A Cúmplice do CEO (PARTE 2)
DUAS SEMANAS APÓS a minha aprovação ao cargo de assistente pessoal de Carlos Eduardo Castellini Jr., eu comecei a me inteirar melhor sobre o funcionamento dos diversos setores em que o grupo de tecnologia trabalhava e admito que não foi nada fácil me acostumar com a rotina quase caótica dentro daquele colosso de concreto, aço e vidro que emergia em meio à avenida Padre Manoel Miranda, na Zona Leste de São Francisco d’Oeste.
Eu tinha sido contratada para servir diretamente Carlos em todas as suas obrigações diárias à frente da presidência da empresa e era responsável direta pela organização da sua agenda, por fazer o primeiro contato com os clientes e empresários diversos com quem ele se reunia constantemente. Eu administrava até mesmo os seus compromissos pessoais.
Carlos havia assumido as responsabilidades de CEO há pouco tempo, mas a sombra de seu pai, o homem que havia fundado o império dos Castellini, ainda pairava sobre todos no interior daquela torre imensa e assustadoramente fria que era a sede da Castle. Depois da morte do progenitor, ele tinha sido tutoreado à frente dos negócios da família pelo segundo homem em comando, o ambicioso e calculista Marcos Eiras, mas tão logo conquistou a sua maioridade, resolveu assumir legalmente o seu lugar junto ao trono do castelo.
A mãe de Carlos era uma socialite que muitos anos antes do nascimento do único filho já badalava nas noites de São Francisco d’Oeste ao lado das amigas finas e milionárias da alta sociedade. Zuzu Castellini, como chamavam Zulmira, era uma mulher envolta em soberba que não perdia uma oportunidade de aparecer nas colunas sociais à frente das diversas obras de caridade que inventava para se fingir de defensora ferrenha dos mais pobres. No fundo, no entanto, odiava cada uma das ações a que se obrigava a fazer em pró da boa imagem da família abastada.
A morte do marido era rodeada em mistério, mas tudo que se sabia publicamente era que depois dela, tanto mãe quanto filho haviam dobrado os gastos com suas obras assistenciais e eu mesma acabei tendo que repassar um sem-número de cheques bastante polpudos para instituições públicas como o Orfanato Céu-Azul que abrigava crianças carentes num sobrado localizado na Zona Leste, para a Paróquia São Judas Tadeu que promovia a distribuição de um sopão aos moradores em situação de rua do centro da cidade e até para o Hospital do Câncer, cujos programas assistenciais atendiam gratuitamente mais de cento e cinquenta casos todos os meses, além de tratar outras dezenas de pessoas sem custos adicionais.
Na frente das câmeras fotográficas e de TV, os Castellini pareciam incrivelmente generosos apesar da sua posição social massivamente privilegiada, mas quanto mais eu trabalhava ao lado de seu jovem herdeiro, mais eu descobria que toda aquela bondade não passava de uma fachada que escondia uma faceta muito mais obscura sua.
No meu terceiro mês de trabalho, Carlos pediu para que eu cancelasse os seus compromissos depois das cinco horas da tarde e, sentado em sua cadeira presidencial, começou a afrouxar o nó Windsor da sua gravata grená. Ele estava impressionantemente lindo em seu Armani chumbo aquele dia e me sentei à sua frente à espera das suas novas ordens.
— Quer que eu ligue para a sua mãe avisando que não irá ao jantar beneficente com o desembargador e a sua esposa essa noite, senhor?
Ele abriu o primeiro botão da camisa branca asseada e atirou a gravata sobre a mesa. Ignorando totalmente a minha pergunta, comigo atenta de caneta em punho prestes a marcar as suas ordens na agenda que carregava a tiracolo para cima e para baixo, ele me surpreendeu:
— Você tem companhia, Sula? Um namorado, um ficante, um vizinho… alguém com quem se divirta de vez em quando?
Senti um leve desconforto em lembrar o quão estagnada era a minha vida amorosa. O meu último namorado havia me trocado pelo seu colega de quarto numa república de faculdade, e desde então, nunca mais tinha perdido tempo correndo atrás de homem algum.
Acenei que não sem dizer nada.
— Pois então solte essa agenda. Hoje você será a minha companhia no jantar.
Eu não estava preparada para aquele convite e quase engasguei quando o ouvi dizer aquelas palavras.
— Eu? Mas, a sua mãe… o desembargador Humberto Pêssego e a sua esposa Ângela…?
