Você me Pertence {2}
— Shh, boneca. Vamos aqui para um canto que eu vou dar um jeito na sua boca atrevida. — Ele sussurra em meu ouvido e eu sinto o meu corpo tremer, sentindo calafrios de medo percorrem a minha espinha.
Ele me puxa pelo braço com bastante força para algum lugar que eu não faço ideia, pois a minha visão está embaçada por conta das lágrimas que deslizam incessantemente. A tontice me pega de surpresa, pois se antes eu já não estava conseguindo reagir, imagina agora. Eu já tenho certeza do que vai me acontecer, mas o meu corpo não consegue se mexer além de chorar, sentindo a bile subir pela minha garganta ao imaginar o que eles estão planejando fazer com nós duas.
Os gritos de revolta de Lorena já são mais audíveis, mas eu somente fechei os meus olhos quando alguém me pressionou contra a parede com o seu corpo. Eu não faço ideia da ordem de como as coisas aconteceram, mas eu juro ter ouvido uma voz masculina xingando, parecendo muito bravo e o corpo do homem se afastando do meu. Quando eu abri os meus olhos tomando coragem, todos estavam apanhando, mas tudo o que eu via eram rastros da situação. Tinha até mesmo sangue e aquilo me assustou.
Eu só tive tempo para raciocinar com mais clareza quando eu senti as mãos de Cristina nas minhas, me puxando para longe da confusão. Eu ainda estava meio abalada enquanto desviava das pessoas na pista de dança, tentando entender o que tinha acabado de acontecer, ao mesmo tempo em que o alívio dominava o meu corpo.
Uma mão pousa em meu ombro e eu pulo para trás, me virando assustada.
— Caramba, eu sou tão feio assim? — Alan aparece na minha frente, parecendo estar achando graça.
Suspiro mais uma vez em alívio e logo o seu olhar alterna entre mim e Lorena, que parece ter enviado algum tipo de mensagem somente com o olhar, e ele logo parece ter entendido.
— O que aconteceu? Vocês estão bem? — Alan põe suas mãos em meus ombros, me encarando com preocupação.
Lorena dá de ombros e suspira, abraçando o seu próprio corpo. Está claro em seus olhos que ela está muito abalada e se sentindo culpada pelo o que aconteceu. Mas eu não a culpo. Ela tinha bebido demais, e acredito que a sua intenção não era que as coisas chegassem nesse ponto.
— Mel… — Alan sussurra, atraindo a minha atenção.
— Eu preciso de ar, estou me sentindo sufocada. — Aviso esfregando os meus próprios braços, sentindo que aquele lugar estava me deixando claustrofóbica.
Na verdade, tudo naquele lugar estava me fazendo mal, até mesmo o cheiro estava me fazendo ter vontade de vomitar. Eu acho que não sou compatível com lugares assim.
— Vamos, eu vou levar as duas para o lado de fora.
Alan nos arrasta para um lado da balada e abre uma porta lateral, que dá de cara para o estacionamento aberto do local. Me apoio no parapeito da escada, respirando fundo em busca de ar.
— Eu vou chamar um táxi.
Vejo Alan se afastando da gente, indo até a calçada. Logo me sinto arrependida por ter dito a Jerry que ele não precisava ficar à minha espera, pedindo para ele voltar e descansar pelo resto da noite já que ele sempre estava disponível para mim.
— Me desculpa.
Me viro na direção de Lorena que tem um olhar arrependido na minha direção. Lanço-lhe um olhar tranquilizador, tentando não pensar muito no que nos acabou de acontecer.
— Não se culpe, estamos bem, certo?
Ela assente bastante abalada.
— Quando eles lhe seguraram, e eu olhei para você, tudo o que eu pude ver foi medo e só então percebi o quanto estava assustada. Eu não devia ter te colocado nessa situação, mas eu realmente não pensei que as coisas chegariam nesse ponto. Eles me ofereceram bebida e logo começamos a nos divertir. Eu perdi a noção do tempo e estava me sentindo tão louca que nem vi a maldade neles. Eu não deveria ter insistido para virmos. Eu realmente sinto muito.
Ela segura as minhas mãos, tentando me mostrar o seu arrependimento através do olhar e eu sorrio, já me sentindo mais calma.
— Está tudo bem, mas… — Desvio o meu olhar voltando a lembrar do que aconteceu agora a pouco. — O que aconteceu lá dentro? Quer dizer, alguém estava batendo neles.
Um sorriso se desenha em seus lábios e ela assente.
— Sim, eu não o vi muito bem, mas o cara parecia furioso. Ele já tinha tirado o cara de cima de você quando tirou de cima de mim. Ele parecia muito forte, mas eu estava tão assustada que somente me preocupei em nos tirar de lá; — Ela ergue uma sobrancelha pensativa. — Ele parecia um gato. Se algum dia eu o ver na rua, farei questão de agradecê-lo.
