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Capítulo 3

Ela se afastou do manequim, encarando-o por um instante longo demais, tentando imaginar uma mulher desconhecida usando-o. Uma imagem vazia passou por sua mente, e ela cerrou os dentes, virando-se para as portas duplas no fundo da sala. Viu Orlando, Élise e Thiago sentados a uma mesa redonda decorada com flores e talheres de prata. Pareciam estar conversando, esperando que ela se atrasasse.

Mas quando Dante saiu do quarto com os vestidos e foi até o grande carvalho, carregando uma caixa branca, eles pareceram surpresos.

"Isso foi rápido", disse Thiago, arqueando as sobrancelhas enquanto olhava para Dante.

"Foi fácil. Escolhi o branco", disse Dante com um sorriso torto, dando de ombros.

Dante Alessandro De Santis era um nome que Isadora Bellanova conhecia desde sempre.

Ao longo de sua vida, repetiram aquele nome para ela como se o tivesse esquecido. Ela conseguia ouvir oito sílabas e três palavras enquanto dormia, em silêncio. Aquilo a mantinha cativa, sufocando-a, tirando-lhe a respiração. Era um nome que ela ansiava esquecer.

Todo dia era essa coisa de Dante. Aquela coisa de Dante.

'Dante não gosta de cabelo curto em mulheres. Você não deveria cortar o cabelo.'

'A cor favorita de Dante é vermelho. Compre para ele algumas roupas vermelhas e use batom vermelho.'

'Dante não gosta de vozes altas. Ele fala em voz baixa e calma.'

Dante não gosta de responder a muitas perguntas. Não discuta com ele nem o questione.

—Dante não lhe será fiel. Não espere ser a única mulher.

Ela estava à beira de um colapso. Tinha sido instruída e preparada para tudo sobre ele, essencialmente treinada para ser a esposa perfeita. Sabia que tinha de aceitar tudo o que ele quisesse fazer com ela: mandá-la morar em outra cidade ou mantê-la trancada no porão da casa; ela tinha de aceitar.

E, para seu azar, ela teve que se casar com o Rei da Coroa, o chefe de todos os chefes, o Patriarca da Coroa Negra. Dante De Santis era um nome temido em todo o mundo. Ele tinha governos à sua mercê e homens ricos em sua folha de pagamento. Ele não dava segundas chances, e ela sabia do que ele era capaz.

Desde que aprendeu a ouvir, os gostos e desgostos de Dante foram incutidos nela. Sempre que sua cor favorita mudava, ela sabia. Sempre que ele decidia que não gostava de certa comida, ela sabia. Ela aprendeu que tipo de roupa ele gostava, tanto para si mesmo quanto para mulheres, e sua linguagem corporal. Ela sabia que quando ele balançava a cabeça uma vez e fechava o polegar em punho, ele estava irritado. Ela sabia que quando ele inclinava a cabeça para trás levemente, ele estava satisfeito. Ela sabia que ele se sentia desconfortável quando puxava os ombros para trás e seu lábio tremia. Ela sabia que quando ele olhava para o pulso direito e coçava a nuca, ele estava mentindo. Ela sabia cozinhar todas as refeições que ele já havia apreciado. Ela sabia que ele preferia chá a refrigerantes. Ela sabia que, depois de uma longa noite de trabalho, ele queria um café Pellini Top com uma colher de chá de açúcar (sem creme) e um ovo pochê. Durante uma ressaca, ela queria seu café com um copo grande de água com bebidas hidratantes e uma fatia de torrada com banana.

Ela conhecia Dante Alessandro De Santis melhor do que a si mesma.

Era um robô programado para satisfazer seus clientes e agradar a todos com quem falasse; ele podia se adaptar e mudar de atitude para fazer qualquer pessoa feliz. Sabia que Salvatore De Santis, pai de Dante, gostava de sorrisos e elogios — que eram mais fáceis quando seu físico era elogiado — e sabia que sua mãe, Renata De Santis, gostava de abraços e de garotas que a ouviam sem dizer uma palavra — especialmente quando ela falava das outras mulheres do Clube Dourado.