— Minha mãe não precisa de mim para essas reuniões maçantes — respondeu ele direto —, ela sempre se virou muito bem com o bando de hipócritas com quem anda. Hoje eu quero uma companhia mais agradável, e pelo que sei, você é paga para andar comigo aonde quer que eu vá.
Aquilo tinha me soado levemente coercitivo, mas nem de longe me achava no direito de contrariar Carlos. Lhe pedi um tempo para que eu pudesse dar uma realçada em minha maquiagem, e menos de vinte minutos depois, eu o estava acompanhando no banco de trás do Mercedes preto onde costumeiramente ele rodava pela cidade em seus compromissos.
O D’Avignon era um bistrô fino frequentado pela mais alta casta de famílias tradicionais de São Francisco d’Oeste e eu um nunca tinha colocado o meu nariz além do hall de entrada do local. Só em estar ali respirando o mesmo ar daqueles ricos e famosos, era como se a minha conta bancária ficasse ainda mais no vermelho e eu nem arrisquei espiar o preço dos pratos e das bebidas disponíveis no menu. Carlos se encarregou de pedir tudo por nós dois e enquanto esperávamos pelo prato de entrada, o maître nos serviu um Bordeaux em duas taças.
— Você mora com os seus pais, Sula? — me questionou ele, demonstrando um interesse inédito pela minha vida pessoal. Estávamos sentados de frente um para o outro e após sorver um gole do vinho, fixou as pedras de jade em mim.
— Com a minha mãe. O meu pai já é falecido.
Tínhamos aquilo em comum e deu para perceber o seu cenho se fechando brevemente. Falar de Carlos Eduardo Castellini Sênior ainda lhe era doloroso, mesmo há mais de dois anos da sua morte.
— E você não sai para se divertir? Não tem amigos, colegas para ir a festas, bares ou boates?
Eu tinha descoberto quem realmente eram os meus verdadeiros amigos no dia em que eu enterrei o meu pai e, além de mim, da minha mãe e de alguns tios do interior, apenas mais duas pessoas se indignaram a comparecer ao último adeus do meu velho. Tessa e Tom, meus companheiros dos tempos de ensino médio, ficaram ao meu lado até o fim daquele dia terrível e seguraram a minha mão em todas as vezes que precisei me consolar com os dois. Eu os amava por isso.
— De vez em quando… — respondi sem muito ânimo —, não sou boa dançarina, mas gosto de mexer os quadris sempre que vou a alguma festa com a Tessa ou com o Tom.
Carlos não tinha o costume de sorrir. No máximo flexionava os lábios, mas logo tornava a ficar sisudo. Era um rapaz sério em demasia e, por vezes, o seu tom rude me soava até assustador. Embora fosse estranho admitir aquilo, eu gostava do frio na barriga que aquele seu ar autoritário me causava. Eu o achava avassaladoramente atraente.
— Eu também não tenho muitos amigos — começou a dizer com os olhos perdidos no fundo da taça de cristal —, com o tempo, acabei me afastando das pessoas que se diziam minhas companheiras. O meu status social e o meu padrão de vida acabou espantando de vez aqueles que ainda tinham algum apreço por mim. Tudo que restou foram as aproximações por interesse.
Eu era boa em analisar fisionomias e, pela primeira vez em muito tempo, detectei um traço de tristeza na máscara quase sempre gélida que Carlos usava para esconder os seus sentimentos.
— Mas você ainda tem a sua mãe, tem o doutor Eiras… tem a senhorita Renata…
Renata Alves era uma fotojornalista que trabalhava num tabloide chamado A Gazeta. Os dois tinham se conhecido durante uma das ações beneficentes organizadas por Zuzu, e desde então, não tinham mais se afastado. Apesar de muito bonita com seus longos cabelos castanhos e a pele alva feito papel, a fotógrafa não parecia fazer o tipo de mulher que atraía Carlos. Eu não sabia o que os mantinha juntos, mas aquela noite ele resolveu se abrir comigo.
— A Renata é um instrumento que tenho usado nos últimos anos e que ainda me tem sido útil. Eu não a amo e nem nunca vou amar. A mantenho por perto por pura conveniência profissional. Nada além disso.
Havia frieza em seu tom de voz e enquanto ele exalava gelo pelo ar, o fogo começava a me queimar feito brasa entre as pernas. Quanto mais Carlos me parecia arrogante e distante, mais eu me interessava por ele.