Sinto o meu coração acelerar em meu peito e um alarme começar a soar na minha cabeça. Qual seria a chance do que eu estou pensando acontecer? A verdade é que é muito baixa, e talvez seja somente a saudade em meu peito que me fez desejar que tivesse sido ele. Eu não me importaria de vê-lo numa situação como essa. O seu abraço me conforta de forma que eu até mesmo esqueço dos problemas. Acho que estava tão imersa em meus pensamentos, que eu nem tive tempo para questionar Cristina sobre a aparência dele, pois ela já saiu disparada na direção de Alan, que parece estar falando com o taxista.
Confiro a hora em meu relógio de pulso e me dou conta que é meia noite. Um mês e uma semana havia se passado, e pelo visto, ele não viria atrás de mim. Pensar dessa forma me deixava com uma angústia enorme em meu peito. Eu tentei não pensar nele nesse meio tempo, porém mesmo tendo diversas coisas para fazer e resolver, foi ele quem ocupou a minha mente, e de verdade, espero que ele ao menos pense em mim de vez em quando.
Encosto minhas costas na parede logo atrás de mim e fecho os meus olhos, me sentindo cansada por parecer que sempre estou tentando resolver tudo, sendo que eu não consigo lidar com tantas coisas ao mesmo tempo. A morte da minha mãe ainda é muito difícil, e eu sei que a faculdade começará a pesar nas minhas costas. Nem quero imaginar como estarei quando começar a trabalhar. O meu único alívio e momento de paz está sendo estar com pessoas que me fazem bem, e principalmente, no conforto do meu apartamento. O contrato também ocupou os meus pensamentos, mas não importa quanto eu pensava, a minha resposta sempre era a mesma. Ser uma escrava dos seus desejos não é algo que entra na minha mente. Também não quero receber nada em troca. Eu só quero ficar com ele…
Sinto um aperto no peito e meu sangue gela quando um cheiro amadeirado invade as minhas narinas. Deus, eu podia pensar que é apenas uma coisa da minha cabeça, ou talvez alguém com o mesmo perfume passando por mim. Mas acho que estava com tanta saudade que eu reconheci imediatamente essa mistura com o cheiro de cigarro e álcool.
— Ruiva...
O vento balançava o meu cabelo no ar, acariciando a minha pele e arrepiando o meu corpo. Quando a sua voz chegou até mim, eu tive que me segurar pois tinha certeza que não iria conseguir ficar em pé, já que quase instantaneamente eu senti o meu coração saltar em meu peito.
Endireito a minha postura e me viro na direção da voz, me sentindo fraca e ansiosa. Os seus olhos me encaram com confusão, e parece que são o reflexo dos meus, mas isso não importa, pois ele está bem na minha frente e tudo o que eu quero fazer é me jogar em seus braços.
Dou um passo em sua direção mas me interrompo quando me dou conta do seu estado. Benjamin tem o seu cabelo maior que o normal, com algumas mechas caindo por sua testa. De certa forma, ele já não me parece o mesmo homem de quando eu o conheci. Ele já não aparentava a mesma áurea, e talvez isso se deva pelo fato do seu olhar me parecer acabado. Ou por quê agora que o conheço um pouco mais do seu eu, eu consiga enxergar a dor em seu olhar. Meus olhos pousam em suas mãos que estão ensanguentadas e feridas, mas em seu rosto não há sequer um resquício de que alguém possa ter batido nele.
O meu coração acelera em meu peito quando eu me dou conta de que a minha teoria pode ser realmente verdade.
— Como… Como se machucou? — Pergunto me sentindo sem graça, pois a resposta está tão exposta que é até idiota da minha parte.
Como se tivesse acabado de sair de um transe, ele abaixa o seu olhar para as suas mãos e dá de ombros, como se isso não fosse grande coisa.
— Tive que lidar com alguns imbecis que estavam deixando a minha garota assustada.
Sinto um arrepio percorrer a minha espinha e arfo me sentindo nervosa por suas palavras. Ele está deixando na minha cara que ainda sente carinho por mim, mas eu não sei como agir, pois já faz um mês desde que nos vimos e eu não faço ideia de quais são os seus pensamentos sobre a gente. É quase como se eu estivesse no escuro para conseguir enxergar um caminho.
— Eu… — A minha voz falha enquanto eu o encaro e ele logo ergue uma sobrancelha, dando alguns passos decididos na minha direção. Talvez ele saiba que eu não saiba como reagir… — Benjamin!
