Capítulo 2
Alícia
Me chamo Alícia Griffith e tenho vinte e cinco anos. Nasci na cidade de Atlanta que fica no Estado da Georgia, conhecida por ser uma das cidades mais belas da América e o destino de muitos turistas do mundo todo. Minha cidade foi um elemento importante durante a guerra civil norte americana assim coo a luta pelos direitos civis das pessoas negras na década de 1960. O que não me falta é orgulho de ser dessa cidade maravilhosa, mas no momento estou longe de casa. Atualmente trabalho para uma dondoca de Nova York chamada Vanda McKenzie.
Meus pais me criaram com muito carinho e minha mãe sempre me disse que eu a daria muito orgulho. Falta pouco ara eu me formar em advocacia e assim realizar o grande desejo dos meus pais. Nesse momento eu estou me preparando para retornar para a minha cidade natal, não vejo a hora de abraçar novamente a minha família.
Mas não vamos falar da minha cidade natal e sim, de mim. Parada em frente ao espelho, vou passando o meu batom, estou há poucos minutos de sair em viagem para acompanhar a minha patroa, mademoisalle Vanda McKenzie até o meu berço natural. Já fazem dois meses que ela não vê o noivo, senhor Brandon Hawks e agora resolveu fazer uma visitinha. Minha patroa até que é legal, isso porque eu raramente a vejo, pois sempre está ocupada com alguma coisa fútil como: ir a um spa, fazer as unhas, arrumar o cabelo, etc. Ela é linda, alta, magra e com um corpo de dar inveja, não que eu não tenha os meus próprios atributos.
Não sou aquela mulher padrão de beleza, que deixa os homens loucos quando as vêm. Pelo contrário, gosto mesmo é da simplicidade. Minhas amigas vivem dizendo que eu nunca irei arranjar um namorado, pelo menos, não um que seja do nível do senhor Hawks. Mas quem disse que estou à procura de um bilionário? Logo eu que mal estou conseguindo me formar em advocacia. Melhor me deixarem com meus óculos de fundo de garrafa e minhas roupas folgadas. Caso aparecer um gatinho no meu caminho eu estarei no lucro.
— Por que está vestida assim? Ah, meu Deus, como pretende acompanhar a senhorita McKenzie vestida desse jeito? — diz Margot, sem ao menos me cumprimentar antes. — Vamos, deve haver alguma coisa mais decente que possa vestir! — ela fala, revirando minhas roupas — achei!
— O que tem de errado com a minha roupa, Margot? Nós não vamos a Atlanta? — pergunto-a. — E esse é o terninho que uso nas minhas apresentações na faculdade.
— Caso você não saiba, as empregadas de Monsieur Hawks se vestem parecendo executivas e por conta disso é que Vanda gosta que suas acompanhantes não fiquem para trás! — ela responde. — E vai ser esse e pronto. Vista-se e se apresse, pois os carros já estão lá fora e as bagagens todas dentro deles!
Suspiro!
Nossa, ainda bem que ela não falou nada do meu cabelo e nem da maquiagem, senão eu teria de arrumar tudo outra vez.
— Ah! E esteja preparada, pois quando chegarmos a Atlanta eu vou te levar às compras, certamente que sua mala não está adequada ao requinte para onde você está indo!
Margot fechou a porta. Nossa, ela é bem legal, mas quando se sente pressionada pela patroa, fica insuportável. Parece que Margot é quase como uma mãe para a Vanda, pois cuida dela desde criança, pelo menos é o que as outras que trabalham aqui há mais tempo do que eu, me disseram. Troco a minha roupa e vou para a frente da mansão onde os carros já nos aguardam e quando estou na porta para entrar em um deles, lá se vem a Margot novamente.
— O que pensa que está fazendo? — ela pergunta.
— Entrando no carro. Por quê?
— Tudo bem, venha comigo. Você vai com a gente na Limusine, foi uma determinação da mademoiselle!
Que ótimo! Agora eu devo ficar de babá juntamente com a Margot. Em pensar a um dia atrás, Kelly me disse que nem sempre os que viajavam com Vanda trabalhavam, era mais para mostrar o empoderamento da dondoca, mas vejo que esse não será o meu caso. Mas o bom é que estou retornando à minha Atlanta depois de alguns anos. Me mudei para Nova York quando eu ainda era adolescente. Meu pai se chama Antony Griffith e minha mãe, Natalie.
