Capítulo 2 - Nunca Diga seu Nome
Insegura, constrangida e comum. Eram exatamente esses três adjetivos que me definiam perfeitamente.
Eu podia até ser uma fera quando o assunto era negócios, mas se tratando da minha vida pessoal, eu era uma completa sem noção.
Eu não tinha o corpo escultural e perfeito e muito menos o porte físico de uma gostosona. Na verdade estava mais para o porte físico de alguém que adora chocolate e sente um número aumentado toda vez que sai pra comprar um jeans novo.
Eu não fazia a menor ideia sobre o que vestir e enquanto me olhava no espelho, me senti completamente insegura sobre o minúsculo vestido que estava usando. Ele não era tão apertado, desses que você não consegue dar mais de dois passos sem ter que se ajeitar o tempo todo, mas era curto e deixava minhas pernas grossas de fora e isso de certa forma me incomodava, já que eu não era acostumada a usar esse tipo de roupa o tempo todo... mais pelo menos era preto.
Tentei fazer alguma coisa diferente do liso sem graça nos cabelos seguindo algum tutorial maluco no youtube, mas acabei com um ninho na cabeça. Então prendi os cabelos num rabo de cavalo e fiz uma make basiquinha. No fim das contas, ainda era eu dentro de um micro vestido de alças finas.
— Não diga nem uma palavra sobre isso — eu resmunguei assim que entrei no carro da Sarah, enquanto ela me observava com um sorriso exagerado.
— Tá gata hein! — ela ignorou meu pedido dando partida — E que pernocas meu amor!
— Vai logo — revirei os olhos.
— Você deveria sair mais com a gente, sabia? Quando foi a última vez?
— Sei lá, tem uns dois anos, eu acho.
— Caralho, Erin! Não vou nem perguntar quando foi seu último encontro.
— Faça isso amiga, não pergunte!
— O que eu quero saber é se isso aí embaixo ainda funciona? — ela tirou os olhos da estrada e apontou para o meio das minhas pernas.
— Cala a boca! — nós rimos juntas.
— Só espero que pelo menos esteja usando uma lingerie decente, nunca se sabe com quem vai voltar pra casa — ela disse entrando em um estacionamento.
— Como assim? Achei que ia voltar pra casa com você.
— Ah tá, vai sonhando. No lugar que a gente tá a última pessoa que eu quero voltar, meu amor é com você, sem ofensa.
— O que quer dizer com isso? Onde a gente tá? — perguntei, seguindo Sarah pelo corredor mal iluminado, que dava acesso a uma porta grande de metal e assim que foi aberta, pude ouvir a música eletrônica alta, show de luzes que quase me cegaram e gritinhos histéricos de um bando de mulher tarada.
— Mais que porra é essa?... — sussurrei assim que me dei conta de onde estávamos.
— Bem vinda ao paraíso! — Sarah gritou toda animada, dando pulinhos de alegria.
— Não, não e não!! — eu dei meia volta, tentando sair do lugar, mas fui impedida por nossas colegas alucinadas, correndo em minha direção, gritando como um bando de crianças em um parque de diversão.
— Meu Deus é a Erin — uma delas gritou .
— Não acredito que você veio! — Leah, a noiva berrou, se lançando ao meu pescoço.
Foi uma loucura, todas elas falando ao mesmo tempo, a música ensurdecedora, as luzes e depois uma fumaça quase tóxica de algum show que estava prestes a começar.
Sarah me agarrou pelo braço e então seguimos as meninas eufóricas para uma mesa perto do palco e assim que me sentei ao seu lado, tive que berrar para poder ser ouvida.
— Por acaso isso é parte de algum plano idiota pra me arranjar uma transa?
— Credo, Erin. Relaxa! É só um clube — ela respondeu sem tirar os olhos do gostosão que se apresentava com um traje de cowboy.
— Porque não me disse que viríamos aqui?
— Onde acha que acontecem as despedidas de solteiro?
— Eu não cheguei a ter uma, mas com certeza não seria aqui — eu disse, enquanto ela assobiava e aplaudia o cowboy freneticamente — Sei, lá, na balada, dançando?
— Não em Nova York, baby — ela deu uma chacoalhada nos peitos que quase saltaram na minha cara, através do decote exagerado que deixava meu vestido no chinelo. Pelo menos me fez sentir melhor com minhas pernas grossas de fora.
Clubes, baladas e boates, eu odeio todos na mesma intensidade.
Lugares cheios, gente se esfregando, corpos suados, luzes reluzindo nas paredes em sincronia com a música alta que faz seus tímpanos sangrarem... é tudo horrível! Mas o pior disso, sou eu, a pessoa que não sabe nem fingir que está se divertindo. Eu até tentei dar uns sorrisos, bater palmas, juro que até dei uns gritinhos histéricos, mas se gostar de balada já era difícil, imagina de um clube das mulheres? Era uma apresentação mais bizarra que a outra, um deles até incorporou o Rocky Balboa com seus golpes de boxe. Eu tinha que admitir que pelo menos eles eram criativos.
