante e os olhos de Jack brilhavam ao falar a seu respeito. Cale perguntou como havia acontecido, como havia sido no dia D e Jack respondeu nunca ter se aprofundado naqueles momentos tristes desde o dia em que eles aconteceram.

― Só que é muito bom jogar pra fora às vezes ― comentou Cale. Jack concordou gesticulando com a cabeça.

― Eu estava em Los Angeles naquele dia e levei-os comigo ― o homem começou seu relato. ― Eles ficaram num hotel à beira mar e quando estourou tudo eu peguei o carro e saí de encontro aos dois, mas quando cheguei, não havia mais hotel! ― Jack chorou e Cale não podia fazer nada para aplacar a sua dor.

― De longe eu observei a orla, mas ela mais parecia um inferno onde tudo queimava ― prosseguiu. Um lúgubre silêncio tomou conta da casa e Cale só podia observar as lágrimas silenciosas que rolavam no rosto de seu amigo.

― A Orla foi a primeira a desaparecer naquele dia! Todo o litoral do país foi engolido pelo fogo ― comentou o rapaz quebrando o silêncio. ― Mas me responde outra pergunta. Onde aprendeu a lutar daquela forma e que arma é aquela ali?

Cale apontou para a parede onde estava a arma de Jack. O homem de barba longa respondeu que se tratava de uma glaive. Uma arma composta por um bastão contendo uma ponta afiada numa extremidade e uma espada curva na outra. O jovem recordou ter visto algo semelhante nos games, mas ver uma tão de perto o deixou eufórico.

― Você me ensina a usar do mesmo modo com que você usa? ― perguntou. O jovem parecia uma criança, talvez ele fosse naquele momento. Jack respondeu com um sorriso sereno.

― Essa arma se chama “glaive”, muito comum nos temos antigos. Amanhã vou te mostrar um lugar. Agora vamos dormir, pois o dia foi longo ― o velho homem respondeu de forma objetiva ao mesmo tempo em que se levantava.

***

No dia seguinte Cale pulou da cama bem cedo. Jack já estava de pé e após tomarem o café da manhã eles rumaram para o Oeste. Era uma planície que ficava há alguns quilômetros de onde estavam então Jack contou mais um pouco sobre como aprendeu a lutar. O rapaz achou incrível, um nerd lutador era só o que faltava. Jack havia crescido em uma família de samurais, já que seu pai trabalhou na casa de um velho japonês quando ainda existia o Japão.

O filho desse senhor o ensinou muito de artes marciais e Jack revelou ter interesse em passar todo esse conhecimento para Cale. O rapaz pulou de alegria.

― Mas lembre-se, essa arte requer muita disciplina e autocontrole ― ele advertiu. Cale assentiu e disse estar pronto.

***

Por vários dias Jack ensinou o básico a Cale até seguir para o mais difícil. O rapaz levava um tombo atrás do outro tentando segurar o glaive e atacar ao mesmo tempo. Mas o velho homem o sempre o exortava de que deveria se concentrar mais. Ele também o ensinou os pontos fracos nas armaduras zinkers. Elas eram compostas por uma série de blocos que se conectavam por intermédio de uma fibra especial, fibra essa que absorvia a energia dos ronel´s e até da rede elétrica. Mas isso não era um problema para eles, já que não havia mais rede elétrica.

Os Zinker´s destruíram tudo. Usinas de energia, rede de internet e telefone, tudo. Apenas eles e os modificados tinham acesso à comunicação, mas alguns humanos conseguiam hackear sinais aleatórios e enviar mensagens a outros humanos através de rádio. Foi assim que os dois ficaram sabendo a respeito de um grupo que decidiu lutar contra os Zinker´s. Eles até conseguiram explodir um depósito de fluido em algum lugar na América do Sul.

― Eles são muito corajosos! Ninguém jamais tentou enfrentar os alienígenas de frente até agora! ― comentou o rapaz empolgado. Mas Jack não pensava da mesma forma.

― Não se empolgue, Cale! Ah menos que existam alienígenas bonzinhos lá fora, não há como lutar contra os Zinker´s ― ele falou descrente. ― Entregamos o nosso mundo de bandeja para eles, agora acabou, é game over para a raça humana!

― Vocês entregaram! ― respondeu sem pensar o rapaz. ― Era o meu planeta, o planeta do seu filho. De dezenas, bilhões de filhos que os pais roubaram o futuro deles apenas por poder!

― Eu sei! Eu concordo com você e amargo esse remorso todos os dias! ― Jack respondeu chorando e batendo forte sobre a mesa.

― Me desculpe! Você tem razão, a merda já foi feita e não temais como voltar atrás! ― arrependido do disse, Cale caminhou na direção do velho e o abraçou, nesse momento o Jack começou a passar mal. ― Jack o que você tem? Jack fala comigo!