Ela era uma atriz programada para impressionar.

Era um robô, agindo para obter aprovação.

Ela era Isadora Bellanova.

☠︎

A viagem até o Castelo de Bellanova foi repleta de conversas.

Sua mãe pegou em sua mão e permaneceu em silêncio enquanto seu irmão e seu pai conversavam. Ela olhava fixamente pela janela, com uma expressão vazia, e parecia não ouvir nada, mas ouvia. Ela sempre ouvia.

“Fale com Renata e Salvatore em siciliano; eles vão gostar”, disse o pai, rapidamente listando as proibições e as coisas que ela tinha que fazer. Era como se ele tivesse esquecido que ela já sabia de tudo; ela não precisava ser lembrada.

Mas ela assentiu obedientemente.

— Chega, pai. Ela sabia — você se certificou disso — disse Thiago, com rigidez, enquanto dirigia o carro pela entrada do Castelo Bellanova. Com a interrupção, Orlando imediatamente se calou e deixou os ombros caírem. Ele não ousaria discutir com o próprio filho agora que era maior e mais alto que ele.

Thiago... o que ela faria sem ele para defendê-la? O que ela faria quando ele não estivesse mais lá para protegê-la? Ela não sabia, mas enfrentaria a situação como sempre.

Sua mãe apertou sua mão e olhou para ela, retribuindo com um sorriso tranquilizador, embora lágrimas brotassem em seus olhos. Foi Élise Bellanova quem incluiu a cláusula no contrato vinte e três anos atrás — quase vinte e quatro, com seu aniversário se aproximando — que permitiu que Isadora permanecesse escondida até hoje. Élise seria quem protegeria seus filhos a todo custo, mesmo que isso significasse levar um tapa do marido naquela noite.

Thiago parou o carro e saiu. Ela olhou pela janela. A família De Santis ainda não havia chegado. Ótimo.

Mas havia outras pessoas. Tanta gente, tantos olhares. Devia haver pelo menos duzentas pessoas. Seriam todas parentes diretas da Coroa Negra? Eu só conseguia imaginar quantas pessoas estavam no casamento.

Ela esboçou um sorriso encantador e forçou os olhos a brilharem como se estivesse feliz. Nesse instante, seu irmão abriu a porta para ela e ela saiu.

Isadora Valentina Bellanova, já não está mais escondida.

Todos se viraram para ela, mas ela não deu atenção; manteve uma expressão impassível e uma postura confiante. Permaneceu ereta, ombros para trás, e caminhou em linha reta, um pé à frente do outro. Sua mente permaneceu vazia, agindo no piloto automático e fingindo não notar os olhares descarados da multidão.

Isadora era de uma beleza singular. Ela estava deslumbrante desde que se livrou do aparelho ortodôntico e da acne, e arrumou aquele ninho de passarinho horrível que tinha. Quando saía de casa, era impossível evitar os olhares. Os homens a abordavam na rua, a elogiavam e procuravam qualquer desculpa para conversar com ela. As mulheres eram mais sutis quando a achavam atraente: esbarravam com ela por acaso e puxavam conversa antes de fazer o pedido de casamento. De qualquer forma, ela era deslumbrante.

As famílias da Coroa Negra não conseguiam conter seus sussurros e olhares curiosos, tentando encontrar uma razão para que ela tivesse sido mantida escondida por tanto tempo, dada sua beleza. Era quase um crime mantê-la longe de olhares indiscretos. Seus olhos seguiram a família Bellanova enquanto subiam os degraus até a entrada do Castelo Bellanova e continuaram tentando segui-los enquanto desapareciam lá dentro.

"Leve os presentes e fique na ala leste até a chegada dos De Santises. Você sabe o que fazer", disse o pai, acenando com a cabeça para Isadora e olhando-a diretamente nos olhos para ter certeza de que ela havia entendido. Ela assentiu imediatamente, e o pai também, satisfeito. Ele se virou e levou a mãe embora antes que ela pudesse sussurrar palavras de encorajamento.

Porque os pecados da família Bellanova sempre retornavam.
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