Eu sei que não deveria, mas tudo o que desejava depois da décima apresentação, era sair correndo dali. Pode até ser que a Sarah e as meninas estavam cheias de boas intenções - ou não - quando me trouxeram pra cá, mas eu realmente me sentia como um peixe fora d'água.
Assim que dei uma olhadinha em volta, percebi que no fundo do salão ficava um bar secundário, menor e mais vazio. Como ficava mais afastado de toda essa agitação, eu sabia que era lá o meu lugar preferido. Não sei se me levantei subitamente ou se foram as trocentas margaritas que tomei, mas segui cambaleando em direção ao bar e quando estava prestes a alcançá-lo, tropecei nos meus próprios pés e cai de cara no chão.
— Você está bem? — alguém perguntou, me levantando, enquanto eu tentava desesperadamente abaixar meu vestido que tinha ido parar na minha cabeça na queda.
Senti meu rosto queimar de vergonha e ao erguer meus olhos para encarar meu salvador, eu instantaneamente empalideci quando me deparei com uma tempestade de olhos azuis.
— Está tudo bem? — o homem refez a pergunta. Provavelmente se certificando se a pancada tinha sido na cabeça, já que fiquei parada com a boca aberta igual a uma tapada olhando pra ele.
— Você é tão bonito — disparei, quase não conseguindo controlar minha vontade de me suicidar no meu copo de tequila, mas a essa altura, nada era mais vergonhoso do que cair de cara na frente de um homem daqueles e levantar com o vestido na cabeça.
— Você se machucou?
— Eu acho que bati a cabeça... morri e fui para o céu, porque você é um anjo — continuei me auto denegrindo.
E foi nesse exato momento que me dei conta que estava bêbada.
Haviam três fases críticas no meu estado de embriaguez e a primeira era o excesso de sinceridade. Eu falava tudo o que todo mundo tem vontade de dizer mas não diz, não sei se todo bêbado é assim, mas eu era.
O segundo era a nerd em ação, eu falava de probabilidades e cálculos matemáticos como uma doida, mas nem um desses era pior que a última fase: o auto flagelo. Eu contava a história triste da noiva abandonada e esculhambada para todo mundo que quisesse ouvir, acabando com o resto da dignidade que ainda tinha.
— Vem, senta aqui — ele sorriu me ajudando a sentar.
Percebi que ele estava vestido, diferente dos caras que desfilavam pelo lugar. Pensei que poderia se tratar de algum segurança, mas não usava o uniforme preto. Foi quando meus olhos pousaram no seu físico impecável escondido sob a camisa com as mangas dobradas na altura dos cotovelos, que percebi que ele era um stripper. Um corpo daqueles num lugar desses, não tem muito o que imaginar.
— Vesper Martini, por favor e uma água pra ela — ele pediu e eu torci o nariz com o pedido — Desculpe, mas eu acho que já bebeu demais — ele disse ao me ver formando uma careta.
— Eu estou bem, eu juro — tentei convencê-lo — Eu só tropecei.
— Quantas doses de tequila tomou?
— Margaritas — o corrigi — Deixa eu ver...— eu tentei contar nos dedos, mas me perdi depois do três. Ele tinha um sorriso no canto dos lábios e seu olhar estava divertido.
— Eu me chamo Garetty — ele se apresentou. Mas todo mundo me chama de Retty.
— Re-tty — eu silabei, tentando fazer meu cérebro gravar o nome. O que o fez sorrir novamente — Me explica uma coisa Retty, como alguém tão bonito veio parar num homem como você? — perguntei sentindo as palavras saírem atropeladas da minha boca.
Ele riu alto — Qual o seu nome?
— Eu sou a... — lembrei onde estava e instintivamente pensei em omitir meu nome. Vai que o cara era algum tipo de serial killer perigoso procurado pelo FBI ou qualquer outra sigla importante.
— Não lembra do seu nome? — ele perguntou preocupado.
— Eri..li..ce?
Droga, eu não fui capaz de sequer pensar em um nome decente e saiu essa mistura bizarra do meu nome com Alice, Aline ou seja lá que diabos eu pensei na hora.
— Uau, é bem exótico — ele disse e eu soltei uma gargalhada que mais pareceu um gato morrendo engasgado, o fazendo sorrir novamente. Eu costumava ser uma ótima fonte de entretenimento quando estava bêbada e era exatamente por isso que eu preferia ficar em casa.
— Porque está aqui? — ele perguntou interessado.
— Minhas amigas me arrastaram pra cá, eu nunca teria vindo se soubesse que era um clube das mulheres.
— Quis dizer no bar — ele respondeu, e eu senti meu rosto corar de vergonha — Porque está aqui no bar sozinha e não se divertindo com as suas amigas?