O meu pai é um consultor de vendas e minha mãe é professora particular de crianças com necessidades especiais, ela se formou em psicopedagogia e os pais gostam muito dela. Não somos ricos, mas o que temos dá para vivermos com dignidade. Já eu decidi cursar advocacia, pois adoro desvendar casos mirabolantes, quero atuar na área policial. O Meu pai queria que eu seguisse a mesma careira que ele, mas respeitou a minha decisão. Nunca gostei de ser totalmente dependente dos dois, por isso trabalho desde que completei dezoito anos e escolho sempre os trabalhos que não atrapalham os meus estudos.
Li num jornal que Vanda McKenzie estava precisando de uma moça que tivesse boa aparência, bons modos, para que lhe servisse como uma espécie de dama de companhia. Me candidatei e pelo fato de estar quase terminando o meu curso, fui aceita. Ela é legal, quase não vive pegando no pé das empregadas como fazem as demais dondocas, mas já soube que é uma mulher extremamente territorial, inclusive soube que a moça da qual eu substituo foi despedida porque se engraçou pelo noivo dela.
Mas vamos deixar essas coisas de lado, por enquanto. Estou no interior da limusine e as duas estão sentadas bem de frente para mim. Credo, elas conversam feito maritacas. Falam do vestido de casamento, dos convidados, das inúmeras mulheres com as quais o noivo vive se deitando..., mas o engraçado nisso é que ela não parece se importar muito com o último detalhe. Gente rica é bem estranha.
Chegamos ao aeroporto, finalmente, pois meus ouvidos já estavam doendo. O avião da família possui um quarto para o descanso dos patrões enquanto viajam, mas acredito que eles só vão para lá depois de o avião ter decolado.
— Viu só. Ela nem olhou pra você. — diz a francesa Margot, com um singelo sorriso.
— E isso é bom? — pergunto.
— Claro que é. Agora imagina se você está vestida naquilo? Ela iria surtar. Mas vamos que eu ainda quero aproveitar um pouco desse lindo dia de verão. — ela diz, toda cheia de empolgação. — E também matar a saudade do meu Steve.
Sorrio. O nome da Margot é de fato, Margarida Beaurepaire. O nome é difícil mesmo de ser pronunciado, mas ela é uma pessoa maravilhosa. Ela sempre viveu com os McKenzie e cuida da Vanda desde que ela era criança. Steve deve ser alguém que trabalha com o Hawks, só pode. Subimos todos a bordo.
O piloto diz a todos que ponham os cintos e deixem as poltronas na vertical, cuidados básicos de antes da decolagem. Vanda está no quarto, há poltronas com cintos lá dentro, mas quando o avião estava ganhando altitude, ouço um barulho estranho, seguido de um solavanco muito forte. Não fosse os cintos de segurança, teríamos ido parar no teto.
— Mas o que é isso? — eu pergunto. Todos estão apreensivos, quando uma comissária de bordo entra.
— Por favor, pessoal, todos fiquem calmos e não saiam de suas poltronas. Permaneçam sentados e com os cintos!
Mal ela fechou a boca e outro solavanco ocorreu, mas dessa vez foi bem maior. O avião caiu. Eu vi a pobre comissária ir com tudo em direção ao teto do avião e cair violentamente no chão. Caramba, ela está inconsciente e o braço direito parece que está quebrado, ela caiu com o rosto no chão.
Ouço gritos e em meio à fumaça eu vejo Vanda correndo e gritando, ela passa por cima da pobre moça que está inconsciente. Ela e seus homens cuidam logo em abrir a porta da emergência, melhor, os homens abrem e ela sai correndo. Um tumulto acontece, mas eu tenho de me concentrar, a uma pessoa que precisa da minha ajuda. Enquanto todos saem correndo e gritando, eu começo a arrastar a moça de modo que não lhe cause muitos danos, até que Margot retorna chamando o meu nome.
— Aqui! — respondo. — Tem uma moça muito ferida e ela precisa de ajuda.
— Tudo bem, os bombeiros estão a caminho. Vamos!
