Capítulo 4
Micaela ergueu os olhos, bem abertos. A pessoa moveu-se atrás de mim enquanto Micaela se levantava para aceitar o abraço que ele lhe oferecia. — Meu Deus, Bruno, o que estás a fazer aqui? — perguntou ela, afastando-se para examinar o seu rosto.
Ele riu. Ainda não conseguia ver nada, mas distingui o seu cabelo loiro acinzentado enquanto ele me dava as costas.
— Decidimos mudar-nos para cá porque fica um pouco mais perto da escola. Além disso, o meu pai recebeu uma nova proposta de emprego, só isso.
— Ótimo, amigo. Bem-vindo a Montevidéu.
— Obrigado.
— Bruno, quero apresentar-te a minha melhor amiga, a Renata. Talvez já nos tenhas visto várias vezes no campus. Renata, este é o Bruno, o prodígio do futebol e o futuro capitão da nossa equipa neste semestre.
Ela riu-se e virou-se para mim com o seu sorriso habitual. A primeira coisa que me chamou a atenção foram os seus olhos azuis claros, que pareciam hipnóticos; não tinha reparado nisso até então, apesar de estar tão perto dele. Conhecia-o do campus; era o rapaz popular e via-o sempre com os amigos ou com as raparigas que o assediavam frequentemente.
Estendi a mão e sorri para ele:
— Prazer em conhecê-lo.
O seu aperto de mão era firme, mas notei uma suavidade nas suas mãos que não esperava, tendo em conta o desporto que ele praticava. — O prazer é meu.
O seu sorriso não era muito inocente e eu sabia que essa era, em parte, a razão pela qual as mulheres gostavam tanto dele. Não sabia se era algo natural ou se era uma tática que ele usava para seduzir as mulheres, mas era melhor não pensar nisso com um tipo como o Bruno. Não havia a mínima hipótese de ele me achar atraente, especialmente com aquela roupa.
O aperto de mão durou mais tempo do que o necessário, até que retirei a mão e limpei a garganta.
Micaela lançou-me um olhar com um sorriso no rosto que me dizia que não estava a planear nada de bom.
— Bom, Bruno, como tem sido a sua experiência em Montevidéu até agora? — Ótima, só preciso que alguém me mostre a cidade. Os lugares interessantes, é claro", disse ele, sorrindo enquanto nos olhava.
Os olhos de Micaela iluminaram-se. — Há um clube...
Imediatamente, pisei-lhe nos pés debaixo da mesa e vi-a morder os lábios, lançando-me um olhar perigoso. Achei que ela tivesse percebido a indireta. O Bruno parecia confuso.
— Que clube? — perguntou ele.
A Micaela deu de ombros. — O novo que abre este fim de semana. Mas só poderemos ir na próxima semana", disse ela, mentindo.
— Ah, talvez pudéssemos ir todos juntos e sair juntos. — disse ele, olhando para mim.
Engoli em seco e olhei para o meu hambúrguer.
— Sim, claro, podemos trocar números. Pelo canto do olho, vi que ele deu o telefone a Micaela e vice-versa.
— Ótimo, bem, espero ver-vos em breve, pessoal. Levantei os olhos e apercebi-me de que ele continuava a olhar para mim.
"Foi um prazer conhecê-la, Renata."
— consegui sorrir. — Igualmente.
Ele sorriu, disse "até mais, pessoal" e foi embora.
Suspirei e peguei no meu copo, bebendo um grande gole.
— Não acredito que convidaste um completo estranho para sair connosco no sábado — disse eu.
— O Bruno não é um estranho. É um rapaz fantástico que, à primeira vista, estava realmente apaixonado por ti — disse ela, arqueando as sobrancelhas.
Zombei. — Por favor, viste isso?
— Viste isso? Tens de te valorizar mais, sabes? — disse ela com um olhar de advertência.
— Bem, de qualquer forma, ele não é o meu tipo — murmurei, enquanto bebia.
Os olhos de Micaela arregalaram-se. — Tens namorado? Desde quando? — ela engasgou-se de tanto rir.
Dei de ombros. — Bem, acho que simplesmente prefiro morenas escuras como eu.
— Mas o Bruno é muito bonito — argumentou ela.
— Ele é, mas não sei... não há faísca nem nada parecido.
A Micaela riu.
— Isto não é um filme nem um romance, Renata. Não vais sentir uma descarga elétrica a percorrer-te as veias quando encontrares a tua alma gémea. Tudo isso é disparate e és inteligente o suficiente para o saberes.
— Os meus pais dizem que souberam que eram almas gémeas assim que se conheceram. Acho que isso existe, mas não acho que o Bruno seja a minha alma gémea.
Micaela revirou os olhos. — Bem, ninguém procura almas gémeas na universidade. Todos vamos simplesmente para nos divertirmos e tenho a certeza de que o Bruno é alguém que te pode ensinar a fazer isso.
Suspirei.
— Está bem, convenceste-me a mudar o meu guarda-roupa e a ir contigo àquela discoteca. Mas, por favor, vá com calma em relação ao Bruno. É um não categórico.
A Micaela suspirou. — Está bem, concordo, vou deixar de falar do Bruno — disse ela, enquanto bebia e me olhava por cima da borda da chávena.
Conhecia a Micaela o suficiente para saber que só passaria um instante até ela recomeçar.
— Renata.
O fim de semana chegou mais cedo do que o esperado. Não sabia muito bem como explicar a sensação de aperto no estômago que sentia, mas estava lá. Estava a maquilhar-me um pouco por vaidade, feliz por ter aprendido essa habilidade na escola e intrigada com a técnica. Não era especialista, mas sabia o suficiente para não parecer uma iniciante.
A Micaela estava atrás de mim, a alisar o cabelo, depois de ter decidido adicionar alguns reflexos rosa na noite anterior. Já estávamos prontas: eu usava um vestido lilás e a Micaela usava leggings de couro e um top curto de renda.
— Prometo, Renata, vai ser épico! — disse Micaela, tentando conter um grito.
Sorri, sem saber até que ponto seria verdade, já que nunca tinha ido a uma discoteca.
Não fazia ideia de quem estava a olhar para ela do outro lado da pista.