Sua mão vai para a minha nuca, e ele logo trata de me puxar para um beijo, como se o mundo não existisse ao nosso redor. Seus lábios encostam nos meus e sua língua implora para que eu ceda, e mesmo sentindo que posso me desmanchar em seus braços a qualquer momento, eu cedo. Nossas línguas buscam uma a outra em desespero, e é verdade que eu já sentia falta disso. Da sua mão apertando a minha cintura, do gosto dos seus lábios e como ele consegue me deixar tonta apenas com essas atitudes. Sua mão desceu até minhas costas e ele me cola em seu corpo, mordendo o meu lábio. Um calor começava a se alastrar pelo meu corpo, e inconscientemente, eu solto um gemido entre nosso beijo, aliviada por estar finalmente em seus braços. Aquele mesmo friozinho na barriga, causado pelo seu toque e beijo é tudo o que eu mais precisava. É quase como se eu estivesse no céu, ansiando para que essa sensação não se vá.
Quando os nossos lábios se separam um do outro, a sua testa vem de encontro à minha e ele começa a acariciar a minha bochecha, me encarando com suas íris escuras que sempre me trouxeram tranquilidade e segurança. Na verdade, isso é o que eu estou sentindo nesse momento com ele e não poderia ser diferente.
— Estava com tanta saudade… — Ele sussurra e eu sinto o efeito das suas palavras transbordando em meu peito. — Não faz ideia do quanto eu estava ansioso por isso. Só queria te tocar, sentir o seu cheiro; — Ele inspira fechando os seus olhos, como se estivesse em um transe no momento, e talvez seja assim que eu também esteja. — É como um bálsamo para mim.
Os meus lábios se desenham em um sorriso, já emocionada por ele pensar em mim dessa forma. Ele também é assim para mim, pois é ele que sempre está me dando segurança e fazendo com que eu me sinta melhor, quando na verdade, se ele não estivesse ali, eu não saberia lidar.
— Eu quero você, Mel.
As suas palavras me pegam desprevenidas, e um arrepio percorre a minha espinha. Deus, porquê é que ele tem tanto efeito sobre o meu corpo? Eu me sinto tão inebriada por ele, que dou um passo para trás, me afastando do mesmo para que eu consiga pensar com clareza. Mesmo que suas palavras sejam bonitas e ele realmente tenha sentido a minha falta esse tempo todo, ele deixou claro que não iria desistir da ideia de contrato. Eu sei que não deveria estragar o que está nos acontecendo com isso, mas é inevitável pois temos opiniões divergentes sobre esse assunto, e querendo ou não, isso pode afetar a nossa relação.
— Eu pensei bastante, mas eu ainda mantenho as minhas palavras. Eu não vou me vender. — Murmuro calmamente, em busca de avaliar as suas expressões.
Ele franze o cenho e começa a esfregar sua têmpora, de repente parecendo mais agitado.
— E eu também mantenho o que disse. Não pretendo abrir mão nem de você, nem deste contrato. E eu já te expliquei, ruiva. Você não vai estar se vendendo.
— De qualquer forma, eu não me sentiria legal fazendo isso. Eu finalmente me conheço e não estou a fim de obedecer mais ninguém. — Explico com a intenção de que ele entenda o meu lado e que possa ceder em relação a esse contrato.
— Eu não quero que me obedeça. Eu jamais cobraria isso de você. Nem precisa seguir as regras, eu só preciso que você assine.
Ele termina num suspiro e eu o encaro, percebendo que o seu olhar carrega uma dor assim que ele diz essas palavras. É como se existisse algo muito sombrio e perturbador, que vai muito além do que eu consiga imaginar.
— Eu não sei… — Sussurro me sentindo exasperada com essa situação.
Eu estou completamente confusa quanto a isso. Benjamin fez com que eu enxergasse o mundo de uma forma diferente, e eu o agradeço por isso. Quando nos despedimos, eu deixei claro que iria lutar por ele, mas agora eu preciso deixar claro que não pretendo assinar nenhum contrato. Mas a verdade é que estou com medo dele fugir, sou eu quem deveria estar correndo para longe, mas eu estou assustada, pois quero que ele entenda que não pretendo ir embora enquanto houver uma chance de termos alguma coisa sem o contrato. Nesse meio tempo em que estivemos separados, eu me dei conta que o que ele me fez, apesar de ser uma lembrança chata, já não me doía tanto quanto era para doer. A verdade é que eu posso passar por cima disso tudo se ele disser que me quer de verdade, não por um capricho ou desejo sexual, mas porque deseja estar comigo. É só disso que preciso para lutar.
Os seus olhos nesse momento estão tão confusos quanto os meus, mas ele parece impaciente. O meu coração e o meu subconsciente entram em uma briga sobre qual caminho eu devo seguir, mas sequer tenho tempo de pensar pois mais uma vez, os lábios de Benjamin se encontram com os meus.