— Eu odeio esses lugares e algumas apresentações daqui me dão medo — disparei sem querer, corando novamente — Mas o clube é ótimo, eu tô me divertindo muito — tentei consertar, já que estava falando mal do trabalho do cara.
— Bem, você não parece estar se divertindo — ele retrucou, tomando um gole da sua bebida.
— Ah eu tô. Muito. Por dentro.
— Qual sua história, Erilice? — ele perguntou, cruzando os braços enorme no peito e eu quase tive que pedir que repetisse a pergunta.
— História? Nenhuma! Eu sou só uma garota comum.
— Todo mundo tem uma história, até as "garotas comuns", seja lá o que quis dizer com isso.
— Garotas comuns são aquelas bem normais, sabe, rosto meio redondo e oval ao mesmo tempo, então você nunca sabe que tipo de corte de cabelo combina melhor com você. Nós não nos encaixamos em padrão nenhum. Não somos magrinhas e nem cheinhas, detestamos nossos corpos estranhos, fora que estatisticamente falando, somos tão comuns que...
— Eu não te acho comum — ele me interrompeu — Você é bem... interessante!
Eu ri. Agora com uma mistura de gato engasgado com um porco sendo sacrificado. Aquelas risadas que saem pelo nariz e te dão vergonha alheia.
— Eu adoraria que dissesse isso na frente daquele cretino, filho da mãe — murmurei, virando o resto da água de uma vez.
— Quem?
— Desculpe, não era pra ter saído alto.
— Então essa é a sua história?
— Essa é a merda da minha história — eu lamentei — E sabe o que mais me irrita? É ter que passar uma semana inteira olhando para a cara daquele safado filho da...
— Então mostre a ele o que perdeu — ele me encorajou — Apesar de estar bêbada, você é bonita, inteligente e eu constatei isso em cinco minutos de conversa.
— Quanto você quer? — eu disparei.
— O que?
— O seu preço. Pode falar que eu pago.
— Desculpe, mas do que está falando? — ele perguntou aparentemente confuso.
— Estou propondo um acordo. Cinco mil dólares para ser meu acompanhante por uma semana.
— O que? Não estou entendendo.
— Cara, eu é que estou bêbada e você é quem fica confuso? — eu ri — Você é um stripper, então tem um preço. É só me dizer.
— Desculpa, eu não…
— Eu sei o que vai falar — eu o interrompi — Eu entendo que deve receber esse tipo de convite o tempo todo, mas tenho certeza que não foi de alguém tão desesperada quanto eu. Por favor não me faça implorar.
Ele me olhou por um longo momento com um vinco na testa e uma expressão de confusão no rosto. Depois tomou um gole da sua bebida e em seguida soltou um suspiro alto.
— Onde será esse evento?
— Em Melbourne, na Flórida.
— Quando?
— Semana que vem — eu disse formando uma careta.
Retty ficou pensativo por um momento e seu sorriso no canto dos lábios deu lugar a um semblante mais sério
— Dez mil — ele negociou.
— Seis — retruquei.
— Oito.
— Fechado.
— Eu teria aceitado cinco — ele provocou.
— E eu teria pago dez — respondi o fazendo sorrir e abaixar os olhos por um segundo. Aquilo foi constrangimento? Eu constrangi um stripper? Eu devo tá muito bêbada!
O que foi novamente comprovado ao tentar me levantar. Eu cambaleei ao sentir tudo girar à minha volta e meu estômago revirou junto, quase me fazendo passar ainda mais vergonha.
— Você deveria ir pra casa — ele disse me amparando novamente. Eu poderia facilmente me acostumar com aquela quantidade de músculos me segurando. Caramba, quanto tempo eu não sinto um homem me segurando com essa quantidade de força.
— Eu só preciso encontrar a Sarah — respondi passando os olhos pelo lugar, sem sucesso. O grupo das meninas do trabalho ainda estava lá, mas não havia nem sinal dela — Droga. Vou ter que chamar o Uber — tirei o celular da bolsa e tentei digitar, logicamente com a coordenação motora de um bêbado.
— Tudo bem eu te levo, já encerrei por hoje — Retty respondeu e caminhamos em silêncio até o estacionamento. Ele me amparava de vez em quando, mas minha dignidade falava mais alto e então fiz questão de mostrar que já estava ótima e podia muito bem caminhar sozinha.
No carro, eu o conduzi parte do caminho até minha casa, enquanto ele tentava puxar assunto, provavelmente percebendo minhas pálpebras ficarem pesadas o suficiente para me manter acordada. Eu lutei com todas as minhas forças tentando prestar atenção no seu porte físico impecável, na boca bem desenhada e nos olhos que poderiam facilmente convencer uma mulher a fazer qualquer coisa que ele quisesse, mas assim que inclinei minha cabeça no vidro, eu soube que não teria mais volta.
— Ei? Você não pode dormir! Precisa me dizer onde mora. Ei?
E o som da sua voz grave e macia foi a última coisa de que me lembro antes de finalmente apagar.
