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Capítulo 5 - Eu não preciso de um contrato

Eu já estava começando a me arrepender dessa ideia idiota, enquanto esperava Retty no portão de embarque. Sentada e com minhas bagagens de mão ao lado, fiquei pensando que aquela era com certeza a coisa mais estúpida que estava prestes a fazer, já que eu sempre fui uma boa filha, ótima aluna e nunca me arrisquei por nada que realmente valesse a pena.

Eu comecei a entrar em pânico, quando o rosto de Mary Anne passou pela minha cabeça se ela descobrisse o que Retty fazia para viver. Minha mãe provavelmente infantaria, o que faria meu pai me agradecer depois.

Eu nunca entendi a relação daqueles dois, eles se detestavam e se amavam ao mesmo tempo. Era bizarro.

— Ele está atrasado — sussurrei pra mim mesma, tentando manter a calma.

E se o stripper gostosão finalmente se deu conta que a ideia de nós dois juntos era ridícula? Nós provavelmente não iríamos enganar ninguém e eu vou acabar passando ainda mais vergonha na frente de toda Melbourne se essa ideia idiota fosse pra frente.

Ouvi a primeira chamada para o nosso voo e me dei conta que era melhor assim. Não faz nenhum sentido querer causar ciúmes em Liam, afinal nós éramos adultos e eu tinha que lidar com isso da melhor maneira que podia: olhar pra cara daquele cretino traidor e controlar minha vontade de esganá-lo durante uma semana inteira.

Ainda roía a pontinha da minha unha recém pintada, quando vi Retty atravessando a porta em todo seu esplendor. É sério, sem querer exagerar, mais um cara daqueles você com certeza não vê por aí todo dia. Ele usava uma calça jeans preta, blazer branco e por baixo uma camiseta que delineava seu físico impecável. Seus cabelos castanhos estavam ajeitados com as pontas levemente caídas na testa e os olhos azuis cobertos por óculos escuros.

Assim que me viu, eu virei rapidamente o rosto, grudando meus olhos na tela do celular a minha frente. Tentei ignorar, fingindo que não o vi, fazendo minha melhor cara de paisagem e encarando a tela.

— Desculpe pelo atraso, fiquei preso no trânsito. Eu teria te ligado pra avisar, mas você saiu da minha casa no sábado sem sequer me dar seu número — ele falou, me fazendo lembrar que vergonhosamente saí correndo de lá, depois de passar vergonha ao saber do showzinho que dei quando estava bêbada.

— Hum, nem percebi que estava atrasado — eu menti, com a cara mais lavada do mundo, enquanto juntava minhas coisas na poltrona ao lado— Pegue, pode ler durante o vôo — estendi uma pasta com alguns documentos, enquanto caminhávamos.

— O que é isso? — ele perguntou desconfiado.

— Um contrato. Se vamos fazer isso, então vai ser da forma mais profissional possível.

Ele passou os olhos no conteúdo e riu em seguida.

— "Todo e qualquer contato físico será feito quando, estritamente necessário" é sério isso?

— Sim — respondi friamente — Eu estou te contratando para um serviço e como todo contrato, existem cláusulas que preservam ambas as partes.

— Não confia em mim, Erilice? — ele perguntou em tom zombeteiro.

— Isso são apenas negócios. Eu estou te pagando lembra? Eu só quero que faça o que foi pago pra fazer.

— Ah, eu vou! Pode apostar nisso — ele respondeu com um sorriso provocador.

Assim que embarcamos, a comissária nos recepcionou amigavelmente conferindo em seguida nossos assentos. Retty entregou a ela duas passagens, me deixando confusa.

— Por aqui por favor — a moça pediu e ele me puxou pela mão sem sequer me dar a chance de perguntar para onde estávamos indo.

Fui me dar conta, quando passamos por um luxuoso bar em uma área exclusiva do avião e então tive a certeza que estávamos na primeira classe, quando ela nos mostrou uma cabine exclusiva que era quase do tamanho do meu apartamento inteiro.