Cale o ajudou a se deitar no sofá e ele apontou para sua mochila onde estava o remédio que sempre tomava. O velho homem se contorcia de dor enquanto o mais moço pegava o remédio e a água e ele bebeu. Cale ficou assustado e viu que o remédio se tratava de morfina, porém não quis perguntar a respeito e o deixou descansar com tranquilidade.

Depois de algumas horas o Jack já estava bem melhor e foi à vez de Cale questionar o porquê da morfina.

― Mais cedo ou mais tarde você teria que saber e eu vou lhe contar...

Jack revelou tinha câncer e aquilo quebrou o chão abaixo dos pés do rapaz. Ele disse que se tratava de um câncer na cabeça do pâncreas e que o mesmo estava bastante avançado.

― Mas Jack! Podemos cuidar disso, os zinkers, eles deram remédios para curar essa doença e eu posso tentar roubar eles pra você ― o desespero tomou conta do jovem que segurou fortemente nas mãos do velho homem, mas a resposta do mesmo o deixou ainda mais triste.

― Agradeço meu bom rapaz, mas eu não quero nada que venha dos Zinker’s! Eu não quero dever nenhum favor àqueles malditos que mataram a nossa família! ― respondeu tocando seu rosto.

― Mas o que eu vou fazer sem você? Você foi o que mais se pareceu com um pai na minha vida, Jack! Não me deixa! ― o rapaz começou a chorar debruçado sobre sua barriga.

― E você foi o meu filho! ― falou acariciando lhe a cabeça. ― Você foi à oportunidade de ser o que eu não fui com o meu Jacob. Obrigada, Cale! Mas eu ainda não vou morrer. Ainda tenho tempo o suficiente para ensinar a você tudo o que sei!

O jovem levantou a cabeça e olhando para Jack, era como se o mesmo estivesse olhando para o seu pai. Em seguida a ajudá-lo a se levantar do sofá, Cale o conduziu até seu quarto e lá ele finalmente o homem mais velho dormiu, ao contrário de Cale. Ele passou a noite inteira rolando na cama pensando em como seria sua vida depois da partida de Jack e decidiu se preparar. Na manhã seguinte, assim que tomou seu café, ele foi treinar, mas dessa vez com o glaive e a espada juntos. A cada movimento uma lágrima corria de seus olhos.

Ao retornar para casa Jack já havia preparado o almoço dos dois.

― Por que não me esperou? Você deve descansar Jack! ― berrou chamando sua atenção.

― Ei! Eu ainda não estou morto, garoto! E aí, gostou de como a glaive ficou? ― ele respondeu com um sorriso e outra pergunta.

― O que tem ele? O que você fez? ― perguntou curioso.

― Eu o modifiquei! Lembra-se de quando eu disse que iria dar uma calibrada nele? Pois é, eu o revesti com liga de nióbio misturado com triênio ― mais uma vez ele sorriu.

― Então esse mineral ainda causa. Onde você o encontrou? O grafeno? Eu vi que ficou bem mais leve e a espada também ― referiu-se olhando e erguendo as duas armas de uma só vez.

― Não foi só a sua mãe quem pegou brinquedos dos Zinker´s, mas eu fiz isso especialmente para você! Você é um guerreiro, Cale e mesmo que a humanidade se extingue em toda a sua totalidade, algo de você permanecerá nesse mundo! ― ele falou como se estivesse diante de um Hércules ou outro herói grego.

Um sorriso foi a melhor resposta que Cale encontrou. Aquelas armas finalmente eram suas, mas com o passar do tempo o Jack ia ficando cada vez pior. O rapaz permaneceu ao seu lado por cerca de dois anos e meio e muito aprendeu. Nesse período eles perderam o simpático Azul para uma serpente venenosa, mas foi melhor para ele. Azul era o último cachorro vivo naquele país e Cale disse que talvez ele quisesse ir para junto dos seus.

***

Os boatos corriam de acordo com que o tempo avançava. Os dois amigos ficaram sabendo através de peregrinos que nas minas localizadas onde ficava a antiga floresta amazônica, milhares de pessoas morriam todos os dias por conta das más condições de vida e outras simplesmente preferiam dar cabo de si próprias ao invés de permanecer no sofrimento. Cale pensava no quanto tudo aquilo era irônico, o mundo inteiro brigou por aquela floresta, mas no final ninguém conseguiu tê-la para si.

Mais e mais o mundo ia ficando pior, até que numa tarde fria, Jack ouviu um barulho estranho ao redor da casa. Cale pediu para ao mesmo que fizesse silêncio, ele assentiu, pois já não conseguia mais andar direito por causa da doença. Ao abrir a porta o rapaz se deparou com um modificado.

― Localizei! A pista estava correta ― antes que ele terminasse de falar Cale antecipou dando-lhe diversos socos no rosto quebrando-lhe o capacete.

― Jack vá para o porão! Estamos sendo atacados por Zinker´s!

O rapaz alertou, porém já era tarde e motos flutuantes cercaram a casa. Cale pegou seu glaive e espada, empunhando-os.

