Capítulo 3
— Sim, mãe. A Micaela tem boas intenções — sorriu, mas não parecia muito convencida.
— A julgar pelo entusiasmo da Micaela, parece-me que não vais gostar do estilo de roupa dela — disse ela, esboçando um sorriso forçado e apertando as minhas mãos. — Só quero que saibas que não precisas de te sentir obrigada a...
Respirei fundo. — Mãe, não sinto nenhuma pressão. É algo que realmente quero fazer", disse, olhando por cima dos ombros. — Só estou a deixar a minha melhor amiga fashionista guiar-me. — Bem, pelo menos deixa algum dinheiro — interveio o meu pai.
— Eu ouvi o que a Micaela disse, mas tens de ser independente. Quem sabe o que pode acontecer? — disse ele, enquanto tirava a carteira e me dava algumas notas.
Suspirei e aceitei. — Obrigada, pai.
A minha mãe segurou-me as bochechas e acariciou-me com um sorriso antes de regressar ao fogão. Enchi a boca de ovos enquanto mergulhava numa profunda reflexão. Olhei para os meus pais e, de repente, percebi que provavelmente era quem era graças à forma como me tratavam. Eu era a sua única filha, um verdadeiro milagre, já que a minha mãe engravidou de mim quando ambos pensavam que seria impossível. Conheceram-se na universidade e o meu pai foi o primeiro namorado da minha mãe. Acho que, nesse sentido, era muito parecida com ela, mas, se assim fosse, já teria encontrado um namorado.
A minha mãe sempre me dizia para me concentrar no que era importante, mas nunca me dizia o que era. Dizia-me sempre que os meus estudos vinham em primeiro lugar e que alcançasse o sucesso, porque ninguém me poderia tirar isso.
Isso tornou-se um mantra e, talvez sem me aperceber, levei-o muito a sério, mas agora era hora de mudar. Bem, na verdade, não, mas sempre fui boa a fazer várias coisas em simultâneo.
Duas horas depois, estávamos no local que a Micaela tinha reservado para nós. Assim que entrei na loja, senti que não me encaixava ali. Os cortes dos modelos e até dos funcionários eram muito diferentes dos meus. Abracei-me imediatamente e olhei para o meu vestido, que me chegava aos tornozelos, e para os sapatos de estrelas que usava.
A Micaela agarrou-me pelo braço e levou-me até à vendedora à entrada, que tinha um sorriso nos lábios até me ver. — Bem, esta é a minha amiga de quem te falei, a Renata.
Consegui sorrir e ela fez o possível para me imitar, embora fosse evidente que estava a ter muitas dificuldades. — Entendo por que estava com tanta pressa. O seu sorriso tornou-se natural depois disso, porque achou que a sua piada tinha sido engraçada.
— Podemos ver o que eu pedi para escolher, por favor? — perguntou Micaela, enquanto eu tentava não olhar para o rosto da loira de olhos azuis.
— Claro, por aqui — disse ela, passando do balcão para um suporte com algumas peças.
Começámos a examiná-las; Micaela estava radiante enquanto fazia os ajustes necessários no meu corpo. A vendedora observava-nos de braços cruzados, franzindo o sobrolho enquanto examinava cada peça. Olhei-me ao espelho e vi que estava a sorrir quando algumas peças me agradaram.
Experimentei algumas, enquanto a Micaela se sentava do lado de fora da cabine de provas, como juíza. Para minha sorte, alguém com mais dinheiro e sentido de moda entrou e atraiu a atenção da vendedora. De certa forma, senti-me mais segura sem ela presente, ao ver a alegria no rosto da Micaela sempre que saía.
Ela saltava de alegria e batia palmas, e eu não conseguia evitar sorrir e sentir a felicidade que me invadia ao vê-la. — Meu Deus, neste momento, até podia chorar a sério! — gritou ela, enxugando lágrimas falsas dos olhos, quando saí com um vestido que me chegava à metade da perna.
Era lilás-claro, com alças finas e um decote pronunciado. O tecido tinha um aspeto enrugado e cordões ajustáveis nas laterais que, para minha surpresa, permitiam ajustar o vestido e torná-lo mais justo e curto. Virei-me para o espelho e a Micaela aproximou-se por trás, apertando os meus ombros enquanto sorria.
— Bem, está bastante claro qual é que vais usar na discoteca.
Ri-me.
— Ainda nem olhámos nas outras lojas.
— Não interessa. Este é o certo.
Juro, é perfeito; só precisas de trocar o sutiã. Os meus olhos fixaram-se nas alças pretas que se destacavam ao lado das copas, na altura do decote.
— Sim, tens razão.
— Então, o que achas?
Os meus olhos percorreram o meu corpo e senti as minhas bochechas a corar enquanto me admirava. — Adorei.
— Bem, afinal, ainda há esperança neste mundo — brincou ele, e eu sorri enquanto lhe dava um tapinha na mão.
Visitámos mais algumas lojas e decidimos almoçar no centro comercial, perto da última loja onde estivemos.
Sentámo-nos sob um guarda-sol e comemos hambúrgueres. Eu estava exausta de tanto andar e feliz por estar num sítio longe da multidão. — Bem, hoje não foi assim tão mau, certo? — perguntou ela, enquanto dava uma dentada na comida.
— Não foi nada mau. Na verdade, até foi divertido — sorri.
— Ótimo. Acho que também temos uma boa quantidade — disse ela, enquanto olhava para a pilha de sacos aos nossos pés.
Olhei para a pilha de sacos e arqueei uma sobrancelha. — Bem, é uma forma de dizer.
Comemos em silêncio até quase me engasgar com as batatas fritas ao ouvir uma voz atrás de mim:
— Micaela?
E, naquele instante, tudo se complicou.