Eu era uma analista financeira de uma das maiores empresas do país e o máximo que consegui foi viajar na executiva.

— Okay, com quem precisou transar para conseguir isso? — perguntei, cruzando os braços à sua frente.

Ele riu — Credo Erilice, que cabecinha suja você tem — provocou.

Continuei parada, esperando uma resposta que obviamente não veio, então depois de alguns segundos eu me virei, pronta para sair dali. Eu não iria compactuar com seja lá o que ele estivesse fazendo. Essa coisa de sexo por dinheiro e benefícios pode até funcionar pra ele, mas eu não iria fazer parte daquilo.

— Eu sei o que parece, mas não é o que está pensando — ele segurou no meu braço e eu virei para encará-lo — Eu já tinha essas passagens e como não tinha intenção de usá-las, pensei em fazer isso agora.

Eu continuei o encarando e ele não recuou. É certo que eu não era nenhuma perito em reconhecer os sinais de que alguém está mentindo, mas sua resposta parecia bem sincera. Caras como Retty devem ganhar muitas coisas de mulheres ricas e solitárias e olhando pra ele tão a vontade na suíte privativa da primeira classe, pude constatar que ele fazia muitas viagens de "negócios" e por isso estava bem familiarizado com o local.

— Vem, senta aqui — ele esboçou um sorriso sedutor, dando tapinhas na minha poltrona, colada à sua.

Eu hesitei. Não estava certa se queria toda aquela intimidade com alguém como ele. As palavras de Sarah sobre não se apaixonar ecoavam no meu ouvido sem parar, já que seria a gota d'água ter que lidar com qualquer sentimento por um profissional do sexo, um garoto de programa e prostituto de luxo. Eu repetia isso pra mim mesma, tentando fazer meu cérebro gravar essas três "qualidades" do homem a minha frente.

Sentei mecanicamente sem fazer contato visual e me abracei a bolsa no meu colo, o que o fez rir.

— Relaxa, Erilice, eu não mordo. A não ser que você peça.

— Quer parar de me chamar de Erilice, você sabe que meu nome não é esse, já que até comprou uma passagem pra mim — reclamei — Como é que conseguiu meus dados?

— Internet, oras. Você pode encontrar tudo sobre qualquer pessoa na rede.

— Isso é bem engraçado, vindo de um fantasma — ironizei — Porque não encontrei nada sobre você?

— Porque eu detesto redes sociais — ele se remexeu inquieto — Mas eu tenho um e-mail.

Como diabos em plena era da inclusão digital alguém não está nas redes? Tudo bem que eu não sei mexer no Twitter, só uso o facebook para compartilhar memes e atualizo o instagram uma vez por ano, mas pelo menos eu estou lá.

— Do que está fugindo? — perguntei o encarando. Ele então arqueou as sobrancelhas em resposta.

— Acha que estou fugindo só porque não tenho Instagram? — ele riu — Isso é loucura.

— Então o que tem contra?

— Nada. Só gosto de relacionamentos reais, olhar, sentir... tocar — ele tocou em meus braços descobertos pelo casaco que estava pendurado na poltrona, me causando um arrepio repentino — Eu gosto disso — ele olhou para minha pele arrepiada, continuando a deslizar seus dedos que encontraram a curvatura do meu pescoço me fazendo dar um salto.

— Você precisa mesmo ler o contrato —eu disse limpando a garganta.

— Porque? Tem alguma outra cláusula falando que é proibido tocar em você?

— Na verdade tem — eu respondi ainda de pé — Só vamos fazer isso na frente de Liam e o toque será breve e rápido.

— E acha que ele vai acreditar?

— Bem, esse é o seu trabalho, faça ele acreditar.

— Então não fuja de mim, Erin — ele se levantou, parando a centímetros do meu rosto. Estava tão perto que pude perceber a íris contornada, o que deixava seus olhos azuis ainda mais claros — Eu sou profissional e não preciso de um contrato pra deixar claro que é só trabalho. Espero que você faça o mesmo.

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