― Venham seus malditos! ― e colocou-se em posição de combate. Jack se escondeu atrás de um armário velho enquanto Cale só queria matar àqueles a quem se referia por (cara de porco).

― Milg herno kha-i! (Eu quero o guerreiro com as armas)! ― dizia o líder do esquadrão. Eles sempre vinham sob a liderança de apenas um e ele era exatamente quem o guerreiro queria.

― Hekhoy fleg sarg, koi-kho! E eu quero você, imundice! ― respondeu o jovem no idioma alienígena.

Cale empunhou sua espada e glaive. Ele gritou alto para desafiando seus oponentes. E não é que eles obedeceram?! Vieram cinco de uma só vez obrigando Cale a se mexer. Ele no meio deles desferindo golpes que atingiam desde os membros inferiores e superiores como o peito. O guerreiro girava o glaive e traspassava as armaduras dos adversários como se elas fossem manteiga. Foram muito boas as mudanças feitas por Jack.

Cale prosseguiu retalhando os modificados, mas o estranho era que o líder apenas o observava, ele parecia estar gostando do que via. O rapaz seguiu em combate e perdeu a noção de tudo. Quando percebeu viu apenas corpos desmembrados sobre o chão. Cale suspirou profundamente e ficou feliz com o que tinha feito, mas ouviu a voz de Jack chama-lo e ao olhar para trás de sua posição, viu o Zinker atravessar o corpo de seu amigo com uma espada curta.

― NÃÃÃOO! Jack! ― mais uma vez o mundo desabou diante de seus olhos.

― Hakoy-há! Kimey-há gorg hi! ― o alienígena falou desafiando-o para lutar a seu modo. Ele retirou a parte de cima de sua armadura e contava com o ódio de Cale para derrota-lo.

― Que seja! Como dois gladiadores até que reste apenas um vivo!

O jovem guerreiro aceitou o desafio olhando para Jack que agonizava com metade do corpo para fora da sala. O dia estava quase terminando e os últimos raios de Sol dava lugar à noite escura que se aproximava.

― Juro por todos que amo! Eu vou te matar! ― proferiu o rapaz empunhando suas armas.

O alienígena fez o mesmo, então começaram uma luta épica. Suas armas se cruzavam fazendo um barulho que ecoava ao longe, eles pareciam dois gladiadores sem arena e sem plateia. O Zinker atacava tanto com a espada quanto com os punhos. Ele era veloz, mas Cale também não se deixava abater e contra golpeava. Os dois seguiam lutando, o ser atacava com a espada e o guerreiro defendia com o glaive até que ele conseguiu retirar o glaive de Cale laçando-o para longe. O rapaz ficou apenas com a espada, mas era o suficiente.

Mesmo vendo a determinação do guerreiro humano, o Zinker saltava sobre o mesmo de forma assimétrica, Cale por sua vez fazia os movimentos ensinados a ele por Jack. O jovem sentia o peso e a pressão sempre que o ser o atacava e cada ataque era seguido de um soco, até que Cale baixou a guarda permitindo-se se espancado. O rapaz procurava proteger a cabeça com os braços e caminhava devagar para trás, até que percebeu estar exatamente ao lado de Jack caído sobre o chão.

― Você é diferente deles, Cale! Nunca se esqueça disso. Você será sempre maior!

Aquelas palavras o encheram de força e o jovem se reergueu. Quando Zinker veio para golpeá-lo outra vez, ele o segurou pelo punho. Isso porque vieram à sua lembrança as palavras de sua mãe e de tudo o que lhe havia sido roubado pelo povo Zinker, então começou a bater com toda sua força. Ele gritava e batia até que o alienígena perdeu o equilíbrio e caiu para trás. Cale por sua vez seguiu batendo e esmurrando até que já não lhe sobrou mais forças, então ele viu que estava ao lado do seu glaive e sem pensar o enterrou no coração de seu oponente. Em seguida Cale olhou para Jack e correu para junto do mesmo que já estava em seus últimos momentos.

― Realizei o meu sonho! ― ele sussurrou com a voz enfraquecida. Cale o segurou em seus braços enquanto ele tocava seu rosto. ― Você se tornou o guerreiro que eu imaginei que se tornaria desde que comecei treiná-lo.

― Não fala mais nada! Descansa! ― o rapaz pediu em meio ao choro.

― Eu já vou descansar garoto! Só nunca deixe de lutar. Viva! Enquanto você viver, eu viverei.

― Foi o que minha mãe me disse! Mas eu não quero te perder! Fica comigo, Jack! ― sussurrou quase sem voz, mas o rapaz sabia que já era o momento de seu amigo partir.

― Eu sempre estarei com você, garoto! Mas vou ficar te olhando juntamente com o Azul, sua mãe e o seu pai! ― Jack respondeu segurando sua mão, mas aos poucos seu aperto foi enfraquecendo. Mais uma vez Cale perdeu alguém que amava restando apenas gritar o mais alto que podia. Desde então o rapaz jurou nunca mais se apegar a ninguém.

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