Margot e eu conseguimos levar a comissária para junto da porta de emergência, quando um bombeiro chega para nos ajudar. Acredito que estou na faculdade errada. E se eu tivesse ingressado na medicina? Sei lá! Agora eu fiquei confusa.
— Ela bateu muito forte contra o teto na hora da queda. — Expliquei ao bombeiro. — Eu vi tudo!
— Tudo bem, moça, você é uma heroína, mas agora deixa com a gente! — ele diz.
Xiii, certeza que a Vanda vai chiar pelo resto do dia. Além da comissária, nenhum outro se feriu gravemente, apenas escoriações e alguns passaram mal por causa da fumaça. Fora isso, tudo ocorreu bem. Tirando o meu coração que quase saiu pela boca.
***
Depois do susto, ficamos sabendo que houve uma falha mecânica em um dos motores, mas que uma investigação já foi iniciada. Pobre do mecânico. A comissária também estava bem, ela havia passado por uma cirurgia, mas não corria risco de morrer e sendo assim, Vanda decidiu seguir viagem no avião de um amigo. Aquele tipo de “amigo”. Agora entendo o motivo de ela não sentir ciúme do noivo. Não disse que gente rica é doida.
***
A viagem foi tranquila e estamos aqui em Atlanta. Ah! A visão dos arranha-céus me deixa fascinada. Fico imaginando se poderei visitar os velhos amigos, mas por enquanto eu estou mais preocupada em saber como será o meu cronograma aqui, já que a patroa exigiu que eu a seguisse. Quando nos aproximamos da mansão eu mal posso acreditar no que vejo, pois quando eu morei aqui pela última vez, não havia construções nesse terreno. Caramba, do portão até a frente da mansão são três minutos de carro e o jardim é muito lindo. A casa está localizada à beira de um penhasco, mas segundo Margot, ela foi construída assim a pedido do próprio senhor Hawks. Deve estar querendo se sentir um Homem de Ferro.
Entro e fico a observar a enorme sala cujos móveis datam do período renascentista. O lustre principal é enorme e feito do mais puro cristal, mas os sofás são retráteis dando um ar de modernidade ao local. A decoração é um tanto confusa, pois mistura a beleza do rústico com a modernidade atual. Só essa sala cabe toda a minha casa dentro e ainda sobra espaço. Estou embasbacada com tamanho luxo, quando sou surpreendida por uma mão em meu ombro.
— Oi, desculpa se te assustei. Sou Mary e vou mostrar o seu quarto.
— Ah, sim. Eu é quem estava feito boba olhando o lugar — eu respondo, meio sem graça.
— Não, todos os que vêm aqui ficam hipnotizados com a suntuosidade da mansão. — ela diz — o senhor Hawks é meio estravagante com a decoração. Logo vai poder conhecer tudo por aqui, eu mesma vou te mostrar, agora vamos.
Mary me levou por baixo das escadas e seguimos por um corredor até uma porta que dava para o lado fora da mansão. Então seguimos por uma trilha feita com pedras de calcário, pelo menos era o que dava a intender. Enquanto caminhávamos, ela contava como era trabalhar ali e perguntou como era Vanda, seu temperamento e se a mesma era muito exigente. Contei somente a verdade e ela implicava em eu não saber muito. Chego a uma casa de dois andares, Mary explica que é a casa dos empregados, mas que Margot ficaria na mansão.
— Por que? — pergunto curiosa.
— Certamente você é mais uma das que só veio para dar volume ao comboio.
É, tomara que ela esteja certa!
***
A noite cai e eu não vi Vanda e Margot desde que cheguei. Também não saí do meu quarto, que por sinal... é maravilhoso. Tem vista para o parque e dá para ver o penhasco. Estou deslumbrada com a vista, quando enxergo ao longe vários carros pretos subindo a ladeira que dá acesso ao protão principal da propriedade e pela sofisticação dos carros, só pode ser o famoso Brandon Hawks. Será que ele é mesmo tão lindo quanto apresentam as revistas e os jornais?
— Quem é? — pergunto ao ouvir bater à porta.
— Sou eu, Mary! Vim avisar que está na hora do jantar!
Nossa, havia me esquecido, mas vamos lá. Será que vamos jantar junto com os patrões? Não é possível!
